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Isto é o que acontece quando sua casa inunda

A água invade. Você supostamente deveria estar a salvo em casa. Mas nesse momento você está desamparado.

01/09/2017 18:37 -03 | Atualizado 01/09/2017 18:37 -03

Talvez você esteja sentado na sua sala de estar olhando para a janela quando começar. Talvez você esteja dormindo. Mas você é surpreendido. Você não imaginou que a tempestade pioraria desse jeito.

Sua noite prossegue. Você mantém um olho na janela e o outro nas notícias. Então toca seu alerta do celular. E você percebe que a água no seu jardim está um pouco mais alta do que antes, mais alta do que jamais esteve.

Logo a água começa a entrar pelas portas. Você e sua família correm para deter. Você pega toalhas, sacos de lixo, barracas, mistura de cimento - qualquer coisa.

Marcus Yam/Los Angeles Times via Getty Images
Casa submersa na enchente após o furacão Harvey, em Houston.

Você se dá conta que deve desligar tudo que estiver ligado na tomada. Você desliga o disjuntor. As coisas que estão no chão são colocadas para cima. Você empacota os itens importantes - heranças, fotos de família, cartões de pessoas amadas - e você coloca os documentos importantes em sacos plásticos. Você provavelmente não vai esvaziar a geladeira - a inundação vai estragar primeiro a lata de lixo.

De repente você nota a água entrando em seu quarto. É quando você se toca - não é apenas uma tempestade. Você começa a colocar os colchões no quarto do seu irmão menor. É o único que não inundou ainda. Assim que você termina, senta nos colchões e encara a janela, torcendo.

Mas continua chovendo. A água continua subindo. Logo a água atinge 10 cm de altura. A água está correndo para a frente, para os lados, para trás. Parece uma invasão. Você deveria supostamente estar seguro na sua casa. Mas você está desamparado, esmagado.

Agora você está sobre 15 cm de água.

Joe Raedle/Getty Images
Pessoas aguardam o resgate em suas casas alagadas em Houston.

Você usa seu celular para checar o nível da água nos lagos, rios e reservatórios perto da sua casa. A coisa está feia.

Talvez a Agência Federal de Gestão de Emergências tenha orientado as pessoas a evacuarem sua área. Cobras, jacarés e outros animais poderiam nadar na sua casa. Caixas de luz molhadas e cabos de energia caídos o colocam em risco. Mas seu carro também está sob a água. Mesmo que você conseguisse dar a partida, logo inundaria.

Então você liga para a polícia, defesa civil, qualquer número de emergência que você consegue lembrar.

Ninguém atende. Ou então dizem que estão com excesso de ligações e que você vai ter que esperar.

Em algum momento, alguém propõe de ir para o sótão. Você não tem certeza sobre isso e está um pouco assustado. Mas você sabe que se ficar na parte de baixo, pode se afogar.

Então você começa a mudar os colchões, a comida, duas calças/camisas/meias por pessoa, documentos importantes, velas, garrafas de água, lanternas e seu animal de estimação para o sótão.

Como a maioria das pessoas, você não percebe que estaria mais seguro no telhado, onde o resgate consegue te ver e chegar até você. É difícil escapar de um sótão inundado.

Você começa a receber ligações de seus parentes e amigos que moram longe perguntando o que está acontecendo. Você mente. Você diz à eles que é apenas uma pequena inundação e diz que está bem, porque não quer assustá-los. A maior parte do tempo que está no sótão você passa rezando.

O tempo passa devagar. Você olha para seu irmão menor e percebe que ele está aterrorizado. Você tenta acalmá-lo, assegurar que vai ficar tudo bem. Em algum momento, alguém da família tenta fazer um buraco no teto. Se você tiver sorte, antes de começarem a cortar o teto, você ouve vozes lá fora.

O resgate te encontrou.

Vocês saem do sótão e descem as escadas, um por um. Ao chegar lá em baixo, você treme.

A água está congelante.

Jerome De Perlinghi/Corbis via Getty Images
Pessoas deixaram mensagens após a destruição do furacão Katrina.

Em algum momento - semanas, talvez meses mais tarde - você volta para casa. Você não sabe ao certo o que esperar, mas você já viu outras casas depois de enchentes catastróficas.

Na verdade, você não consegue nem abrir sua porta da frente. Algo está bloqueando. Você precisa encontrar outra maneira de entrar em casa.

Lá dentro, tem pelo menos três cm de lama no chão e o mofo das paredes vai até a altura do peito. Você está sem palavras. As janelas estão estilhaçadas, parece que alguém invadiu e saqueou sua casa. Tudo o que estava nas prateleiras foi arremessado ao chão. Você encontra objetos do seu porão na sua cozinha. Seu porta-facas, ainda com as facas, está na sala. Você finalmente chega à porta da frente - está bloqueada por uma estante tão inchada pela água que desabou e formou uma enorme pilha de livros e prateleiras.

O proprietário já veio e retirou a geladeira cheia de comida estragada. No caminho para a casa, você viu ruas cheias de geladeiras como a sua.

Sua casa fede chulé.

Ethan Miller/Getty Images
Logo após o furacão Katrina, Cedric Harrell (esquerda) e Tom Miller removem comidas estragadas da geladeira na quadra do restaurante Two Sisters, no quarteirão francês de Nova Orleans.

Você começa a limpeza. Você pega sacos de lixo de tamanho industrial e coloca máscaras e roupas de proteção. Você coloca para fora sacos de pertences arruinados. A pilha de quase dois metros na frente do seu jardim alinha-se com as outras do bairro. É um cemitério de móveis, eletrodomésticos, roupas, livros e brinquedos inundados,

Então você arranca o piso e levanta paredes a um metro - padrão FEMA - o mais rápido possível. Se a água subir mais do que um metro, você tira a parede inteira. Aciona o seguro residencial e espera o perito da FEMA avaliar os danos.

Às vezes, o dano é tão grande que a FEMA não precisa enviar um perito.

Se você for o proprietário, você tenta contratar uma empreiteira para ajudá-lo a reconstruir. Você aprende que não pode pendurar os armários da cozinha até que seu novo piso esteja pronto. A encomenda do piso está atrasada, então você foca em colocar uma nova camada de gesso.

Se você for rápido, consegue terminar os reparos em menos de um ano. Se você tiver sorte, seu seguro residencial vai cobrir a maioria das dezenas de milhares de dólares de prejuízo. Mas a maioria das pessoas não têm seguro residencial.

Como consequência da tempestade, você não consegue encontrar muitos lugares para alugar. Nenhum dos hotéis da cidade tem vaga. Talvez você tenha que comprar um colchão de ar e ficar na sua casa. Talvez você tenha que dormir em beliches com a família antes de mudar para uma nova casa, numa nova cidade.

Você reza para que isso nunca aconteça novamente.

Essa história é baseada em entrevistas com Justin Forbes, que teve sua casa inundada em Baton Rouge; Amanda Prater, que perdeu tudo quando o furacão Katrina atingiu Nova Orleans; Blanca Gonzalez, que teve a casa inundada duas vezes em Houston; Eric Larsen, um pesquisador de ecologia humana que teve sua casa inundada duas vezes na Califórnia; Jordan Acker, que teve sua casa inundada em Detroit; e Marlin Leal, que teve sua casa inundada durante o furacão Harvey em Houston.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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