LGBT

Personagens trans da TV podem ajudar a superar uma divisão ideológica?

O público cativo de séries inovadoras sobre esses assuntos costumam já ser progressistas.

11/09/2017 19:44 -03 | Atualizado 11/09/2017 19:44 -03
Anton Vaganov / Reuters
O entretenimento tem a capacidade de moldar as opiniões sobre questões sociais.

Por Erica L. Rosenthal e Traci Gillig

Em 2014, a revista Time declarou que a cultura americana havia atingido um "ponto de inflexão transgênero": as pessoas trans tinham alcançado uma visibilidade sem precedentes na mídia.

No entanto, em razão das recentes mudanças de política – tais como a revogação, pela Casa Branca, das diretrizes federais que apoiavam os estudantes transgênero e o tuíte de Trump de 26 de julho anunciando que o governo dos EUA não aceitará mais pessoas trans nas forças armadas –, alguns questionam se a visibilidade realmente significou maior aceitação dessas pessoas.

Estudos mostram que o entretenimento tem a capacidade de moldar as opiniões sobre questões sociais e de saúde – desde a doação de órgãos até a pena de morte. Mas poucas pesquisas exploram o impacto das representações de pessoas trans.

Por esse motivo, queríamos ver como os personagens transgênero da TV podem influenciar as posturas dos telespectadores. Especificamente, testamos se a ideologia política exerce um papel na forma como o público responde a essas representações potencialmente polarizadoras.

Visibilidade trans na mídia

O "ponto de inflexão transgênero" da revista Time foi atribuído a personagens trans ficcionais de séries como "Transparent" e "Orange is The New Black", além da cobertura jornalística sobre questões políticas polêmicas, incluindo ações judiciais por discriminação relativas aos banheiros das escolas. Em abril de 2015, quase 17 milhões de pessoas assistiram à modelo e ex-atleta olímpica Caitlyn Jenner (antes chamada Bruce Jenner) falar sobre a sua transexualidade no programa "20/20".

Foi nesse contexto que a série "Royal Pains", do canal USA Network, trouxe a história de uma adolescente trans fictícia, Anna, que enfrenta complicações durante sua transição de homem para mulher. A participação de Anna durou só 11 minutos, mas tocou em diversas questões: o histórico tratamento médico de indivíduos transgênero como doentes mentais, os direitos parentais em caso de mudança de sexo de adolescentes e os riscos da terapia de reposição hormonal.

Soubemos da novidade no script de "Royal Pains" no início de 2015, quando os autores da série entraram em contato com o programa Hollywood, Health & Society (HH&S), da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia, que oferece aos profissionais da indústria do entretenimento informações precisas e oportunas para roteiros sobre saúde e segurança nacional. (Erica é pesquisadora do HH&S).

O HH&S organizou conversas entre os autores e um especialista em tratamento médico de jovens trans. Esse processo deu origem ao episódio "The Prince of Nucleotides", de 23 de junho de 2015, que venceu o GLAAD Media Award de 2016, com a ativista transgênero Nicole Maines estreando no papel de Anna.

Bolhas da mídia

Antes de analisar o impacto da história de Anna, queríamos ter certeza de que o público estava dividido quanto aos direitos dos transgêneros – em outras palavras, que o programa não iria simplesmente tentar convencer as pessoas de algo que já acreditavam.

Desde as eleições de 2016 nos EUA, inúmeras reportagens exploraram as "bolhas da mídia" em que os americanos vivem. Essa tendência de fragmentação permeia as notícias, as redes sociais e o entretenimento. Programas de TV com grande audiência tendem a abordar temas de alto conteúdo social ou político de modo pouco frequente e superficial. O público cativo de séries inovadoras sobre esses assuntos, por outro lado, costumam já ser progressistas.

Uma pesquisa da GLAAD (Aliança de Gays e Lésbicas Contra a Difamação) indica que os personagens transgênero aparecem sobretudo em plataformas de streaming e canais a cabo premium, enquanto os programas de TV aberta – que têm mais audiência – tendem a mostrar personagens trans somente em algumas passagens, se é que mostram.

Isso significa que os espectadores não muito dispostos a ver séries como "Transparent", que contém vários personagens trans, talvez ainda possam encontrar tais personagens em tramas secundárias de seriados mais populares.

"Royal Pains" (2009-2016) foi quase tão popular quanto a TV pode ser hoje. E como nunca havia realmente abordado questões LGBTQ, o episódio de Anna provavelmente não atrairia um público especialmente pró-trans. Para nós, isso tornava a série ideal para estudar as representações transgênero e a maneira como elas podiam influenciar os telespectadores ao longo do espectro ideológico.

Pequenas participações fazem a diferença?

Como o HH&S havia ajudado na elaboração do roteiro, os membros da equipe de mídia social do USA Network estavam dispostos a nos ajudar com nosso estudo. Após o episódio, eles postaram links de nossa pesquisa nas páginas oficiais do programa no Facebook e no Twitter. Complementamos a amostra recrutando espectadores de "Royal Pains" em painéis de pesquisa de mercado. Só podia participar quem tinha visto o episódio ou um dos dois capítulos anteriores. Dos 488 espectadores de nosso estudo, 391 viram o episódio de Anna.

Por outro lado, como diversas séries na época mostravam personagens transgêneros, perguntamos aos participantes quais eles tinham visto. Também medimos sua exposição às questões transgênero no noticiário, incluindo a entrevista de Caitlyn Jenner.

Finalmente, examinamos diversas variáveis importantes que reconhecidamente têm impacto sobre os espectadores. Entre elas, a identificação com os principais personagens, a sensação de estar sendo "transportado" para o mundo retratado na tela e as emoções evocadas pela trama.

Descobrimos que os espectadores de "Royal Pains" que viram a história de Anna manifestavam maior apoio em relação às pessoas e políticas transgênero. Também notamos um efeito cumulativo da exposição às narrativas de entretenimento trans. Quanto mais representações eles viam, mais apoio demonstravam. A exposição a essas questões no noticiário e a história de Caitlyn Jenner, contudo, não tiveram qualquer efeito sobre seus pontos de vista. Em outras palavras, as histórias de ficção que analisamos tiveram mais influência que os eventos mostrados nos telejornais.

Em consonância com pesquisas anteriores, nosso estudo mostrou que o conservadorismo político associa-se fortemente com visões negativas sobre as pessoas transgênero e com um menor apoio às políticas que as beneficiam. No entanto, a exposição a duas ou mais histórias de ficção reduz pela metade a força desse vínculo. Ou seja: espectadores politicamente conservadores que assistiram a diversas séries mostrando personagens transgêneros tinham perspectivas mais positivas sobre as pessoas trans do que os que viram apenas uma.

A ideologia política também moldou as respostas dos participantes à narrativa de "Royal Pains". Os mais politicamente liberais tinham mais probabilidade de sentir esperança ou de se identificar com Anna, ao passo que os conservadores eram mais propensos a reagir com forte desaprovação.

Além da bolha

Hollywood não é uma panaceia para curar a profunda divisão ideológica e partidária dos EUA. Para influenciar as atitudes numa escala mais ampla, as histórias devem primeiro alcançar os públicos que estão fora das bolhas dos meios de comunicação.

Mesmo assim, nossa pesquisa indica que representações variadas de indivíduos transgênero – especialmente nas formas mais populares de entretenimento – podem remover barreiras ideológicas de um modo que as notícias não conseguem. A exposição sucessiva a múltiplas séries teve o maior impacto sobre as opiniões, mas até mesmo enredos relativamente curtos também tiveram um efeito poderoso. Embora os espectadores mais conservadores fossem mais propensos a responder de forma negativa, tais reações foram suavizadas quando eles viam personagens trans em programas diversos.

Num recente painel promovido pelo GLAAD, a atriz e ativista trans Laverne Cox afirmou:

"Precisamos contar essas histórias melhor, porque vidas estão em risco. Pessoas trans estão sendo assassinadas, impedidas de ter assistência médica, sem acesso a banheiros, emprego e moradia por causa de todos esses... equívocos que as pessoas têm sobre quem realmente somos."

Enquanto o futuro de integrantes do serviço militar continua incerto, nunca foi tão importante compreender como o público responde às representações das pessoas trans nos meios de comunicação.

The Conversation

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