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Coreia do Norte deixa o mundo em pânico, mas teste de suposta bomba de hidrogênio não muda muita coisa

Só neste ano, o país já testou mais de 20 mísseis.

05/09/2017 22:41 -03 | Atualizado 05/09/2017 22:41 -03
EPA/Franck Robichon
Ele voltou com tudo.

Por Virginie Grzelczyk

A Coreia do Norte realizou seu sexto teste nuclear, e, com base no que sabemos até agora, este parece ter sido de longe o maior. A agência de notícias de Pyongyang, a KCNA, descreveu o teste como "sucesso perfeito" e disse que o dispositivo testado foi uma bomba avançada de hidrogênio de dimensões suficientemente reduzidas para ser encaixada na ponta de um míssil de longo alcance.

Embora ainda seja cedo para confirmar se é verdade, ficou claro que o dispositivo testado pela Coreia do Norte foi muito maior que os anteriores. Leituras sísmicas detectaram uma explosão através de um terremoto de 6,3 graus de magnitude, e o observatório sismológico norueguês NORSAR sugeriu que a potência explosiva do artefato pode ter sido enorme, de 120 quilotoneladas.

Após alguns meses extremamente tensos de discursos intransigentes, lançamentos de mísseis, exercícios militares e movimentações de tropas, parece que a Coreia do Norte chegou muito perto de realizar aquilo que sempre declarou ser seu objetivo: construir um artefato viável de dissuasão termonuclear capaz de ser impelido por um míssil. Será que finalmente é hora de as pessoas correrem para seus abrigos antibombas?

Antes de responder, vale a pena analisar o que Pyongyang vem fazendo nos últimos tempos – e a razão por que o vem fazendo.

Os planos mais bem traçados

A Coreia do Norte testou mais de 20 mísseis em 2017 até agora (4 de setembro). Alguns foram de curto alcance, alguns de médio alcance; muitos deles foram direcionados para cair no Mar da China Oriental. Alguns lançamentos fracassaram, mas um dos mísseis sobrevoou o norte do Japão. Nenhum desses lançamentos ocorreu no vazio. Fizeram parte de uma interação complexa, quase coreografada entre os atores mais importantes do leste asiático, uma dança composta de movimentações militares, iniciativas políticas domésticas e aspirações internacionais.

Os problemas da península coreana sempre se resumiram às questões que ficaram sem solução na divisão da Coreia, o armistício pós-Guerra da Coreia e os milhares de tropas dos EUA estacionados permanentemente na região em nome da reconstrução e proteção do Japão e da Coreia do Sul. A presença militar americana é uma ameaça direta à segurança da elite no poder em Pyongyang e proporciona um pretexto para o governo de Kim alegar que precisa de uma força militar enorme e um instrumento de dissuasão nuclear.

A Coreia do Norte ficou especialmente preocupada nos últimos 12 meses com a instalação pelos EUA do sistema THAAD (Defesa Terminal de Alta Altitude), fabricado pela Lockheed Martin, um sistema de intercepção de mísseis balísticos. O THAAD é visto como controverso também pela China e a Coreia do Sul, mas em março já estava instalado na península. Até então, a Coreia do Norte já havia testado um novo míssil Pukguksong-2, aparentemente assassinado o meio-irmão de Kim Jong Un, Kim Jong-nam, e, no dia 6 de março, lançado quatro mísseis balísticos de médio alcance no Mar da China Oriental.

EPA/KCNA
O míssil balístico Hwasong-14.

Com o THAAD parcialmente instalado e operacional no início de maio, e com um novo presidente assumindo o poder na Coreia do Sul, nas semanas seguintes a Coreia do Norte disparou vários outros mísseis de outros alcances. Os EUA, enquanto isso, conduziram seus exercícios militares conjuntos de praxe, envolvendo defesa antimísseis, com a Coreia do Sul e despacharam navios militares para águas próximas da península coreana.

Também como de costume, a comunidade internacional condenou todos os lançamentos com a saraivada habitual de críticas: inaceitável, deplorável, inadmissível. Tudo isso culminou em 5 de agosto com a resolução 2.371 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que impõe sanções adicionais às exportações e importações norte-coreanas e a seus trabalhadores no exterior.

Está claro que a resolução não impediu a Coreia do Norte de levar seus planos adiante. Mas, embora este teste nuclear aparente ser um passo gigantesco em termos tecnológicos e políticos, é apenas um passo pequeno.

"Business as usual"?

Enquanto a atenção mundial se voltava principalmente à retaliação diplomática – e especialmente ao que Donald Trump faria quando fosse forçado a tomar uma decisão concreta em relação à Coreia do Norte --, várias fontes, incluindo o site 38 North, já estavam informando que o local de testes Punggye-ri estava preparado para um novo teste nuclear e já estivera preparado desde abril. Esse fato não chegava a ser surpreendente por si só; uma bomba maior e mais possível de ser transmitida em um míssil é apenas o passo mais recente no programa nuclear e é algo que sempre fez parte da agenda.

Mas Pyongyang ainda não alcançou seu objetivo. Mesmo que já seja capaz (e isso é apenas hipótese) de encaixar uma bomba de hidrogênio sobre um míssil, ainda faltam ser resolvidos vários problemas técnicos difíceis, em especial como projetar mísseis de longo alcance capazes de reingressar na atmosfera sem se incendiarem.

Enquanto isso, tirando uma ação militar que seria altamente desaconselhável e imprevisível, a comunidade internacional parece ter poucas outras respostas possíveis a dar a Pyongyang senão sanções e retórica intransigente. Nenhuma das duas funcionou até agora, e é possível que ambas estejam começando a surtir efeito inverso ao desejado.

EPA/Jeon Heon-Kyun
Cientistas japoneses mostram imagens de satélite das plataformas de testes nucleares da Coreia do Norte.

Quando Donald Trump ameaçou a Coreia do Norte com "fogo e fúria" em retaliação pelos testes com mísseis de longo alcance, sugeri que era mais provável que seu discurso inflamatório apenas impelisse Pyongyang a lançar ainda mais mísseis. Parece que isso vai continuar. Assim que recebeu a notícia do teste nuclear mais recente, Trump não apenas sugeriu que a Coreia do Norte é um país vilão, uma declaração que não chegou a surpreender, mas que é motivo de constrangimento para a China.

Trata-se de um erro fundamental de percepção. Sim, o comércio com a China é vital para a economia norte-coreana, mas Pyongyang é responsável por seu próprio comportamento. Esta crise é energizada não pela suposta conivência da China, mas pela visão que a Coreia do Norte tem de sua própria segurança e proteção. E, como foi mencionado acima, essa visão de mundo vem da época do armistício coreano e seus problemas nunca resolvidos.

Está claro hoje que a Coreia do Norte já desenvolveu tecnologia suficiente para se arrogar o título de "potência nuclear", e se outros países consideram ou não que ela tem o direito de ser vista como tal não vem ao caso. Está igualmente claro que qualquer incursão militar contra o Norte muito provavelmente provocaria retaliação de um Estado hoje dotado de armas nucleares – ou seja, qualquer discussão de uma intervenção militar convencional é irrelevante, na prática.

Todas as partes envolvidas já têm plena consciência disso. Assim, o único caminho a seguir nesta crise é algum tipo de diálogo sobre como controlar o arsenal nuclear norte-coreano. Quando a segurança de milhões de pessoas está em jogo, dialogar com um adversário não constitui sinal de fraqueza.

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