MULHERES

As qazis pioneiras da Índia perguntam aos homens muçulmanos: Vocês leram o Corão?

Clérigas islâmicas recém-formadas, ou Qazis, começam a trabalhar em cidades de todo o país, oferecendo um sistema de apoio importante para as muçulmanas -- e provocando reação dos círculos ortodoxos.

13/09/2017 20:41 -03 | Atualizado 13/09/2017 20:44 -03
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Jahan Ara e Afroz Begum, as primeiras mulheres Qazi do Rajastão.

JAIPUR

O mundo de Iqra desmoronou em seis meses.

Como ela conta, tudo começou, como sempre, com o casamento. O casamento de Iqra, 23, com Ali foi uma espécie de programa de intercâmbio. Ali era seu primo, filho de sua khaala, a irmã de sua mãe. O irmão de Iqra, por sua vez, se casou com a filha da mesma khaala. A khaala também virou sua sogra. Casamentos entre primos de primeiro grau são comuns entre os muçulmanos no sul da Ásia.

Dois meses depois, a cunhada de Iqra fugiu de casa. Os pais dela, aparentemente, a forçaram a se casar contra sua vontade.

A fuga da cunhada significou na prática a prisão de Iqra. Sua sogra, irritada com a fuga da própria filha, descontou a raiva em Iqra. "Khaala abusava de mim sempre que tinha a oportunidade. Estava brava com a filha e dirigia o ódio contra mim", disse ela.

Certo dia, seu marido pediu que ela voltasse para a casa dos pais. "Ele me disse que me traria de volta quando sua mãe se acalmasse um pouco", disse Iqra.

Logo depois, Iqra descobriu que estava grávida. Ela ligou para o marido para contar a "boa notícia". Ele também pareceu feliz. O marido e a sogra logo a levaram a um médico, que lhe deu um remédio. O médico disse que, como ela teria de evitar o sexo, deveria continuar com seus pais.

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O escritório de Jahan Ara e Afroz Begum nunca está vazio.

Semanas depois, Iqra teve um aborto espontâneo. "Não sei se eles tiveram alguma coisa a ver, mas meu marido nunca voltou para me buscar. Ele parou de atender minhas ligações e de responder às minhas mensagens", disse ela.

Quando lidava com o trauma do aborto e da traição, duas mulheres vestidas com burqa surgiram como seu sistema de apoio. Foi no escritório delas, no movimentado Johri Bazaar, em Jaipur, que Iqra relatou sua história para esta correspondente.

As mulheres, que estão presentes, são Jahan Ara, de 45 anos, e Afroz Begum, de 43. São as primeiras qazis mulheres do Rajastão -- clérigas e juízas sociais e religiosas da religião islâmica, mediando disputas familiares.

"Ela já havia prestado queixa na polícia antes de nos procurar", disse Ara, "então não poderíamos interferir no assunto entre as famílias. Caso contrário, poderíamos ter chamado o marido e os sogros e dito a eles que não é assim que se tratam as noivas".

Muçulmana, mulher, qazi

Até recentemente, a função de qazi era exclusivamente desempenhada por homens, na Índia bem como no resto do mundo. Nos últimos anos, entretanto, ativistas e organizações dentro do mundo muçulmano vêm pressionando pela inclusão de mulheres como qazis, uma reação contra o patriarcado e a ortodoxia. Mais e mais mulheres estão assumindo essa posição nos últimos tempos.

Foi apenas em abril deste ano que Jahan Ara e Afroz Begum receberam seus certificados de Qaziyat, depois de completar um treinamento de dois anos no Darul Uloom-i-Niswan em Mumbai, um instituto estabelecido pela organização social Bharatiya Muslim Mahila Andolan (BMMA). Eles se formaram com 13 outras mulheres, que passaram a ser qazis nos Estados de Maharashtra, Gujarat, Rajastão, Madhya Pradesh, Tamil Nadu, Karnataka, Bihar, Bengala Ocidental e Odisha.

Todos os dias, elas atendem casos como o de Iqra, pessoas que procuram aconselhamento e julgamento, no escritório da BMMA em Johri Bazar. O escritório foi estabelecido há dez anos por Nishat Hussain, da BMMA no Rajastão.

"Vemos mulheres sendo submetidas à violência desde pequenas. Meu pai batia na minha mãe", diz Jahan Ara. "Não havia ninguém para ajudá-la. Os qazis homens, cujo papel de juízes islâmicos é aconselhar e ajudar, sempre apoiam os homens. Eles simplesmente dirão que é 'a escolha de Deus'. Não, não é. E precisamos dizer para as mulheres em nossa comunidade que o Alcorão não diferencia entre homens e mulheres."

Jahan Ara, que cresceu em Jaipur, passou por um casamento abusivo antes de finalmente decidir abandonar o marido, há cerca de dez anos. Depois do divórcio, diz ela, seu ex-marido não a deixava encontrar os filhos nem pagava pensão alimentícia, além de se recusar a pagar os 15 gramas de ouro habituais. Os homens muçulmanos devem pagar suas esposas se o casamento terminar. "O qazi local se recusou a me ajudar a obter meus direitos", diz ela.

Os qazis homens, cujo papel de juízes islâmicos é aconselhar e ajudar, sempre apoiam os homens. Eles simplesmente dirão que é 'a escolha de Deus'. Não, não é.

Ara sabia que a situação tinha de mudar. Ela começou a trabalhar com uma organização de direitos das mulheres e abriu uma madrassa (escola) para as crianças da região. "Comecei a pensar: 'Qual é o tipo certo de Islã, aquele que ensina o Alcorão ou aquele que estávamos praticando?'", pergunta ela. Isso a levou a se inscrever no curso de qazis.

Jahan Ara e Begum enfrentaram muita oposição dos qazis homens e de outros membros da comunidade muçulmana. Recentemente, as coisas começaram a mudar. "Outro dia, um qazi deus os parabéns a Jahan Ara pelo trabalho que ela faz. Isso é um progresso. Gradualmente, a sociedade vai começar a aceitar que as mulheres possam ser capacitadas", disse Nishat Hussain.

Quando os homens temem as mulheres

"O papel de um qazi é casamento, divórcio e intervenção contra injustiças. Os qazis homens têm uma certa visão de mundo -- eles querem que acreditemos que o marido tem mais direitos. Mas o Alcorão não diz isso. As mulheres qazis mudarão essa mentalidade patriarcal", diz Zakia Soman, uma das fundadoras da BMMA.

Segundo ela, o talaq triplo (a polêmica prática islâmica do divórcio instantâneo) arruinou a vida de muitas mulheres. A prática é inconstitucional, diz ela, e não é válida de acordo com o Alcorão. "Não precisamos mais aceitar o tratamento que nos é dispensado há décadas", afirmou ela.

A qazi Afroz Begum concorda. Begum, 43, diz que, embora tenha apoio da família, de seu marido e de seus cinco filhos, ainda está longe o dia em que o Rajastão começará a aceitar mulheres como qazis. Ela diz que, ao contrário dos qazis do sexo masculino, que simplesmente aproveitam o "dukandaari" (negócio), as mulheres seguem requisitos da lei pessoal muçulmana que muitas vezes são ignorados.

As mulheres qazis têm de ser avisadas com um mês de antecedência para um nikah. Elas verificam todos os documentos -- qualificações da noiva e do noivo, prova de renda, relatórios médicos e certificados de divórcio, se houver -- antes de aprovar um casamento. "Se as mulheres não sabem quais são seus direitos, como podem exigi-los?", pergunta Qazi Afroz.

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Jahan Ara e Afroz Begum resolveram cerca de 60 casos, dos quais 25 envolviam triplo talaq.

Enquanto Afroz explica como elas vão precipitar mudanças, Jahan Ara recebe uma ligação. "Aap kal tashrif layenge? (Você virá amanhã?)", ela pergunta, de forma direta.

Era um homem que acabara de receber um aviso formal. Sua esposa reclamou para as qazis que ele era alcoólatra. Ele não costumava voltar para casa à noite, e a mulher suspeitava que ele tivesse vários casos. "Enviamos uma notificação, e agora ele está com medo", diz Jahan Ara.

"Alá nunca quis que nós, mulheres, vivêssemos em privação. Homens e mulheres são os mesmos aos olhos de Alá."

Desde abril, depois de receberem seu certificado final, Jahan Ara e Afroz Begum resolveram cerca de 60 casos, dos quais 25 envolviam o triplo talaq.

Durdana Khan, 29, repórter local em Jaipur, diz que já não tem medo de ninguém graças ao apoio constante dessas duas mulheres. Em 2008, Durdana era casada com uma família bem-sucedida em Jodhpur. Seis meses depois do casamento, seu sogro começou a fazer avanços sexuais em sua direção. "Ele me tocava e pedia que eu fosse a seu quarto", disse ela. Quando ela se queixou de seu marido, ouviu como resposta: "Se vire. Isso acontece na nossa família". Durdana ficou chocada e tentou fugir várias vezes. Mas em todas as vezes o marido e os parentes dele a encontravam e a espancavam. Em 2012, seu marido finalmente concordou em conceder o talaq (divórcio).

"Alá nunca quis que nós, mulheres, vivêssemos em privação. Homens e mulheres são os mesmos aos olhos de Alá. Então, por que devemos ser subjugadas pelos homens?", pergunta Durdana. O drama da jornalista de 29 anos não terminou com o divórcio. Depois que ela voltou para Jaipur para morar com os pais, seus irmãos começaram a persegui-la e ao pai, com medo de perder sua parte da propriedade. Ara e Begum ajudaram a resolver a disputa, negociando com os integrantes da família.

"Um qazi homem na maioria das vezes concede os direitos de propriedade apenas aos filhos. Estamos tentando mudar isso", diz ela.

As mulheres qazis também criaram uma equipe de cerca de 15 mulheres que trabalham em diferentes partes de Jaipur e seus arredores. "Cada líder é responsável por uma área. Quando encontram um caso de violência, eles nos avisam. Aí procuramos a vítima e a ajudamos", disse ela.

Esperando o primeiro nikah

Arbitrar disputas de propriedade e de casamento é a parte fácil. A parte difícil é fazer casamentos. Como elas receberam seus certificados apenas em abril, elas ainda não receberam pedidos para realizar um nikah.

Safia Akhtar, 61, a única mulher qazi de Bhopal que se formou com Jahan Ara e Afroz Begum, diz que nenhuma deles realizou um nikah até agora porque os homens acham que as mulheres devem estar sob "purdah" e não podem ir à mesquita em que normalmente acontece a cerimônia do noivo. "Os casamentos muçulmanos são eventos dominados pelos homens. Agora que temos nossos certificados de qazi, eles perguntam como os conduziremos em uma sala cheia de homens."

Safia diz que ela constantemente recebe ameaças de morte de homens. "Acabam de me dizer que serei expulsa do Islã por ser uma qazi", diz ela. Mas Safia, 61, diz não ter medo. "Eles querem me calar, mas não ficarei em silêncio. Se conseguirem provar que estou errada, deixarei o Islã por conta própria", diz ela.

Desde abril, depois de receberem seu certificado final, Jahan Ara e Afroz Begum resolveram cerca de 60 casos, dos quais 25 envolviam o triplo talaq.

Nasreen, 32, que recentemente se tornou a primeira mulher qazi de Karnataka, diz que é procurada principalmente por mulheres. "Muita gente não aceita que eu seja qazi. Sempre me perguntam como uma mulher pode ser uma qazi. Minha resposta é: 'Você leu o Alcorão?'." Nasreen diz que apenas mulheres qazis podem entender a discriminação enfrentada pelas mulheres. "Os homens geralmente não nos procuram, e isso diz muito sobre sua mentalidade", disse Aslam Banu, 35 anos, a qazi de Odisha.

Cerca de um ano atrás, quando foram anunciadas as primeiras 15 qazi mulheres do país, o Conselho de Direito Muçulmano Pessoal da Índia não aprovou a idéia, afirmando que mulheres qazi não eram permitidas no Islã. Tahir Mahmood, ex-membro da Comissão de Direito da Índia, que supervisiona as decisões sobre o direito pessoal muçulmano, discordou do AIMPLB, assim como o Darul Uloom Deoband, a influente escola islâmica de Deoband, UP.

Não-islâmico?

Khalid Usmani, o principal qazi do Rajastão, também acha que as mulheres qazi são não-islâmicas. "Se eu disser que sou o Lorde Raam, você vai acreditar?", pergunta ele. Usmani diz que as mulheres qazis não sabem nada sobre o Alcorão ou as leis islâmicas. "Como as mulheres podem ser qazis? Não é para elas. Elas têm seu papel na sociedade e devem deixar que os homens desempenhem os seus próprios", disse ele. O qazi diz que as pessoas "rejeitaram" essas mulheres como qazis. "Elas não podem ir a uma mesquita. Não é permitido no Islã. Elas estão enganando as pessoas. E é por isso que as pessoas também não as procuram", disse ele.

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Khalid Usmani, o qazi chefe do Rajastão.

Qualquer que seja sua opinião sobre os pontos de vista de Usmani, ele definitivamente está errado sobre a última parte. As pessoas certamente procuram as qazi. O escritório Jaipur de Ara e Begum nunca está vazio. Há mulheres que vêm denunciar os maridos por violência doméstica; outras apresentam disputas de propriedade e outras, ainda, querem salvar seus casamentos em casos em que os maridos invocaram o triplo talaq. Algumas mulheres vêm apenas para sentar e ouvir, para aprender como se reerguer depois de serem abandonadas pelos maridos.

As pessoas costumavam procurar Aisha, esposa do Profeta Maomé, para obter conselhos e orientações.

As opiniões do qazi chefe sobre o assunto não são universalmente aceitas. Akhtarul Wasey, que ensinou estudos islâmicos na Jamia Millia Islamia e agora é presidente da Maulana Azad University, em Jodhpur, diz que não há nada no Alcorão que impeça as mulheres de se tornar qazis. "Nosso livro sagrado não diferencia homens de mulheres. Quem diz que mulheres qazis é algo não-islâmico está errado", diz ele.

Wasey diz que as pessoas costumavam procurar a Aisha, esposa do Profeta Muhammad, para obter conselhos e orientações. "Na verdade, atribuímos um terço da sharia a Aisha. Se Aisha era capaz, por que as mulheres não podem ser qazis? É isso que eu gostaria de perguntar a Usmani."

Segundo ele, se as mulheres são educadas e conhecem as leis islâmicas e a Constituição, nada pode impedir que elas se tornem juízas islâmicas. "Esqueça o nikah, os qazis têm tantas outras funções. As mulheres podem desempenhá-las todas", diz ele.

"Um dia, as mulheres se tornarão Muftis e ensinarão o Alcorão", diz Qazi Afroz. "Sabemos que é uma longa jornada."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost IN e traduzido do inglês.

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