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Laços sociais são mais importantes que garrafas d’água na recuperação de regiões atingidas por desastres

Municípios onde os níveis de confiança e interação entre os moradores são mais altos apresentam índices de mortalidade mais baixos.

08/09/2017 15:08 -03 | Atualizado 08/09/2017 15:13 -03
Warren Antiola/Flickr, CC BY-NC-ND
Sobreviventes deixam Tohoku um dia após o terremoto e tsunami de 11 de março de 2011.

Por Daniel P. Aldrich

Os conselhos normalmente dados sobre a preparação para enfrentar catástrofes enfocam a construção de abrigos e a formação de estoques de alimentos, água e pilhas. Mas a resiliência – a capacidade de nos recuperarmos de choques, incluindo catástrofes naturais – vem de nossos vínculos com outras pessoas, não de infraestrutura física ou kits para enfrentar desastres.

Quase seis anos atrás o Japão sofreu uma catástrofe tríplice e paralisadora: um terremoto poderoso, um tsunami e derretimentos nucleares que forçaram 470 mil pessoas a abandonar mais de 80 cidades e povoados. Meus colegas e eu pesquisamos como as comunidades das áreas mais atingidas reagiram aos choques. Vimos que as redes sociais – os vínculos horizontais e verticais que nos conectam a outras pessoas – constituem nossa defesa mais importante contra desastres.

A catástrofe de 2011

Um terremoto tremendo de 9,0 graus sacudiu o Japão às 14h46 da sexta-feira, 11 de março de 2011, tendo seu epicentro ao largo da costa nordeste do país. O terremoto foi mais forte e durou mais tempo que as centenas de abalos que assustam o país todos os anos, mas não chegou a causar grandes danos às residências e estabelecimentos comerciais. Infelizmente, porém, o perigo estava longe de ter acabado.

Quarenta minutos mais tarde, ondas enormes de água, algumas com a altura de um prédio de seis andares, invadiram comunidades litorâneas na região de Tohoku, no nordeste do Japão. Cerca de 18.500 pessoas morreram, principalmente devido ao tsunami.

Danos decorrentes do terremoto e tsunami provocaram a paralisação dos sistemas de resfriamento dos reatores 1 a 3 da usina nuclear de Fukushima Daiichi, que sofreu derretimentos de combustível nuclear. Mais de 160 mil pessoas foram obrigadas a evacuar a região de Fukushima. Inicialmente a zona de exclusão por radiação cobria uma área de 14 mil quilômetros quadrados, mas ela vem diminuindo lentamente à medida que avançam os trabalhos de descontaminação.

Mais de 470 mil pessoas ao todo foram evacuadas durante o desastre. O acidente nuclear paralisou a política nacional, deixou inúmeros sobreviventes angustiados e deprimidos e mudou toda a paisagem da política energética no Japão, levando os moradores locais a buscar opções não nucleares. Muitas comunidades lançaram cooperativas de eletricidade usando energia geotérmica, solar e eólica para produzir a eletricidade que consomem.

O que salvou vidas durante o tsunami?

Eu e um colega japonês queríamos descobrir qual a razão das variações enormes na mortalidade decorrente do tsunami. Em algumas cidades ao longo do litoral, ninguém morreu, apesar de as ondas terem alcançado mais de 18 metros de altura; em outras, até 10% da população morreu.

Estudamos mais de 130 cidades grandes e pequenas em Tohoku, analisando fatores como exposição ao oceano, altura do quebra-mar, altura do tsunami, padrões eleitorais, fatores demográficos e capital social. Descobrimos que, depois de levados em conta todos esses fatores, os municípios em que os níveis de confiança e interação entre os moradores eram mais altos apresentavam índices de mortalidade mais baixos.

O tipo de vínculo social que fez diferença aqui foi o horizontal, entre os habitantes das cidades. Foi uma descoberta surpreendente, considerando que o Japão já gastou valores altíssimos com infraestrutura física, como quebra-mares, mas investiu muito pouco até hoje na construção de laços e coesão social.

Baseados em entrevistas com sobreviventes e numa revisão dos dados, acreditamos que as comunidades em que havia vínculos maiores entre os habitantes, interação maior e normas compartilhadas trabalharam com eficácia para prestar assistência a familiares e vizinhos. Em muitos casos, apenas 40 minutos separaram o terremoto e a chegada do tsunami. Durante esse tempo, moradores literalmente carregaram nas costas muitos idosos que viviam em áreas vulneráveis, mais baixas. Nos bairros em que havia alto grau de confiança entre os moradores, as pessoas bateram nas portas de pessoas que precisavam de ajuda e as levaram para fora da zona de perigo.

USCG/Flickr, CC BY-NC
Barcos resgatam pessoas nas ruas inundadas de Nova Orleans após a passagem do furacão Katrina, em 11 de setembro de 2005.

O que ajudou na recuperação das cidades?

Em outro estudo, procurei entender por que o tempo levado por 40 cidades e vilarejos da região de Tohoku para se recuperarem das catástrofes, incluindo o tempo levado para as crianças voltarem a frequentar as escolas e os estabelecimentos comerciais voltarem a funcionar, variou tremendamente. Dois anos após os desastres, algumas comunidades pareciam ter ficado paradas no momento da tragédia, tendo dificuldade em restaurar mesmo metade do funcionamento de seus serviços básicos, da limpeza das ruas e do funcionamento de empresas. Outras cidades haviam se recuperado por completo, instalando pessoas que perderam suas casas em residências temporárias, restaurando o fornecimento de água e gás e limpando os destroços.

Para entender por que algumas cidades estavam tendo tanta dificuldade, analisei todas as explicações, incluindo o impacto da catástrofe, o tamanho de cada cidade, sua independência financeira, os vínculos horizontais entre cidades e os vínculos verticais entre a comunidade e o poder em Tóquio. Nessa fase de recuperação, os vínculos verticais eram os indicativos mais certeiros de uma recuperação forte.

As comunidades que haviam enviado representantes seniores mais poderosos a Tóquio nos anos anteriores se saíram melhor. Esses políticos e representantes locais ajudaram a pressionar o governo central a enviar ajuda, a buscar assistência dos governos de outros países e a resolver todos os complexos obstáculos burocráticos e de zoneamento.

É difícil para comunidades simplesmente decidirem enviar mais representantes seniores a Tóquio, mas elas podem tomar a iniciativa de criar vínculos com os tomadores de decisões. Além disso, podem se esforçar para transmitir uma mensagem unificada sobre as necessidades e a visão de sua comunidade.

Vínculos sociais, e não apenas areia

Os desastres na região de Tohoku reforçam as evidências anteriores sobre a importância das redes sociais e do capital social na recuperação de desastres em todo o mundo. As mudanças climáticas estão agravando a seriedade de algumas catástrofes, mas nossas descobertas encerram boas notícias. Os governos, as ONGs e os cidadãos privados têm muitas ferramentas à sua disposição para fomentar os vínculos horizontais e verticais.

Hoje, organizações sem fins lucrativos como a Cruz Vermelha Australiana, a BoCo Strong, de Boulder, Colorado, e a Organização Regional de Controle de Emergências de Wellington, Nova Zelândia, levam o capital social a sério quando trabalham para fomentar a resiliência. Nesses programas, moradores locais colaboram com entidades da sociedade civil para ajudar a fortalecer os vínculos, construir redes de reciprocidade e refletir sobre as necessidades de cada área. Em lugar de ficar paradas à espera de assistência do governo, essas áreas estão traçando seus próprios planos para mitigar crises futuras.

AP Photo/Charlie Riedel
Numa cerimônia em 2012, moradores de Joplin, Missouri, caminham ao longo do trajeto seguido por um tornado enorme que abriu caminho pela cidade um ano antes, deixando 161 mortos.

Como fomentar a resiliência

As comunidades podem fomentar a coesão e confiança de uma série de maneiras. Para começar, os moradores podem seguir o exemplo de Mr. Fred Rogers e conhecer seus vizinhos, que serão os primeiros a prestar assistência em qualquer crise. Em seguida, comunidades inteiras podem se esforçar para aprofundar suas interações e confiança, organizando dias de atividades esportivas, festas, festivais religiosos e outros eventos comunitários que fomentam a confiança e a reciprocidade.

San Francisco, por exemplo, dá ajuda financeira a moradores locais para promoverem a festa de rua NeighborFest, aberta a todos os moradores de um bairro. Os planejadores e visionários urbanos podem aprender a pensar como Jane Jacobs, proponente das cidades vivas e dos terceiros espaços – ou seja, espaços onde podemos nos encontrar socialmente fora do trabalho e de casa. Ao projetar os chamados "espaços públicos que criam lugares", como ruas de pedestres e feiras de rua, eles podem mudar o formato das cidades de modo a fomentar mais interações sociais.

Finalmente, as comunidades podem levar mais pessoas a fazerem trabalho voluntário, recompensando pessoas que se voluntariam e lhes dando benefícios concretos por seus serviços. Uma maneira de fazê-lo é com o desenvolvimento de moedas comunitárias, que são aceitas apenas por estabelecimentos comerciais locais. Outra estratégia é o chamado "time banking", em que os participantes ganham créditos por suas horas de trabalho voluntário e mais tarde podem usar os créditos para "pagar" pelos serviços de outros.

Após o 11 de março, uma organização em Tohoku vem procurando juntar todos esses tipos de programas – criação de capital social e design --, oferecendo um espaço comunitário administrado por idosos que foram evacuados de suas casas e que funciona como ponto de encontro entre vizinhos.

À medida que comunidades em todo o mundo enfrentam desastres com frequência cada vez maior, espero que minhas pesquisas no Japão após o 11 de março de 2011 possam indicar caminhos para moradores que enfrentam dificuldades enormes. A infraestrutura física é importante para mitigar catástrofes, mas as comunidades também devem investir tempo e esforço no fortalecimento de laços sociais.

The Conversation

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