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Como o ódio online se infiltra nas redes sociais e na política

Comunidade do ódio 'amigável para o usuário' está unindo forças de uma forma que nunca poderia acontecer no mundo offline.

03/09/2017 09:00 -03 | Atualizado 03/09/2017 09:00 -03
Getty Images/iStockphoto
De pessoa a pessoa, o ódio online se espalha rapidamente.

Por Adam G. Klein

No final de fevereiro, a manchete de um site de comentários de notícias que recebe mais de 2,8 milhões de visitas mensais anunciou: "Judeus destroem outro de seus próprios cemitérios para culpar o Trump". A história, inspirada na recente profanação de um cemitério judaico na Filadélfia, era a fantasia de um site antissemita conhecido como Daily Stormer. Com apenas uma manchete, o site pode conseguir algo que nenhum grupo de ódio seria capaz 20 anos atrás: conectar-se com uma audiência enorme.

DailyStormer.com
O discurso de ódio se move rapidamente das margens para o mainstream.

Quem, e quantos, essa mais recente conspiração pode alcançar é, em parte, a história das "fake news", ou notícias falsas, fenômeno em que a propaganda tendenciosa é disseminada como se fosse jornalismo objetivo, na tentativa de corromper a opinião pública. Meu livro recente sobre a cultura do ódio digital, "Fanaticism, Racism, and Rage Online" (fanatismo, racismo e raiva online, em tradução livre), explora o submundo online no qual se originam muitas dessas falsas narrativas. Investigo as fontes menos conhecidas de todas essas "notícias" baseada em ódio que contaminam nosso debate público, ajudando a cultivar uma realidade distorcida, para seus fieis fervorosos, e uma política polarizada, para o resto de nós.

Olhar para os sites mais visitados de movimentos que até pouco tempo estavam diminuídos – supremacistas brancos, xenófobos militantes e negadores do Holocausto, só para mencionar alguns -- revela uma cultura online revitalizada. Por exemplo, de acordo com análise da SimilarWeb, o Stormfront, site da supremacia branca mais antigo, recebe mais de 2 milhões de visitas mensais. Isso é meio milhão a mais que a soma dos sites de NAACP(entidade que defende os direitos dos negros americanos), GLAAD (entidade de defesa dos direitos da comunidade LGBT), Liga Anti-Difamação (entidade que denuncia o antissemitismo) e Conselho Nacional da La Raza (entidade de defesa dos direitos da população latina).

Mas o tamanho e o alcance por si só não representam o alcance sem precedentes que esses sites encontraram na era digital. Sua ascensão reflete o improvável surgimento do ex-líder da Ku Klux Klan David Duke, que abandonou as túnicas da KKK para tornar-se deputado na Assembleia Legislativa do Estado da Louisiana. A direito radical de hoje também está mudando seu perfil, trocando as suásticas e o rock white-power por blogs políticos e fóruns. Os apetrechos podem ter mudado, mas o fanatismo é o mesmo.

Vestidos a caráter

O site de ódio American Renaissance abre com uma citação de Thomas Jefferson e uma oportuna lista de notícias, que incluem manchetes emprestadas do The New York Times sobre políticas de deportação iminentes e reportagens da Associated Press sobre leis de identificação de eleitores no Texas. Mas há uma fixação sempre presente sobre nacionalidade e raça, como em artigos originais, como "Como vi a luz sobre as raças". Juntando notícias reais com pontos de vista racistas, o site posiciona furtivamente as idéias marginais alinhadas ao mainstream.

No Occidental Observer (slogan: "Identidade, Interesses e Cultura Brancos), contribuintes nacionalistas brancos e alguns ex-acadêmicos especulam sobre tópicos de fórum como "A indústria do Holocausto", "Influência Judaica" e "Racialização da América". O Occidental Observer parece muito com a página inicial de qualquer instituto de estudos políticos, com exceção dos subtextos anti-semitas e conspiratórios.

Para os grupos de ódio desse tipo, percepção é realidade. A ênfase em notícias e política reflete uma mudança nas mensagens promovidas pelos grupos racistas. Muitos não se concentram mais na supremacia branca; agora, eles adotam a posição mais acessível da vitimização branca.

As manchetes que emanam de sites como o Daily Stormer permitem que os racistas contemporâneos imaginem que agora são uma raça minoritária sob cerco. Essas narrativas incluem um ataque imaginário por parte de imigrantes ilegais, um medo do crime de negros contra brancos, um movimento de igualdade de direitos que, de alguma maneira, infringe a liberdade religiosa e uma máquina globalista judaica supostamente por trás de tudo.

A retórica do ódio reempacotada como política e hospedada em sites que se parecem com qualquer outro blog pode atrair, ou mesmo persuadir, ideólogos mais moderados a pisar em terrenos extremistas. Essa comunidade do ódio "amigável para o usuário" está unindo forças de uma forma que nunca poderia acontecer no mundo offline. Graças, em parte, a essa conexão, essas narrativas envenenadas estão se espalhando muito além dos sites racistas.

Como viaja o ódio

A velocidade com que se espalha o ódio online é chocante. Dois dias depois daquela matéria do Daily Stormer sobre "Judeus destruindo seus próprios cemitérios", David Duke discutiu em seu podcast "a probabilidade de que a recente série de 'incidentes de ódio antissemitas' sejam na verdade boatos".

(Isso é quase certamente um "boato de ódio", como a maioria desses incidentes. Pergunte aos rabinos locais).

A conspiração também começou a ecoar no Twitter, onde Duke estava compartilhando um link para seu podcast e espalhando uma nova hashtag: #fakehatecrimes (falsos crimes de ódio). Mais pessoas se juntaram, incluindo seguidores que tuitaram "É boato" e "Pergunte aos rabinos locais". Um conselheiro-sênior do presidente Trump foi ao Twitter para falar de sua teoria segundo a qual ameaças contínuas aos centros comunitários judaicos poderiam estar ligadas aos democratas.

Este é apenas um exemplo de como, apesar dos esforços recentes para limitar as vozes fanáticas, as redes sociais se tornaram incubadoras de conspirações tóxicas. O tópico de "boatos de crimes de ódio", por exemplo, vem circulando no Reddit, no YouTube e até no Facebook. Enquanto isso, na blogosfera de extrema direita, sites como Breitbart, InfoWars e WorldNetDaily dedicam mais espaço para crimes de ódio obsessivamente "desmascarados" do que para reportagens reais sobre eles. Estes dois mundos se juntam perfeitamente no Twitter, onde as conspirações se misturam com diatribes políticas.

Para grupos de ódio, esta é uma oportunidade sem precedentes para finalmente conectar seus movimentos marginais ao circuito do mainstream. Conforme as falsas narrativas circulam nas grandes redes da internet, elas se misturam com informações legítimas e gradualmente se lavam de suas origens radicais. É a mesma trajetória que levou a conspiração "birther": perguntas sobre o "real lugar de nascimento" do presidente Obama começaram nas margens da web, encontraram apoio em blogs de direita mais tradicionais, como Free Republic, e finalmente chegaram à televisão.

O colunista de tecnologia Farhad Manjoo, do The New York Times, descreveu esse fenômeno, que agora vemos se transformar em falsas notícias:

"Os pontos de vista extremos com os quais estamos tendo contato, e que não poderiam ter sido introduzidos na discussão nacional no passado, agora são introduzidos por esse tipo de mecanismo de entrada ... as pessoas colocam em blogs, depois eles chegam aos canais de TV a cabo e, depois, tornam-se discussão nacional."

Políticos oportunistas dão credibilidade

Não há dúvida de que políticos que abraçam e perpetuam essas narrativas são um motivo importante para que tanta informação ruim penetre o discurso nacional. Ao fazê-lo, é claro, só dá aos autores da conspiração a exposição que eles procuram.

Quando, um ano antes das eleições de 2016, Donald Trump tuitou estatísticas falsas sobre o número de "brancos mortos por negros" nos Estados Unidos, os nacionalistas brancos estavam ouvindo. A evidência foi vista nas manchetes comemorativas que vieram a seguir em sites como Stormfront e Daily Stormer.

A credibilidade sempre foi um objetivo final, mas evasivo, para os extremistas. Mas, na internet, eles estão aprendendo a diluir a mensagem de fanatismo com fortes doses de conspiração política, para a qual aparentemente há uma audiência acolhedora. Eles são vitoriosos simplesmente injetando notícias falsas no sistema para produzir dúvidas e discórdias em nossos debates culturais mais críticos.

Questionado sobre as recentes ameaças e vandalismo antissemitas, o presidente Trump disse ao procurador-geral da Pensilvânia que o incidente era "reprovável". Mas ele continuou a especular que os crimes poderiam ter sido cometidos para "pegar mal para outros". Isso alimenta a própria dúvida que faz prosperar os grupos extremistas. E o ciclo continua.

Este texto foi originalmente publicado no The Conversation e traduzido do inglês.

The Conversation

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