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Onde estão os intelectuais negros do Brasil?

Conheça dois projetos que querem combater a invisibilidade do negro na mídia e no mercado de trabalho.

31/08/2017 20:21 -03 | Atualizado 01/09/2017 10:36 -03

Historiadoras, engenheiras, antropólogas, empresárias, professoras, advogadas, cineastas, jornalistas. 181 mulheres. Todas negras. É disso que trata o catálogo Intelectuais Negras Visíveis, desenvolvido pelo grupo de estudos Intelectuais Negras UFRJ e organizado pela historiadora e ativista Giovana Xavier.

Como o nome faz suspeitar, a obra se propõe a combater a invisibilidade da mulher negra no Brasil apresentando a produção de profissionais das cinco regiões do País em 12 áreas de atuação que vão além da produção acadêmica.

"A academia é um lugar fundamental, estratégico e importante, mas ele não é o único em que a gente pratica nossa intelectualidade. Nós trabalhamos com a perspectiva de que todas as mulheres negras são intelectuais nos saberes comuns que produzem", conta Giovana ao HuffPost Brasil.

Reprodução/Instagram/@pretadotora
Giovana Xavier, organizadora do catálogo 'Intelectuais Negras Visíveis'.

A organizadora explica que as mulheres foram elencadas sob uma perspectiva horizontal. Não há hierarquia entre os áreas de atuação. O grupo também procurou criar áreas que refletem a história das mulheres negras no Brasil enquanto grupo de raça e de gênero.

Um exemplo desse esforço é o área Educação Básica, na qual estão listadas professoras e outras profissionais de educação. De acordo com Giovana, existe nesse cenário um protagonismo muito forte de mulheres negras que é invisibilizado historicamente. "De uma forma geral, professoras são pensadas como meras transmissoras de conhecimento. Esse campo da educação básico é um diferencial numa leitura de intelectualidade negra".

Nesse sentido de intelectualidade que se manifesta fora da academia, o catálogo apresenta também outros dois campos específicos: Intelectualidade Pública e Afroempreendedorismo que, segundo a organizadora, estão ligados às transformações que a população negra viveu nas duas últimas décadas no Brasil. Para Giovana, o conjunto de políticas públicas e programas sociais desenvolvidos no País contribuíram de forma decisiva para a visibilidade e protagonismo das mulheres negras.

A academia é um lugar fundamental, estratégico e importante, mas ele não é o único em que a gente pratica nossa intelectualidade.

O catálogo foi lançado em julho na programação paralela da 15ª edição da Flip (Festa Literária de Paraty), que neste ano foi marcada por intensos debates em torno da questão racial e de seus reflexos na literatura produzida no Brasil, em países vizinhos e além mar.

Sem qualquer apoio institucional, a obra foi disponibilizada gratuitamente na internet com ajuda de personalidades negras como a filósofa Djamila Ribeiro e a jornalista Flavia Oliveira. Segundo Giovana, foram mais de mil downloads realizados só no dia do lançamento. Uma segunda edição ampliada do catálogo será lançada ainda este ano com um total de 500 intelectuais negras.

A organizadora faz questão de destacar que o catálogo não é uma obra biográfica e sim um material estratégico. Para Giovana, denúncias são importantes dentro do ativismo negro, mas devem ser acompanhadas de propostas. Isso posto, o catálogo tem também a finalidade de servir de material de referência para contratações no mercado de trabalho.

"A gente sabe que um dos principais argumentos no momento de um contratação é: 'Ah, eu adoraria contratar uma cineasta negra, mas eu não conheço nenhuma", exemplifica. "Por isso, o catálogo tem o objetivo de informar quem são essas mulheres, mas também fazer uma divulgação que seja revertida em visibilidade para o trabalho delas, inspirando a busca por outras mulheres", finaliza.

'Ah, mas eu não conheço um especialista negro'

Foi também pensando em romper com a invisibilidade da população negro, dessa vez na mídica, que a jornalista Helaine Martins criou há dois o Entreviste um Negro, um banco de fontes direcionadas à jornalistas e profissionais de comunicação que reúne dados de de mais de 100 especialistas negros, homens e mulheres, das mais diversas áreas – da medicina à engenharia, passando por administração e mercado de beleza.

Helaine conta que o projeto nasceu de um incômodo antigo. " Quando eu prestava atenção em cobertura jornalística de TV, especialmente naquelas que tratavam de questões raciais, percebia que o especialista era sempre branco. Isso me incomodava, porque eu achava que de alguma forma isso tornava a pauta meio enviesada".

Em 2015, a jornalista se aproximou da ONG feminista Think Olga, responsável pelo projeto Entreviste uma Mulher, que por sua vez é um banco de fontes só com especialistas mulheres. Helaine gostou da ideia. Uma plataforma daquela com recorte racial poderia facilitar e estimular o contato de jornalistas com especialistas negros.

Montagem/Reprodução/Facebook
Incomodada com a cobertura jornalística que ocultas as vozes de especialistas negros, a jornalista Helaine Martins criou o projeto 'Entreviste um Negro'.

Assim como o catálogo Mulheres Negras Visíveis, o Entreviste um Negro reúne informações de profissionais fora do meio acadêmico. É aí que mora um dos dois entraves do projeto. Segundo Helaine, os profissionais negros ainda têm dificuldade de se enxergaram como fonte jornalística."Por melhores que elas sejam, elas ainda não conseguem se enxergar tão capazes. Acredito que isso seja um problema geral entre nós negros. Por uma questão, talvez, de baixa autoestima", analisa.

Sozinha no comando do projeto, ela faz um trabalho de formiguinha. O processo inclui pesquisa de nomes, envio de e-mails e pedidos de autorização para inclusão no documento online. Helaine também recebe e-mails com sugestões de perfis de novos especialistas.

A jornalista conta que outro empecilho para o sucesso do projeto é a falta de interesse dos profissionais de comunicação. Esse problema, inclusive, faz com que o trabalho dela seja dobrado. "Ainda não há um grande número de acessos por parte do jornalistas. Então, além de entrar em contato com as fontes, eu vou atrás dos repórteres", conta.

Se no mercado de trabalho existe a desculpa de não contratação de pessoas negras por conta de uma suposta ausência de profissionais qualificados, na imprensa há uma desculpa muito parecida. "Ah, eu não entrevisto negro porque eu não encontro especialista negro", exemplifica Helaine.

Para combater de forma ainda mais assertiva essa justificativa no meio jornalístico, ela pretende ampliar o projeto transformando-o em site. A ideia é facilitar tanto a experiência de cadastro do especialista quanto a acesso do jornalista.

Para o futuro, ela tem ainda planos mais ambiciosos.

O Entreviste um Negro não será apenas um banco de fontes, mas também uma agência de conteúdo especializada em questões de raça. Helaine quer ainda desenvolver um projeto ligado à educação focado em trabalhos jornalísticos. "Ele vai explicar, por exemplo, a diferença entre racismo e injúria racial, termos que que a gente vê frequentemente sendo utilizados de forma errada na imprensa", explica.

"A intenção é qualificar essa cobertura no jornalística sobre os temas relacionados à população negra", finaliza.

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