ENTRETENIMENTO

A partida de Rogéria. A chegada de Ninete. E a discussão de gênero na TV

A diva morreu na noite desta segunda-feira (4).

05/09/2017 11:36 -03 | Atualizado 05/09/2017 15:55 -03

O Brasil acordou nesta terça-feira (5) com menos brilho, glamour, deboche e carisma. Rogéria, a "travesti do família brasileira", saiu de cena.

A atriz, que se intitulava "travesti da família brasileira", morreu nesta segunda-feira (4). Aos 74 anos, ela estava internada em um hospital do Rio de Janeiro com infecção urinária. Ela deu entrada no local no início de agosto, mas saiu do CTI no último dia 25. Entretanto, seu quadro piorou nos últimos dias.

Numa triste coincidência, como observou o colunista do UOL Nilson Xavier, nesta segunda à noite foi ao ar pelo canal Viva a primeira cena de Rogéria na novela Tieta, que foi ao ar originalmente na Globo em 1989.

Na estreia da atriz em um folhetim, ela interpretou Ninete, a administradora dos negócios da protagonista Tieta (Betty Faria) em São Paulo.

A personagem foi escrita por Aguinaldo Silva especialmente para Rogéria.

A chegada de Ninete movimentou a rotina da cidadezinha, assim como as conversas de botequins e elevadores Brasil afora - que passaram a discutir questões de gênero muito antes desse debate se tornar habitual.

Assista à cena no player abaixo:

Em outra cena da novela, desencadeada pela presença de Ninete, o público acompanhou uma verdadeira aula de combate à homofobia e transfobia por meio do diálogo entre os personagens de Betty Faria e Cássio Gabus Mendes.

Veja no player abaixo:

Quem acompanhou o folhetim de cabo a rabo sabe que em certo altura da trama Ninette se exalta em uma discussão e revela seu verdadeiro nome: Valdemar.

A figura da personagem poderia ser facilmente se confundir com Rogéria, que transitava sem problemas pelo masculino e feminino.

Sobre ataques transfóbicos, dizia: "Quando vinham com violência, eu virava um boxeador".

Consciente de sua homossexualidade desde a infância, a atriz afirmava também não sofrido represália na infância.

"Não tenho uma vida de bicha triste para contar. Subia em morro e em árvore, brincava com os garotos, dava porrada neles e protegia as meninas. Até hoje é assim. Nunca sofri bullying. Eu sou o bullying."

Rogéria começou a carreira como maquiadora da TV Rio, por onde passaram Fernanda Montenegri, Marlene, Dalva de Oliveira, Bibi Ferreira e Chico Aysio. Incentivada pelos astros e estrelas que maquiava, ela trocou os bastidores pelo palco.

Na década de 1960 foi para Paris, onde fez a transição visual.

Os cabelo curtos de Astolfo Barroso Pinto deram lugar a um penteado de diva inspirado em ninguém menos que Marilyn Monroe. Na Europa, Rogéria atuou em cabarés da Espanha, Inglaterra e França.

De volta ao Brasil, se consagraria símbolo do debate de gênero em plena época de maior repressão política recente na História do Brasil.

O novo nome surgiu de uma confusão em um concurso de fantasia em 1964.

"Foi num concurso de fantasia, março de 1964. Fiquei em primeiro lugar. E todo mundo queria saber meu nome. O apresentador errou no microfone: 'Ele é Rogério, maquiador da TV Rio'. E o povo começou a gritar 'Ro-gé-ria, Ro-gé-ria...'. Foi o povo quem me batizou."

Atriz, cantora, dançarina, vedete e apresentadora, Rogéria participou de mais de 20 produções de TV e mais de dez filmes brasileiros, além de dezenas de peças e musicais.

Neste ano, a atriz foi destaque do documentário Divinas Divas, sobre a geração de travestis da época de ouro da Cinelândia, no Rio de Janeiro — as décadas de 60 e 70.

"Sou travesti da família brasileira porque as senhoras me param na rua pra dizer que me amam e os senhores também", dizia.

Rogéria vai deixar saudades!

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