ENTRETENIMENTO

Em ‘Como Nossos Pais’, novo filme de Laís Bodanzky, revolução da mulher está em livrar-se da culpa

Protagonizado por Maria Ribeiro, drama familiar aborda questões da “supermulher” contemporânea.

31/08/2017 08:55 -03 | Atualizado 31/08/2017 08:55 -03
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Rosa (Maria Ribeiro) em terapia: Ela não é a “Mulher-Maravilha”. E também não precisa ser.

Ao se deparar com o pôster de Como Nossos Pais, seja no corredor de um cinema ou pela internet, você verá no canto esquerdo dele uma mulher de roxo sorrindo. Ela é Rosa, a personagem de Maria Ribeiro no novo longa-metragem de Laís Bodanzky (Bicho de Sete Cabeças, As Melhores Coisas do Mundo). Ela está bastante infeliz.

Os personagens dessa foto de família estão em um almoço de domingo. Nenhum deles está exatamente feliz, mas pouco importa, pois o centro das atenções aqui é Rosa — o que já diz bastante a respeito do assunto tratado por Como Nossos Pais.

Rosa tem 38 anos, duas filhas pré-adolescentes, um marido, uma mãe, um pai, um irmão, uma cunhada, uma sobrinha, uma meia-irmã e uma ex-madrasta. Ela também tem trabalhos para entregar, refeições para preparar e uma casa para manter organizada e funcional. Rosa é a ponte — e o guichê de reclamações, aparentemente — entre essas pessoas e a única responsável por muitas tarefas.

Não é de se espantar que, ao sermos apresentados a ela, a vemos com os nervos à flor da pele. E vai piorar, pois o almoço da foto revela-se bastante atípico. O céu escurece, começa a chover e todos têm que entrar para dentro de casa. Sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), faz uma revelação arrebatadora: Rosa, na verdade, não é filha de Homero (Jorge Mautner), o pai que ela tanto ama. Ela chega ao limite. Vem aí uma tempestade.

"Você tem que fazer a opção, saber que você não vai dar conta de tudo", disse Maria Ribeiro em entrevista ao HuffPost Brasil, sobre a crise da personagem.

"Em um momento em que você está trabalhando para caramba, você não vai ser a melhor mãe do mundo naquela semana, pode esquecer um dia de olhar a agenda [dos filhos]."

Quem dera se Rosa compartilhasse da opinião de sua intérprete. O casamento com Dado (Paulo Vilhena), um antropólogo ambientalista, vai mal. Ausente a maior parte do tempo, Dado mal lava um prato ou leva as filhas para a escola. Quando ela se queixa do excesso de responsabilidades sobre suas costas, Dado responde que também fez sacrifícios, como "abrir mão do futebol" com os amigos. Rosa ainda desconfia que ele a trai com uma colega de trabalho.

O relacionamento com a mãe é repleto de embates e conversas duras. Clarice é uma metralhadora de críticas contra a filha. Socióloga de esquerda, admira bastante o trabalho do genro, mas despreza o da filha, com publicidade (ou algo assim; não é explicado).

Assim como Clarice, Homero, um artista plástico hippie, viveu a contracultura, mas ao contrário da ex-esposa, não conduz a vida de maneira organizada e não quer saber de arranjar um emprego estável. A segunda ex-esposa e a filha adolescente estão indignadas. É mais uma situação em que Rosa se sente obrigada a ter um papel. E ela sempre os desempenha com culpa.

"Acho que isso tem relação com o machismo, porque foi combinado que a mulher tem que se dedicar completamente a seus filhos. Então, primeiro, você tem que ter filho, senão já te olham meio assim. Depois, tem que ser parto normal. Depois, tem que amamentar, tem que gostar de amamentar. É realmente uma pressão muito grande", conta Ribeiro.

"Eu me lembro quando meu filho mais velho nasceu. Eu tinha 27 anos e fiquei assustadíssima, tendo que dar conta de tudo no primeiro mês. Eu não tinha leite o suficiente e me sentia assim 'meu Deus, é minha culpa que eu não tenho leite o suficiente, eu não sou uma boa mãe!'. Em uma classe mais pobre, o cara vai embora. Ele ter engravidado a mulher não é culpa dele. É culpa da mulher, que não estava se prevenindo", conclui.

O único meio possível para Rosa conseguir por a cabeça sobre a água é iniciar uma jornada de transgressão. A mesma jornada mostra que, mesmo parte de uma família branca e intelectual de classe-média em São Paulo, as imposições da sociedade patriarcal a atingem e a confinam nas mais variadas caixinhas. Ser a tal da "supermulher" contemporânea é — ufa! — impossível.

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Ribeiro (à esq.) e Bodanzky no set de filmagens em São Paulo.

Ela começa a investigar quem é seu verdadeiro pai biológico; trabalha em uma releitura da peça Casa de Bonecas (1879), de Henrik Ibsen, com uma simbólica ressignificação da protagonista Nora; e flerta com o bonitão Pedro (Felipe Rocha), pai de um coleguinha de escola das filhas. É uma revolução pequena, silenciosa e interna, mas poderosa.

"Acho que a grande revolução da mulher é ela perceber que não tem essa culpa. Ela pode fazer tudo que quiser se for íntegra, respeitar os desejos e sentimentos dela", disse Bodansky em entrevista coletiva à imprensa.

"A revolução das mulheres é interna. Começa dentro de você, nas suas pequenas atitudes, dentro de casa, na escola dos seus filhos, no seu trabalho. É complexo, porque é mudança de hábito, é emocional, e isso é o mais difícil."

"O problema da culpa vem nas costas das mulheres desde sempre e a mudança tem que ser nossa, interna. No meu caso, há um agravante", defende Abujamra. "[É] quando você está na suposta 'terceira idade' e a sociedade quer que você seja eternamente jovem, linda, maravilhosa."

"É uma batalha desumana, cruel, que joga a mulher em um plano de solidão, e às vezes lhe impõe uma assexualidade mentirosa."

Rosa quer botar em prática o sonho de ser dramaturga e, em uma honesta tentativa de reescrever a própria realidade, diz em uma cena que quer "um parceiro que saiba que as diferenças entre homens e mulheres são mínimas".

"Concordo plenamente com ela", afirma Ribeiro, "porque há poucas coisas que vêm de um estudo de genoma, de DNA e de não sei o quê, que diz 'o homem é mais assim'. Tudo bem, tem coisas básicas, vocês têm muito mais testosterona que a gente [por exemplo], mas dizer que mulher é maternal por natureza e o homem é mulherengo por natureza, essas coisas que a gente ouve há muito tempo, nisso eu não acredito."

O tema de Como Nossos Pais é universal, e isso tem se refletido nos vários elogios que o filme tem coletado mundo afora desde a exibição na Mostra Panorama do Festival de Berlim, e na distribuição já garantida em vários países, como Espanha, Holanda e China. No último domingo (27), o longa foi o principal vencedor do Festival de Gramado, levando o Kikito em seis categorias: melhor filme, direção, atriz (Ribeiro), ator (Vilhena), atriz coadjuvante (Abujamra) e montagem (Rodrigo Menecucci).

Também é o primeiro filme em que Bodanzky trabalha como roteirista; ela o escreveu em parceria com seu marido e frequente colaborador Luiz Bolognesi (Bingo: O Rei das Manhãs, Uma História de Amor e Fúria).

Em entrevista ao HuffPost, a diretora comentou o longa, questões da mulher contemporânea e representatividade feminina no cinema. Leia abaixo.

HuffPost Brasil: Fazer Como Nossos Pais te mudou de alguma forma, enquanto diretora e mulher?

Laís Bodanzky: Sim, com certeza. É muito interessante. Do início do processo até hoje, a minha visão sobre ser mulher, a compreensão do tipo de opressão invisível que existe na sociedade, está amadurecendo a cada dia. A gente terminou de filmar no ano passado e, de lá para cá, meu discurso já é outro [risos]. É um tempo em que as mulheres todas estão parando para pensar. Como Nossos Pais é um filme que fala da minha própria geração. Eu também tenho filhos, também tenho mãe e estou nesse momento em que tenho os dois papéis. Eu me identifico muito com as questões da personagem, mas não sou só eu ali, somos todas nós.

HuffPost Brasil: A história toca em temas individuais e domésticos da mulher...

As mulheres, de certa forma, nunca falaram "olha, não está bom para mim", para que os outros se coloquem na posição dela. Isso é recente. Elas estão tendo a coragem de falar e percebendo que sua questão individual acontece dentro de todas as casas. O filme passou lá fora, em Berlim, na França, na Bélgica, eu fiz muitos debates e vi que essa questão extrapola a cultura brasileira. Mesmo na Alemanha e na França, países que sempre considerei de um pensamento tão avançado, essas questões estão em plena ebulição. Mulheres como a Rosa são muitas. O homem pode até estar ali, mas é como se não estivesse, porque foi dito um dia que esse departamento pertence à mulher. E ela sempre aceitou essa imposição da sociedade, de que tem que ficar à margem, fechada, escondida, sem voz, simplesmente olhando e observando esses homens que eles, sim, sabem, têm conhecimento, devem ser aplaudidos. merecem ganhar mais. E as mulheres os secretariando. Por isso a cena da Rosa carregando as pastas [risos].

Essa é a coisa mais comum que a gente tem. É sempre o homem nessa posição, as mulheres trabalhando um monte, mas o reconhecimento, na hora do discurso, na hora da fotografia, é só do homem. E quando a mulher consegue alcançar esse espaço, que é difícil, não é tão reverenciada quanto um homem. Nem quando você faz sucesso tem alguma sensação real de sucesso, porque a visão que você passa para a sociedade é a de que você não tinha que estar nesse lugar. Você é uma anomalia [risos].

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Bodanzky e Mautner no set: Músico vive o espirituoso pai de Rosa, a única pessoa que tem conseguido fazer a protagonista dar risada.

HuffPost Brasil: A culpa que a Rosa sente é bastante real e familiar. O que você pensa a respeito disso? Como a mulher pode lidar com a culpa?

Parece que todo esforço da mulher é o esperado que ela fizesse. A mulher está na casa, ela vai dar conta dos filhos, cozinhar e faz isso todo dia. O homem, por outro lado, quando ele vai uma vez na cozinha, ele vira o "chef". É um evento. E nada mais é do que o que a mulher faz todos os dias sem nenhum aplauso, o que também é horrível. Você faz, faz, faz e não tem nenhum reconhecimento. Nem dos filhos, nem do marido, nem dos avós e dos pais. A sensação é a de que a gente fica patinando.

Essa culpa é imposta. O que eu mais aprendi fazendo esse filme, e eu não tinha essa consciência, é o quanto essa culpa está dentro da gente, mas eu posso simplesmente não aceita-la. E o quanto dessa culpa é colocado não só pelo homem, mas também por outra mulher. A mulher que está trabalhando com você, ou uma da sua família, sua mãe ou a sua filha — elas se vigiam, dizem "você não faz isso?". Eu, por exemplo, não sei cozinhar. Durante muito tempo eu tive vergonha de falar isso para as pessoas, porque parecia que eu não era mulher. As pessoas ficam "como assim você não sabe cozinhar? Tinha que saber". Quando o homem fala que não sabe cozinhar, tudo bem, mas quando cozinha, ele é um astro. A mulher que cozinha? Simplesmente normal.

Acho que essa é a grande charada, sabe? A Rosa, para fazer a mudança na vida dela, percebe que tem que seguir os desejos dela. A mulher mal se permite descobrir qual é o verdadeiro desejo dela, vai simplesmente levando a vida para cumprir as expectativas dos outros, do que é ser uma "supermulher".

HuffPost Brasil: A Rosa precisou de uma crise para fazer essa reflexão.

Ela teve que ir ao fundo do poço para falar "não aguento mais, quero mudar essa história". Acho que as crises são bem-vindas, não sou contra elas. Crise faz a roda girar, a gente sair do lugar, propor uma mudança. Um casal em crise pode até se separar, mas então é porque tinha se separar. Não viver a crise, não falar sobre ela e viver sua vida inteira nessa hipocrisia? Viva sua vida agora! [risos]

HuffPost Brasil: O cinema brasileiro parece estar investigando mais a mulher. Em Que Horas Ela Volta?, por exemplo, há uma questão de origem. A personagem da Regina Casé e da filha dela, que são de gerações distintas, lidam com as mesmas coisas de maneira diferente. E também teve Aquarius, em que a Clara [Sonia Braga], com seus 60 e tantos anos, sofre assédio de uma grande corporação que quer comprar o apartamento dela, mas ela escolhe resistir. Seu filme parece vir na esteira disso. Você pensou a respeito dessa representação?

Não. Acho que é a necessidade de falar sobre o assunto. O mundo das artes antecipa essas questões. O meu desejo de falar sobre esse assunto com certeza passou pela Anna [Muylaert, Que Horas Ela Volta?], com certeza passou pelo Kleber [Mendonça Filho, Aquarius], de qual é o tema urgente, sobre o que eu quero falar, o que eu preciso dizer agora? Acho que já estava no ar. Eu demorei para fazer Como Nossos Pais. Quando comecei, o filme da Anna não tinha sido lançado e eu tinha acabado de filmar o meu quando eu assisti ao do Kleber no ano passado. Acho que estamos sintonizados [risos].

HuffPost Brasil: Isso é sintomático de um movimento que tem acontecido bastante no cinema mundo afora, até com filmes de super-heróis em Hollywood. As pessoas estão cobrando. "A gente quer o filme da Mulher-Maravilha. A gente quer o filme da Capitã Marvel."

É verdade. As mulheres estão querendo espaço. E eu vi isso com o lançamento de Como Nossos Pais lá fora. Ele foi vendido para vários países mundo afora, como China, Turquia e Espanha. O filme não traz o imaginário do que é um filme brasileiro, ele não é sobre o Carnaval ou uma tragédia social. A história de Como Nossos Pais poderia ter acontecido em qualquer canto do mundo.

Foi uma surpresa para mim o quanto as pessoas querem debater o tema. Não só mulheres, mas homens também. O Teste de Bechdel analisa filmes do ponto de vista das personagens femininas e a grande maioria deles não passa, então isso serve também para dar um chacoalhão na indústria cinematográfica. Os homens só têm falado deles. E o mundo é muito mais complexo que isso.

Com esse tema, língua e cultura não são barreiras?

Não. [risos]

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Paulo Vilhena é Dado, o esposo de Rosa: Ele quer salvar o meio ambiente, mas parece que isso não inclui o casamento.

Como Nossos Pais estreia nesta quinta-feira (31), tem duração de 112 minutos e classificação indicativa 14 anos. No elenco também estão Cazé Peçanha, Herson Capri, Sophia Valverde e Annalara Prates. A distribuição é da Imovision.

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