MULHERES

O que 3 agricultoras descobriram na roça que 'não aceita ordem de mulher'

"Já tive funcionário que disse que não recebia 'ordem de mulher'. Meu marido não acreditava na minha competência. Até a minha mãe questionava."

03/09/2017 08:00 -03 | Atualizado 03/09/2017 08:00 -03
Reprodução
Marlene Kaiut é produtora de leite no interior do Paraná.

Marlene Kaiut é produtora de leite em uma cidade de 20 mil habitantes no interior do Paraná. Quando tinha 24 anos, ela viu o sonho da produção própria ir praticamente à falência. Endividados e sem lucro na leiteria, o marido pensou em fechar tudo e desistir.

Foi aí que Marlene sentiu que poderia virar o jogo. Recém-formada em administração, pediu autorização ao "chefe da família" para que ela tentasse reerguer a produção. "Já que você quer, fica. Mas vai fazer tudo sozinha", foi o que escutou, como disse em entrevista ao HuffPost Brasil.

Cinco anos depois da crise, Marlene já foi premiada pelo Sebrae por suas atividades na terra. A produtora de 37 anos passou de uma produção que tirava 14 litros de leite por dia para 21 litros diários. Enquanto isso, o marido pôde se dedicar a agricultura. Tudo deu tão certo que a "rocinha" ganhou uma casa de 400 metros quadrados e a família tem, hoje, uma renda livre de cerca de vinte mil reais, como conta.

Ao olhar tudo o que construiu, Marlene não desmerece seus esforços e lembra de situações de preconceito e constrangimento que precisou enfrentar.

"Já tive funcionário que disse que não recebia 'ordem de mulher'. Meu marido não acreditava na minha competência. Até a minha mãe questionava o porquê de eu querer passar meus dias em meio às vacas. Mas eu sou abusada, sou exigente e gosto das coisas com excelência. Mostrei a todos que eu era capaz. E que lugar de mulher é onde ela quiser", define.

Divulgação/Nestlé
Marlene Kaiut transformou a produção de leite em sua propriedade.

Juntas no campo

A produtora rural paranaense faz parte de um movimento de mulheres que estão cada vez mais em busca de reconhecimento por seus trabalhos no campo, seja na agricultura ou na pecuária.

Em março, a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário (Sead) lançou a campanha internacional #MulheresRurais com objetivo de dar visibilidade ao trabalho que elas desempenham e que impactam em um desenvolvimento socioeconômico sustentável.

De acordo com o Censo Agropecuário, 12,68% dos estabelecimentos rurais têm mulheres como responsáveis, assim como elas comandam 16% dos estabelecimentos das agriculturas familiares.

São mais de 14 milhões de brasileiras que estão nas lavouras, comunidades quilombolas e indígenas, nas reservas extrativistas e são as protagonistas da agricultura familiar no Brasil. Ainda, 45% dos produtos que são plantados e colhidos passam pelas mãos femininas.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) defende que as mulheres rurais cumprem uma série de funções-chave para a segurança alimentar regional, mas enfrentam altas taxas de pobreza, insegurança alimentar e obesidade.

Além disso, têm menos acesso aos recursos produtivos como terra, água, crédito e capacitação. Esses fatores que impedem que as mulheres rurais desenvolvam todo o seu potencial.

Presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais, Mazé Morais defende que o trabalho no campo empodera as mulheres já que elas conseguem uma independência financeira a partir de suas produções.

"As mulheres sempre foram fundamentais na agricultura familiar. É uma atividade que a mulher consegue ter uma renda própria, porque elas produzem para consumo próprio, mas também consegue produzir para feiras, fornecedores e outros tipos de venda. É uma atividade que favorece a autonomia delas e elas se sentem empoderadas e incentivada a partir da geração de suas próprias rendas", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Morais, contudo, chama atenção para a falta de políticas públicas em favor das trabalhadoras rurais, bem como a questão de que os poucos espaços já conquistados por elas não estão sendo incentivados pelo atual governo.

"Muitas dessas mulheres já são produtoras independentes e se tivessem acesso a um crédito mais facilitado poderiam expandir suas produções e ainda qualificá-las", argumenta.

É devido à essas demandas que todos os anos acontece em Brasília a Marcha das Margaridas. Morais explica que o movimento é fundamental porque coloca em pauta questões específicas para as trabalhadoras rurais.

"É um momento de formação, de escuta, porque a marcha não é apenas um ato em Brasília. Antes, tem todo um percurso que perpassa por essas comunidades no interior, em municípios e assentamentos, e acontecem discussões. São com esses debates que a gente é capaz de construir um documento que agregue as necessidades dessas trabalhadoras", defende.

Divulgação
A Marcha das Margaridas traz as pautas das trabalhadoras rurais.

Ao HuffPost Brasil, três mulheres compartilharam suas experiências na produção agropecuária do interior de Minas Gerais, em Carmo do Paranaíba.

Raquel Silva

Eu nasci aqui mesmo há 44 anos. Morei em cidade por apenas dois anos. Fui para estudar enfermagem, mas abandonei. Eu decidi voltar para a roça e comecei a ajudar na administração. A gente produzia pouco leite, o dinheiro não dava para a despesa. Falei com meu marido que eu preferia abandonar a faculdade para ajudar na criação, assim a gente conseguiria uma melhor estrutura para que as meninas [ela têm três filhas] pudessem estudar mais tarde. Ele não teve resistência e apoiou que eu voltasse, mas o problema começou ai. Sempre que eu quero fazer alguma mudança na roça ou quero opinar em algo na administração, ele demora muito para me escutar. A gente sempre briga antes, as vezes eu até choro, e só depois ele percebe que pode ser uma boa ideia.

Eu sou a única mulher da minha família que voltou para a roça. Minhas irmãs estão na cidade e elas me chamam de doida. Minha mãe também foi criada na roça, mas ela era muito submissa e não interferia em nada. Eu não, eu me meto em tudo. Agora, por exemplo, estou fazendo um curso para melhorar a nossa produção de café. Meu marido não incentivava, mas quando ele viu que os resultados vêm, ele se anima. Tem que bater o pé e insistir.

Muita coisa que eu consegui teve lágrimas antes. Eu falava que queria fazer de um jeito, ele dizia que não ia dar certo. Ai eu ficava na minha, às vezes chorava, mas ele não cedia. Mas eu pensava que precisava fazer aquilo acontecer porque sabia que poderia dar certo. A resistência vem dessa mente fechada, porque o pai dele fazia de um jeito e ele deu continuidade aquilo.

Eu gosto muito da zona rural, gosto dessa paz, não me arrependo de ter voltado. A gente faz leite, planta café e eu faço manteiga e requeijão. Se você cuidar e se dedicar, a terra vai te dar retorno. Hoje nós temos investimentos aqui. Eu pego financiamentos. Prefiro muito mais do que ganhar um salário. Aqui empreendo no que é meu. Aqui construo o meu sonho. Enquanto que se você for trabalhar para alguém, por mais que você se envolva e faça um trabalho bom, você vai está realizando o sonho dos outros.

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Fazenda de leite em Carmo do Paranaíba.

Ana Maria Menezes

Entrei na produção de leite e café quando fiquei viúva e tive que assumir a direção da fazenda. Tinha 33 anos na época e não tinha para quem repassar a terra. Na época, meus filhos tinham dois e oito anos cada e eu não tenho nenhum irmão. Então, fiz um curso de administração rural à distância e comecei a perceber que o meu gerente estava lucrando mais do que eu, por que ele redirecionava as contas. Quando assumi, eu não sabia nada. Tive que me tornar uma profissional. Meu maior desafio foi aprender. E acho muito importante ver o exemplo dessas mulheres que realmente fazem a fazenda, não só administram. A gente vê que cada uma tem o seu potencial diferente, mas que todas são pouco valorizadas. Antigamente, a mulher ficava atrás, hoje, com 61 anos, eu vejo que ela está no minimo ao lado dos homens nas tarefas, e muitas vezes você vê a superação delas.

Marlene Kaiut

O meu começo foi super difícil. Eu não entendia nada da parte de agricultura e pecuária. Tomei a decisão por impulso e hoje estou colhendo resultados satisfatórios. Antes de casar, eu nunca tinha acompanhado o processo da leiteria. Muita gente duvidou dos meus projetos, mas eu acreditava que tinha capacidade. Tinha acabado de me formar em administração e tinha conhecimento para fazer aquilo acontecer. Então eu pensava que aquelas críticas não poderiam me abalar, que eles não poderiam simplesmente continuar falando 'não' para mim.

O meu primeiro funcionário argumentou que não recebia ordens de mulher quando eu assumi a leiteria. Se eu tivesse cedido, se eu tivesse chamado o meu marido e não tivesse enfrentado, eu não ia ter conseguido, ele nunca iria me respeitar. Mas fui bem clara, disse que eu ia ser a patroa dele e que ele ia ter que trabalhar comigo. Infelizmente tive que demiti-lo, porque ele simplesmente não aceitou que eu tomasse conta da leiteria.

Quero mostrar as outras mulheres que elas conseguem sim assumir qualquer atividade que elas quiserem. É muito satisfatório ver alunos de grandes universidades irem até a minha casa para conhecer o processo de produção, porque muitos deles nunca viram, só conhecem o leite que vem embalado na caixa do supermercado.

Para ter os meus resultados, tenho que estar todos os dias na leiteria. Minha filha mais nova praticamente nasceu em meio à ordenha. Dava quatro da manhã eu tinha que ir tirar o leite das vacas e ela estava comigo. Trabalhei até quatro horas antes dela nascer.

E a gente aprende que quando a gente sabe da nossa capacidade, o lugar de mulher é onde ela quiser. Se ela quer tirar leite, ela vai tirar. Se ela quer plantar, ela vai plantar. Se ela quer ir pra cidade, ela vai. Não é só na cozinha. A mulher é muito forte, eu mesma encontrei forças onde eu nem sabia que tinha.

*A jornalista viajou para Carmo do Paranaíba a convite da Nestlé.

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