MULHERES

8 filmes para debater a legalização do aborto

No mês da luta pela descriminalização do aborto, AzMina selecionou 8 filmes e documentários que discutem o tema de diversas perspectivas.

11/09/2017 12:33 -03 | Atualizado 11/09/2017 12:33 -03
Bloomberg via Getty Images
Mas por trás dos números, há histórias que não nos deixam esquecer: a questão do aborto é complexa e não pode ser respondida com um simples "contra" ou "a favor".

Por Letícia Bahia

São 56 milhões – ou 3 Chiles inteiros – de abortos por ano, diz a Organização Mundial da Saúde. A relação entre desenvolvimento e queda no número de abortos já está mapeada, e pesquisas também já comprovaram que a proibição não reduz o número de abortos. Mas por trás dos números, há histórias que não nos deixam esquecer: a questão do aborto é complexa e não pode ser respondida com um simples "contra" ou "a favor".

No mês da luta pela descriminalização do aborto, AzMina selecionou 8 filmes e documentários que discutem o tema de diversas perspectivas. Do conservador Where Are My Children (1916) ao inspirador Vessel (2012), a lista traz em comum apenas uma certeza: precisamos falar sobre aborto.

1. Vessel (2012)

Este não é mais um documentário sobre histórias trágicas de aborto. Sob o comando da médica holandesa Rebecca Gomperts, a ONG Woman on Waves realiza expedições de barco a países onde o aborto é ilegal para levar mulheres para águas internacionais, onde vige a lei do país de origem da embarcação e onde elas podem abortar com segurança. Mas o que começou como um plano para ajudar algumas mulheres se tornou um dos mais audaciosos e bem sucedidos casos de ativismo feminista do mundo. Duelos com a imprensa, barricadas de ativistas anti aborto e um embate em rede nacional com um padre português são alguns dos desafios mostrados por esse documentário otimista que vai fazer você querer levantar do sofá para mudar o mundo.

Onde assistir: disponível no Netflix (com legendas em português) ou no YouTube (legendas em espanhol)

2. Clandestinas (2014)

Lançado no dia da luta pela descriminalização do aborto no ano de 2014, o documentário brasileiro de 23 minutos faz um pequeno panorama da situação das mulheres que abortam ilegalmente no Brasil, misturando experiências reais e atrizes que interpretam textos de mulheres anônimas que decidiram interromper a gravidez.

Onde assistir: disponível na íntegra no YouTube

3. After Tiller (2013)

Em 2009, o doutor George Tiller foi assassinado a tiros dentro de sua igreja. Tiller era um dos 5 médicos dos EUA a performar abortos no último trimestre de gestação. O documentário acompanha a rotina dos 4 profissionais que seguem realizando o procedimento. Mas não espere respostas: o que você vai encontrar aqui são histórias duras, pessoas mudando de opiniões e dilemas morais que podem balançar as crenças da mais obstinada das feministas.

Onde assistir: link da íntegra no YouTube, com legendas em português

4. When abortion was illegal – untold stories (1992)

Indicado ao Oscar em 1992, este documentário curta metragem conta histórias em primeira pessoa que revelam as consequências físicas, emocionais e legais de abortos nos EUA antes da legalização, em 1973. Dorothy Fadiman é uma das mulheres a contar sua história e diretora deste filme, primeiro de uma trilogia chamada Dos Becos Escuros à Suprema Corte e Além.

Onde assistir: link da íntegra no YouTube (em inglês)

Se estiver com pouco tempo, Motherhood by choice, not chance, também de Dorothy Fadiman, é um material mais enxuto, pensado para chegar a escolas, conferências e exibições públicas. No Vimeo (em inglês)

5. 12th & Delaware (2010)

Em uma mesma esquina da Flórida, há uma clínica pró vida pertencente a uma igreja e uma clínica de abortos. Da encruzilhada ideológica resulta uma série de embates acompanhados por um ano pela produção deste documentário da HBO.

Onde assistir: link da íntegra no Vimeo (em inglês)

6. The abortion diaries (2005)

Se o aborto é tão comum, por que nunca é tema de conversas na mesa de jantar? Por que as mulheres que abortam sentem-se tão sozinhas, por que não há espaço para que compartilhem suas experiências? Essas são as perguntas que norteiam os 30 minutos deste documentário da diretora Penny Lane.

Onde assistir: link da íntegra no Vimeo (em inglês)

7. Uma história severina (2005)

Antes da decisão do Supremo Tribunal Federal que, em 2012, definitivamente autorizou abortos de fetos anencéfalos, Severina viu-se no meio de idas e vindas de decisões judiciais. Depois de conseguir autorização para interromper a gestação de seu feto anencéfalo, ela internou-se para, no dia do procedimento, ver sua decisão revertida e ser obrigada a levar a gravidez a termo. Este documentário curta metragem acompanha sua história. Dirigido por Débora Diniz e Eliane Brum.

Onde assistir: link da íntegra no YouTube

8. Where are my children? (1916)

Uma viagem ao tempo do cinema mudo para compreender o aborto a partir de uma perspectiva histórica, esse drama americano conta a história de um promotor de justiça que, enquanto processa um médico por realizar abortos ilegais, descobre que esta realidade está bem mais próxima do que supunha. Se o conservadorismo se mostra por meio de uma posição firmemente contrária ao aborto, o longa rompeu barreiras ao fazer, em 1916, uma defesa enfática da contracepção e do planejamento familiar.

Onde assistir: link da íntegra no YouTube (filme mudo com legendas em inglês)

LEIA MAIS:

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  • Quem é a mulher que aborta no Brasil
    Pilar Olivares / Reuters

    Olhe para o lado.

    Entre as cinco mulheres próximas a você, pelo menos uma delas já pode ter feito aborto em segredo.

    A conclusão é da Pesquisa Nacional de Aborto 2016 (PNA), realizada pela Anis - Instituto de Bioética e pela Universidade de Brasília (UnB) e divulgada na revista Ciência e Saúde Coletiva, que entrevistou 2.002 mulheres entre 18 e 39 anos. Uma em cada cinco delas já fez, pelo menos, um aborto na vida.

    A pesquisa traz ainda um número alarmante, com base em um cruzamento de dados do IBGE: 503 mil de mulheres entre 18 e 39 anos fez aborto só no ano passado no Brasil. Destas, 417 mil vivem em áreas urbanas.

    Ou seja, 1.300 mulheres por dia - quase uma por minuto - arriscaram a vida e a segurança para interromper, ilegalmente, uma gravidez em 2015.

  • Elas são tias, primas, irmãs...
    Getty Images

    Segundo a pesquisa, 67% delas têm filhos e 88% declaram ter religião - 56% são católicas, 25% são evangélicas ou protestantes e 7% professam outras religiões. Isso significa que 2,6 milhões de mulheres católicas já fizeram aborto ao longo da vida no Brasil.

    A PNA 2016 também revelou que o aborto é um procedimento que faz parte da vida reprodutiva de mulheres de todas as classes sociais e níveis educacionais, mas as mulheres negras e indígenas, com menor escolaridade, e que vivem no Norte, Nordeste e Centro-Oeste apresentaram taxas de aborto mais altas.

  • Métodos mais utilizados
    Fernando Frazão/ Agência Brasil
    O principal método utilizado para a interrupção da gravidez foi o uso de medicamentos. Mais da metade delas usou remédios para abortar, cerca de 52%. Outros 44% das mulheres foram a clínicas clandestinas ou utilizaram outros métodos. Houve uma queda no número de mulheres que precisou ficar internada para finalizar o aborto: em 2010, eram 55%; em 2016, 48%.
  • Descriminalização
    REUTERS

    A descriminalização do aborto é colocada em pauta com frequência. No final de 2016 um caso de interrupção da gravidez antes do primeiro trimestre foi aprovada por três de cinco ministros no STF, mas foi algo válido somente para esse caso.

    Debora Diniz, antropóloga e coordenadora da Pesquisa Nacional de Aborto 2016 (PNA) diz: "A discussão sobre aborto nessa única década foi essa, a da descriminalização. Não é nenhuma novidade essa conversa do [Rodrigo] Maia. Quando discutem aborto, elas vão de encontro a uma questão moral, não no cerne da questão. E vivemos em uma multidão de homens tomando decisões pelas mulheres”.