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A história por trás de 70 anos de tensão entre EUA e Coreia do Norte

Desde o final da Segunda Guerra Mundial, os dois países mantêm relações marcadas por fortes atritos.

09/09/2017 07:58 -03 | Atualizado 09/09/2017 11:47 -03
KCNA KCNA / Reuters

As principais potências mundiais estão em alerta. A Coreia do Norte mostrou ao mundo no último domingo (3) que obteve sucesso em desenvolver uma arma nuclear. E não qualquer uma — tudo indica que o país tenha criado a bomba de hidrogênio, ou termonuclear, uma das mais devastadoras já criadas (veja mais detalhes no infográfico no final desta reportagem).

Este foi o sexto teste nuclear norte-coreano. O experimento com a bomba de hidrogênio, que segundo as autoridades norte-coreanas foi um "total sucesso", representa um importante e perigoso aumento das capacidades militares do país mais isolado do mundo. Os abalos sísmicos foram sentidos bem longe, informaram as estações de medição da Organização do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBTO, na sigla em inglês), em Viena, na Áustria. A Coreia do Norte não faz parte da CTBTO.

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Kim Jong-un e autoridades inspecionaram no domingo (3) artefato que, segundo a agência da Coreia do Norte, seria bomba de hidrogênio.

Em mais uma ameaça, o país liderado pelo ditador Kim Jong-un garante ainda que a bomba pode ser colocada em um míssil balístico intercontinental (ICBM), que teria sobrevoado o território japonês em um teste feito no fim de agosto.

As ameaças assustam o mundo. Mas elas são endereçadas a um inimigo em especial: os Estados Unidos — que, por sua vez, não deixam por menos. O temperamental presidente americano, Donald Trump, deixou claro que não vai dialogar e tuitou inúmeras vezes que os EUA estão preparados para uma "solução militar" caso seja necessário.

"As soluções militares estão totalmente posicionadas, as armas estão preparadas caso a Coreia do Norte aja de forma insensata. Espero que Kim Jong-un encontre outro caminho!"

Apesar de o clima ter esquentado no último ano, desde a posse de Trump, a tensão entre os países é de longa data, precisamente, após o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1948, a Coreia se divide em duas: a do Norte, governada por Kim Il-sung, com apoio da União Soviética, e a do Sul, que ganhou proteção dos americanos.

Em junho de 1950, a Coreia do Norte invade a do Sul, com apoio da União Soviética e da China, em um episódio que ficou conhecido como a Guerra da Coreia. Com reforço militar dos EUA, Seul é retomada e a guerra chega ao fim três anos depois, com um cessar-fogo que nunca foi oficializado como tratado de paz. A guerra deixou quatro milhões de mortos, e as tensões continuaram entre os países.

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Soldados americanos em uma batalha para a libertação de Seul, em setembro de 1950.

"A Coreia do Norte praticamente nasce com os Estados Unidos sendo seus principais inimigos", resume ao HuffPost Brasil o professor de Relações Internacionais da PUC (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Carlos Gustavo Poggio.

Nas décadas seguintes, mais atritos abalam tal relação. A Coreia do Norte capturou um navio de espionagem americano em 1968, e no ano seguinte, derrubou um avião de reconhecimento americano. No final dos anos 90, Kim Jong-il, que sucedeu o pai, se compromete a desmantelar seu programa nuclear, mas a promessa não dura muito tempo e um míssil balístico de longo alcance é testado.

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Oficiais e a tripulação do navio americano USS Pueblo foram capturados pela Coreia do Norte em 68, quando navegaram por águas internacionais.

A rixa se intensifica depois do atentado de 11 de setembro. Em 2002, o então presidente dos EUA, George W. Bush, inclui o país no que classificou de "Eixo do Mal", junto ao Iraque e Irã.

"A partir deste momento, a Coreia começa a perseguir de forma mais agressiva para obter seu poderio nuclear", explica Carlos Poggio. "Kim Jong-il percebe que se o Iraque tivesse armas nucleares, provavelmente não teria sido invadido pelos EUA. Esse foi o pensamento estratégico que a Coreia tem feito desde então."

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George W. Bush aumentou rixa com Coreia do Norte, ao incluí-la no 'Eixo do Mal'.

Só em 2008 que Washington tira a Coreia do Norte da lista negra de países que apoiam o terrorismo. Em troca, os Estados Unidos exigem controlar as instalações nucleares do regime.

Nos últimos anos, vários americanos foram detidos no país totalitário e soltos anos depois. Alguns continuam presos até hoje.

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Kenneth Bae encontra sua mãe e irmã ainda na base das Forças Aéreas americanas. Ele e mais dois americanos estavam presos na Coreia do Norte desde 2012, acusados de cometerem crimes contra o Estado. Eles haviam sido sentenciados a 15 anos de prisão, mas foram resgatados pelo serviço de inteligência americana em setembro de 2014.

Inimigo nº 1

Os sucessivos conflitos entre os EUA e a Coreia do Norte não são apenas históricos, mas também ideológicos. Conforme professor de Negociação e Resolução de Conflitos da FGV Yann Duzert, explica, Kim Jong-un precisa dos Estados Unidos para justificar seu regime.

"O ditador precisa mostrar que existe um país inimigo externo para valorizar o patriotismo e a política totalitária. É uma maneira de guardar o poder e fazer que o líder tenha adesão do povo contra o inimigo comum", disse Duzert, que tem pós-doutorado na Universidade de Harvard.

É a velha manipulação de povo: caracterizar um inimigo, no caso os EUA, para justificar a miséria que a Coreia do Norte passa hoje, por conta das sanções das Nações Unidas, e também para fundamentar a necessidade de armas nucleares.

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Parada na Coreia do Norte em abril de 2017.

Desde 2006, quando o regime norte-coreano executou seu primeiro teste nuclear, as Nações Unidas adotaram um total de sete sanções, progressivamente severas, como embargo de armas, bloqueio de ativos e proibição de importar carvão. O resultado foi devastador para a economia do país, que até hoje precisa de ajuda de vizinhos para lutar contra a miséria da população.

"Essa desigualdade econômica também é um problema para Kim Jong-un, e legitimar o regime se torna cada vez mais difícil, vendo o sucesso da Coreia do Sul, China e do Japão. O país está isolado, atrasado e sua única parceira comercial, a China, não está disposta em ser sua aliada incondicional", acrescentou Yann Duzert.

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Um bebê norte-coreano desnutrido recebe atendimento em um hospital da província South Pyongan em setembro de 2002. A Coreia do Norte recebeu apoio e contou com doações do Programa Mundial de Alimentação das Nações Unidas.

Na análise do professor da PUC Carlos Poggio, Trump acaba alimentando o jogo da Coreia do Norte quando faz declarações de ameaças e até ao menosprezar o país. "Ele estimula a Coreia do Norte a continuar perseguindo este tipo de saída [guerra]. Ele mesmo foi um candidato que não valorizou a diplomacia."

Para Poggio, as tensões aumentaram desde que Trump assumiu a presidência dos EUA. "Ele é um presidente que desconhece o básico da política externa. Acha que com bravatas consegue assustar líderes internacionais, e não é bem assim. Também, quando faz uma série de ameaças e não as cumpre, causa um custo alto de credibilidade ao país", explicou.

Por que a Coreia do Norte é tão temida pelo mundo?

Conforme o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP), os países que têm armas nucleares são os Estados Unidos, Rússia, China, Reino Unido e França. Mas é a Coreia do Norte que causa mais temores em todo o mundo, mesmo que seu programa nuclear não seja tão avançado como o dos demais países. Então, o que a Coreia do Norte tem de tão assustador? Segundo o professor de Relações Internacionais da PUC, a resposta está no seu isolamento.

"Mesmo sobre China e Rússia temos algum nível de informação, que compreende as ações de seus governos. No caso da Coreia do Norte, sabemos muito pouco sobre o país e sobre o líder Kim Jong-un. Os países tentam interpretar as ações dele a partir do que ele divulga", explica.

Então temos um país que depende da vontade de um único indivíduo e sabemos muito pouco sobre ele. Essa é uma questão que torna uma arma nuclear da Coreia do Norte mais perigosa do que uma arma nuclear nas mãos da China, por exemplo.

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Kim Jong-un visita o Instituto de Química na Coreia do Norte em 31 de agosto.

Uma 3ª Guerra Mundial a caminho?

Para especialistas, a relação entre a Coreia do Norte e os EUA, Japão e Coreia do Sul, já está no limite. A inexperiência do jovem líder norte-coreano e a postura nada diplomática de Trump podem causar "ações abruptas e excessivas", e tornar uma faísca de fósforo em um "grande incêndio". Mas, caso chegasse às últimas consequências, a guerra entre estes países não se enquadraria a uma Terceira Guerra Mundial.

"Nas guerras mundiais aconteceu uma série de alianças. Você não vê isso agora; ninguém quer se aliar à Coreia do norte e atacar os EUA", pondera Poggio.

Se acontecesse, a guerra seria regional, concentrada na Ásia, mas ainda assim teria proporções trágicas. "Trump já foi avisado por seus generais que uma solução militar seria desastrosa", alerta o professor de Relações Internacionais da PUC.

De acordo com Yann Duzert, especialista em Resolução de Conflitos da FGV, os dois países erram ao almejar o velho jeito de negociar, aquele focado nos próprio interesses. "Estamos vendo dois países que jogam xadrez, dois líderes novos que pensam que o mundo é um jogo de tabuleiro, com escalação verbal, militar e de poder. Estamos diante de um velho jeito de negociar, de 'ou ganha ou perde', sem buscar o 'ganha, ganha'", afirma.

Para o professor, uma mediação maior da Europa e da própria China poderia diminuir a tensão. O ponto principal, segundo ele, é pensar em estratégias de como o regime norte-coreano poderia ter uma transição.

"Em vez de apenas tachá-los como atrasados, poderia haver um reconhecimento da identidade da Coreia do Norte, ver como aos poucos pode evoluir a educação, a economia social do país e, com o tempo, como poderia mudar o regime. Acabar com um regime não vem do dia pra noite. É preciso ter um mediador que proteja ambas as partes", conclui.

HuffPost Brasil

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