COMPORTAMENTO

Como é o dia a dia de uma funerária?

Conversamos com uma mulher que dirige uma.

06/09/2017 11:17 -03 | Atualizado 06/09/2017 11:27 -03

Quando terminou o colégio, aos 17 anos, Joanne Place não sabia o que queria fazer.

"Mas meus pais disseram que eu precisava conseguir um emprego. Então busquei vagas em administração na minha região", disse Place ao HuffPost Austrália.

Uma das ofertas era de uma funerária. Como sua mãe lhe sugeriu que tivesse experiência com entrevistas de trabalho, Place se candidatou.

Só não esperava que aquele pedido de emprego repentino, meio sem querer, se transformaria numa longa carreira de sucesso. Place primeiro aprendeu a embalsamar, depois trabalhou como diretora funerária e acabou como gerente geral da InvoCare, a maior rede de funerárias, cemitérios e crematórios da Austrália.

"Nem minha mãe nem eu esperávamos que conseguiria o emprego, mas consegui", recorda. "Então comecei naquela funerária do interior, trabalhando na área administrativa, numa época em que você cuidava das contas a pagar e do atendimento aos clientes, e as pessoas costumavam pagar em dinheiro."

Place descobriu que tinha jeito para o que chama de "atenção genuína", necessária para lidar com as pessoas em luto. Assim, perguntou ao chefe se podia capacitá-la para ser diretora funerária.

"Ele concordou, mas disse que eu precisava estudar algo antes", relata.

"Na época, podia escolher apenas entre estudar gestão do negócio funerário, manejo do luto e embalsamamento. Ele era um embalsamador apaixonado pela maneira como os seres queridos das pessoas eram tratados, apresentados e cuidados", afirma Place. "Senti que eu era muito nova para pensar sobre a gestão desse negócio e compreender plenamente o conceito de manejo do luto. Então pedi a ele que me ensinasse a embalsamar. Ele concordou – e me tornei embalsamadora aos 21."

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Joanne Place organizou mais de 10.000 funerais.

Embora orgulhosa das conquistas, Place sabia que o embalsamamento era uma escolha estranha para uma jovem do interior de Queensland.

Para os novos amigos ou pretendentes, ela às vezes não falava toda a verdade sobre seu ofício. Ou simplesmente mentia.

"Eu dizia que trabalhava num banco, e aí as pessoas já não queriam saber muito mais sobre meu emprego", recorda.

"Dependendo da situação, eu contava que de fato trabalhava numa funerária, que era isso que eu fazia. Então as pessoas reagiam de duas formas. Primeiro, usavam o humor para tentar superar o nervosismo, fazendo as piadas de sempre", prossegue.

"Logo depois, porém, a conversa geralmente mudava. As pessoas ficavam muito interessadas. Elas me comentavam que o avô tinha morrido no ano anterior, por exemplo, e queriam saber se era correto o que tinha sido feito no velório."

"Nos filmes americanos vemos muita produção, muita maquiagem. Mas não é assim."

Esse interesse motivava uma série de perguntas, incluindo sobre a rotina na funerária e o modo de embalsamar os mortos.

"Hoje, o embalsamamento é feito com a injeção de um fluido [composto por água e formaldeído, que substitui o sangue] nas artérias. Usamos um aparelho que substitui o coração da pessoa e bombeia o líquido pelo corpo", explica Place.

A solução preenche todos os espaços de onde o sangue foi retirado, preservando o cadáver.

"Para a apresentação, usamos os fluidos de embalsamamento caso a pessoa, digamos, tenha morrido de ataque cardíaco e ficado com um lado do rosto manchado ou vermelho. Os fluidos dissipam a vermelhidão e trazem de volta a cor natural sem o uso de cosméticos."

"Nos filmes americanos vemos muita produção, muita maquiagem. Mas não é assim. Na verdade, os fluidos anulam a descoloração para que a visão dos familiares seja muito melhor."

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Place diz que sua 'atenção genuína' a ajuda a lidar com as famílias em luto.

Mas e as mortes traumáticas, como as de acidente de trânsito? O que fazer?

"Se alguém morre de forma trágica num acidente de carro, precisamos fazer a reconstrução. Temos cosméticos especiais para essas circunstâncias", diz. "Os parentes querem ver as pessoas como as conheciam. E cada uma de nossas funerárias tem pelo menos um embalsamador qualificado para fazer isso."

Place calcula que ajudou a organizar mais de 10.000 funerais aos longo dos 25 anos de carreira, mas admite que alguns a marcaram mais do que outros.

"Todos os agentes funerários têm experiências que levam consigo", afirma. "Lembro especialmente do serviço fúnebre que fizemos, com carruagem, para um senhor que distribuía leite em Eastwood [na Austrália]."

"Preparamos um cortejo com quatro cavalos e escolta policial no trajeto até o crematório. Para a família, foi muito bom poder realizar isso."

"Este negócio é uma vocação. Vivemos e respiramos isso. É a nossa vida."

"Outro aspecto é a organização de funerais para crianças – e compreender tudo o que envolvem. Você realmente se entrega à família durante esse período. Tive casos de duas ou três mães que me ligaram de noite – pode parecer bizarro, mas nessas horas eu visto a camisa – para perguntar se eu tinha dito boa noite aos filhos delas. 'Você disse mamãe te ama muito?', perguntavam. Numa situação como essa, claro que você diz."

Parece muito penoso, mas Place diz que seu trabalho vai além disso.

"Há alguns dias assim, mas não se trata exatamente de lidar com a morte ou com o luto", esclarece.

"É como faz qualquer gerente ao tentar construir uma cultura organizacional. Você lida com questões pessoais, como em toda empresa. Tenho 500 funcionários, e o objetivo é garantir que todos estejamos alinhados e seguindo na direção correta, como em qualquer outro negócio."

"Acredito que ser diretor funerário [e atuar nesse ramo de negócios] é uma vocação. Realmente vivemos e respiramos essa atividade. Não é algo que você simplesmente pode decidir fazer ('Ah, ok, serei um diretor funerário') sem se dedicar inteiramente. Isso passa a ser a sua vida."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost AU e traduzido do inglês.

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