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Estas velhinhas trabalham no auge da terceira idade

Com projeto de reinserção do idoso no mercado de trabalho, rede de pizzarias conta com 10% de funcionários idosos.

02/09/2017 08:00 -03 | Atualizado 02/09/2017 08:00 -03

Elas finalmente chegaram à idade de se aposentar, mas decidiram continuar trabalhando. Em um Brasil onde há 13 milhões de desempregados e com um mercado de trabalho voltado para jovens, encontrar um emprego na terceira idade não é tarefa fácil.

Entretanto, há empresas que vão na contramão do mercado e apostam na chegada de profissionais mais velhos. A rede de restaurantes Pizza Hut, por exemplo, contrata há mais de 13 anos pessoas com mais de 60 por meio do Programa Atividade, que visa a reinserir idosos no mercado de trabalho. Hoje, esse grupo representa 10% do total de funcionários de todas as lojas da rede em São Paulo.

Os contratados recebem treinamento especial e podem atuar em diversos cargos em um restaurante, como ser hostess (atendimento) e trabalhar no caixa ou cozinha. A carga horária e o escopo de trabalho também são adequados de acordo com o perfil profissional do idoso, mas os benefícios, como vale-transporte e plano de saúde são os mesmos de funcionários de outras faixas etárias.

"Para nós é ótimo ter pessoas tão experientes e vividas no nosso quadro de pessoal", conta a diretora de operações da Pizza Hut de São Paulo, Flavia Leme. "Os mais jovens aprendem muito com eles, e os têm como avós, pessoas que respeitam e escutam muito."

Essa troca de experiências é positiva para ambos os lados.

Luiza Belloni
Pizza Hut no Shopping Eldorado tem cinco profissionais com mais de 60 anos.

Além de proporcionar a troca de experiências e promover um ambiente de trabalho mais diversificado, a iniciativa também é elogiada pelos empregados. "Nós da terceira idade não temos tantas opções e não dá pra ficar em casa. Você vai perdendo a autoestima, é horrível", contou Mut Fujimori, que tem 67 anos e há quatro trabalha na Pizza Hut como hostess. "[Ficar em casa] não é saudável nem fisicamente, nem mentalmente, nem financeiramente, né?"

Ela e mais duas senhorinhas conversaram com o HuffPost Brasil na unidade onde trabalham, que fica no Shopping Eldorado. Muito bem-humoradas, ativas e dispostas, elas compartilharam um pouco de sua corrida rotina, que engloba atendimento, ajuda na montagem das embalagens, revezamento no caixa e, às vezes, um tapa na louça.

"Fui contratada pra ser hostess, atender os clientes na mesa, mas faço um pouquinho de tudo. Se alguém falta, a gente ajuda as colegas e acaba fazendo um pouquinho de tudo", disse Fujimori, moradora da Vila Leopoldina.

Luiza Belloni
Mut Fujimori trabalha como atendente na Pizza Hut há quatro anos.

Sentada no chão da despensa (disse que se sentia mais confortável sentada de pernas cruzadas no chão, aos 67 anos!), Fujimori conta que decidiu voltar ao mercado após se divorciar do marido, com quem foi casada por 19 anos.

Depois de passar oito anos trabalhando no Japão, país onde seus pais nasceram, Fujimori voltou ao Brasil e dividia seu tempo entre alguns empregos e ajudar a família. Após o casamento de seu segundo filho, ela decidiu voltar à ativa de vez. "Queria voltar ao mercado e e achei a vaga na internet, colocando no Google. Procurei assim: 'vagas para terceira idade'. Fiz o cadastro e me chamaram", explicou.

O trabalho dela, além de ajudar nas contas, também é um jeito de esvaziar a mente, fazer amizades e continuar levando uma vida saudável. "Em casa, você fica criando minhocas na cabeça e até doença começa a cavar. Uma dorzinha ali, outra aqui, e não sai do consultório", revelou. "[Trabalhar é] uma forma de estar em contato com novas gerações."

E ainda brincou quando foi questionada sobre o futuro:

Se minha saúde permitir, eu pretendo continuar trabalhando sim. A gente brinca que vai morrer aqui fazendo pizzas [risos]. Quando morrermos, levaremos o cardápio junto.

Brincadeiras sobre a terceira idade prevaleceram no bate-papo com as profissionais. O bom humor e constantes risadas foram compartilhadas pela colega Celeste Medeiros, que tem 64 anos e trabalha há cinco na mesma unidade. Viúva e com filhos criados, a caixa preferiu não ficar parada ao se aposentar. "Tenho medo de ficar em casa o dia todo. Como falam? 'Cabeça vazia, oficina do diabo'."

Luiza Belloni
Celeste não quer parar tão cedo: 'Cabeça vazia, oficina do diabo'

Moradora do Embu, ela demora cerca de uma hora ou mais para chegar ao trabalho. "Tem hora que cansa. Saio daqui tarde, entre 10 e 11 horas da noite. Mas a gente se distrai e diverte aqui", afirmou, acrescentando que ela e as colegas são conhecidas como as "veinhas malucas da Pizza Hut".

Uma delas, em particular, chama atenção dos clientes. Miudinha, mas sempre bem arrumada, Benedita Guasques tem 83 anos e trabalha há mais de uma década na unidade. Aposentada e viúva, a anfitriã do estabelecimento descreve com orgulho sua extensa vida profissional. "Eu sou a mais velha daqui. Eu adoro trabalhar com o público, você precisa dialogar para que as pessoas entendam. Sou muito falante, venho do público mesmo", disse, ao citar os antigos trabalhos, como chefe de segurança do então recém-inaugurado Shopping Iguatemi e seus projetos com o falecido estilista e apresentador Clodovil. "Eu ajudava a produzir as manecas delas."

Viúva há 22 anos, dona "Benê" — como é chamada pelos colegas e clientes —, é a colaboradora mais antiga da franquia e uma das primeiras a aderir ao projeto da Pizza Hut. Ela começou a trabalhar lá com 70 anos.

Depois de ver os três filhos saírem de casa e acompanhar a criação dos sete netos, quatro bisnetos e de um tataraneto, dona Benê mora sozinha e se considera completamente independente.

"Já tenho minha rotina. Já estou muito tempo aqui, todos me conhecem. Não tem reclamações, graças a Deus", contou.

Ela continuou citando alguns dos carinhosos apelidos dados pelos clientes. "Eu sou a vovó, a mamãe, a titia... O público gosta de tirar foto comigo", relatou. "Eu sou a vovó do Titanic, por causa dos olhos. Ficam brincando: 'cadê a joia?' [e eu digo] 'Está guardada!'", ri.

Luiza Belloni
Benedita Guasques é a funcionária mais velha da unidade no Shopping Eldorado.

Questionada se gostariam de continuar trabalhando, as três funcionárias são enfáticas: elas não pretendem deixar o batente tão cedo. "Tenho amigas, todas muito bem vividas, sentadas no sofá e ali ficaram. Isso aqui pra mim [o trabalho] é a melhor coisa que eu fiz", diz Benê.

Somos velhinhos, né? Se você vai parando, as pernas e os braços vão atrofiando. Você não se lembra mais quem você é, não sabe sair pra rua. Então o trabalho é maravilhoso, você raciocina, faz continhas, tem apoio do pessoal aqui. Enquanto minhas perninhas permitirem, vou continuar trabalhando.

Além de dona Benê, Fujimori e Celeste, a unidade conta com ajuda de mais dois idosos. "Eles [mais velhos] não dão trabalho nenhum. Quem dá trabalho são os mais novos", conta a gerente da unidade, Shirlei Souza, que vira e mexe recebe elogios da chefia pelas funcionárias nota 10.

Elas são o xodó do patrão. É capaz de eu ir e elas continuarem.

Luiza Belloni
Da esq. para dir.: Mut Fujimori, Shirlei Souza, Benedita Guasques e Cleuza Silva.

Segundo Shirlei, apesar da idade, os idosos são mais produtivos e têm mais vontade de trabalhar. "Nunca tive uma falta deles. Eles avisam um mês antes que têm exame pra fazer, sempre ajudam quem precisa, eles têm comprometimento com a empresa. O jovem hoje não tem vínculo. Eles querem trabalhar para consumir", contou. Dona Benê concordou: "Faço questão de ser assim, porque eles contam com a gente".

Além de reconquistar a independência financeira, física e emocional, Fujimori cita um dos prazeres que não tinha há décadas: "Além de tudo, quando um dos filhos precisa de ajuda, você tem como ajudar, né?", conclui.

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