POLÍTICA

'O debate político está na casa grande, não na senzala', diz idealizador do Frente Favela Brasil

Novo partido político quer mobilizar, dar visibilidade e oportunidades aos negros e moradores de comunidades.

28/08/2017 09:07 -03 | Atualizado 28/08/2017 09:53 -03
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O ator Lázaro Ramos e os ativistas Celso Athayde e Preto Zezé durante o lançamento do Frente Favela Brasil, no Morro da Providência, em julho de 2016.

Quase 54% da população brasileira se considera negra, de acordo com o IBGE. Mas, quando se olha para o Congresso Nacional, a representatividade se limita ao homem heterossexual branco e engravatado. É essa realidade que o novo partido Frente Favela Brasil quer mudar.

A partir desta segunda-feira (28), o HuffPost Brasil vai publicar reportagens com Novos Atores da Política Brasileira. Vamos apresentar as propostas e ideais de ativistas, militantes e movimentos que tentam transformar o cenário político atual, marcado por corrupção, fisiologismo e patrimonialismo, que causam um significativo atraso ao País.

Lançado oficialmente em julho de 2016, com uma festa no Morro da Providência, a primeira favela do Rio de Janeiro, o partido quer juntar forças e dar visibilidade e oportunidade aos negros, moradores de comunidades e pessoas de baixa renda que moram em periferias.

Um ano e um mês depois, os líderes da nova legenda entregarão no próximo dia 30 uma solicitação de registro ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral). "Sofremos o maior impacto no acesso à saúde. Se quebra a segurança pública, o impacto para nós é muito maior. Então, nada mais que justo que as pessoas que estão nesses espaços também decidam as regras da nação", disse Celso Athayde, empresário do Favela Holding e idealizador do Frente Favela Brasil.

Apesar de idealizar a legenda, o empresário de 54 anos não quer saber de carreira política. Já no início da entrevista ao HuffPost, apressou-se em dizer: "eu nem faço parte do partido, né". Como empresário, ele diz que seria impossível ter algum cargo no partido, uma vez que as atividades empresariais e políticas, a seu ver, não combinam e podem causar conflito de interesses.

Quem o vê hoje não imagina a história de superação por trás do responsável pela primeira holding do mundo que atrai empresários para investirem nas favelas brasileiras. Atualmente, ele é sócio de 21 empresas, todas ligadas a comunidades.

Nascido na Baixada Fluminense, Athayde morou em favelas, abrigos públicos e até na rua. Foi na favela do Sapo, zona oeste do Rio de Janeiro, que conheceu Rogério Lemgruber, fundador da Falange Vermelha, que gerou o Comando Vermelho. Aos 14 anos, Athayde vendia doces para ajudar nas contas de casa e um de seus maiores clientes era justamente Lemgruber, que se tornou amigo e primeiro a encorajar sua educação. O traficante fazia a molecada ouvir Caetano Veloso, Chico Buarque e Geraldo Vandré.

"Ele [Lemgruber] dizia: 'Não quero bandido burro aqui, não... Não quero favelado burro aqui, não... Nós que somos pretos, não temos nada, só as bocas de fumo, então temos que ser inteligentes", escreveu o empresário em 2014, sobre seu contato com Rogério Lemgruber, em um relato intitulado O Berço do Crime.

Athayde não só se tornou empreendedor, como também é ator de três best sellers e coautor dos livros Falcão - Mulheres do Tráfico (2007), Falcão - Meninos do Tráfico (2006) e Cabeça de Porco (2005), em parceria com o rapper e escritor MV Bill.

Fundou também, há 20 anos, a Central Única das Favelas (CUFA), maior organização governamental focada nas favelas do Brasil, presente em 17 países.

Na legenda recém-lançada, Athayde seria apenas um dos voluntários. Por enquanto, seu foco é disseminar as ideias do partido e empoderar aqueles que nunca tiveram voz. "Nossa participação hoje é só votar", disse ao HuffPost Brasil.

Todos os partidos falam que vão governar em nosso nome, o dos oprimidos e marginalizados. Então o que estamos propondo é que esses marginalizados e oprimidos não coloquem outros para os representarem, mas que eles mesmos façam seu próprio governo.

Segundo Athayde, o partido não pretende ser igual aos demais. Além de dar protagonismo aos negros e moradores de comunidades, a legenda pretende lançar políticos jovens, sendo 50% mulheres, além de impor o voluntariado como regra número 1 — o político terá de doar 50% do seu salário para caridade.

Leia a íntegra da entrevista:

HuffPost Brasil: Por que você decidiu criar o Frente Favela Brasil?

Celso Athayde: Eu nem faço parte do partido, né. Eu na verdade sou voluntário, embora o partido seja feito 100% por voluntários. Por que resolvi botar essa "pilha" nas pessoas? Se a gente pede cotas [nas universidades, serviço público] obviamente é porque estamos em desvantagem social.

Isso começou um ano e dois meses atrás quando acompanhava a votação do impeachment da Dilma [Rousseff]. Ali se via, na verdade, claramente que não tinha nenhum voto sério. Ninguém votou no impeachment da Dilma sob o olhar do crime que ela eventualmente tinha cometido, mas se votou na Dilma com as mesmas razões que hoje se votou a favor do . O assunto central não estava em jogo, o que estava em jogo era a vantagem pessoal de cada grupo. Votaram baseado nas ruas, baseado na mídia, baseado na família, na igreja, no revanchismo, menos no que estava realmente colocado ali. Percebi o quanto as bancadas são fortes e, independentemente de eles terem razão ou não, eles vão ser atendidos porque se organizaram.

Existem hoje no Congresso 513 parlamentares, e centenas desses fazem parte das bancadas evangélica e da agropecuária. E o que sobra é da bancada da bala, bancada da cultura, esporte, enfim. O que quero dizer? Os negros, apesar de serem 78 milhões de eleitores, não têm bancada de nada.

E os 25 negros que estão no Congresso, eles representam essas bancadas. O negro está lá como negro? Não. Está como pastor evangélico e não tem nenhum compromisso conosco.

Você imagina, por exemplo, se os negros tivessem uma bancada, também poderiam negociar uma série de benefícios para sua comunidade. Hoje, nesse momento, o STF está com uma pauta do DEM, que estão pedindo a revogação da concessão dada para as comunidades quilombolas. Eles sabem que não existe preto no Congresso, não existe uma bancada.

#Repost @caroalanna with @repostapp ・・・ Ronaldo Pereira x Jhoni Morgado

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O que o Frente Favela Brasil pretende mudar na política brasileira?

Acho que ter representação na política é uma representação no poder. E não é poder pelo poder, é poder ter a possibilidade de transformar a vida das pessoas que estão ao seu redor. Não fazer revanche, mas para participar do jogo democrático, porque estamos fora desse jogo hoje. Nossa participação hoje é só votar.

E todos os partidos falam que vão governar em nosso nome, o dos oprimidos e marginalizados. Então o que estamos propondo é que esses marginalizados e oprimidos não coloquem outros para os representarem; mas que eles mesmos façam seu próprio governo.

A ideia desse partido não é assumir a presidência da República, de disputa majoritária. A gente só pode ser respeitado se não deixar de lutar nunca pelo seu espaço. Isso é legítimo, assim como os evangélicos têm uma bancada. Eles estão se juntando e a partir desse momento em que eles se juntam, conseguem licença para seus templos, isenção fiscal para os templos, votam concessões de rádio e televisão para seus grupos, ou seja, se é legítimo ter bancada da bala, e interesse de demais grupos, um grupo de 112 milhões de pessoas [população total de negros] precisa também se organizar para se autorrepresentar.

A ideia de criar um partido para negros e moradores de favelas, nada mais é do que uma evolução natural das conquistas que temos ao longo desses anos.

E qual seria o diferencial do partido, além de lutar pelo papel do negro na política e pessoas que vivem em comunidade?

Não precisamos ser diferentes, precisamos criar códigos. Por exemplo, os códigos da favela que estamos levando, são diferentes do asfalto [bairros fora das comunidades]. Os nossos representantes serão desse território [comunidades]. E quando você mora numa favela, você precisa respeitar os códigos desse lugar; isso tem a ver com verdade, responsabilidade e ética.

Quando você é de fora da favela e paga para fazer campanha a alguns cabos eleitorais para trabalhar por você nas favelas, você não tem responsabilidade com aquelas pessoas, você tem apenas os votos. Mas se morasse lá, iam te cobrar na tua porta. Você sabe que está representando aquelas pessoas e que mora lá. Então este é o diferencial: as pessoas que farão parte deste partido moram naquele território.

Além disso, existe no próprio programa uma série de diferenciais que são relevantes. O primeiro deles é que é um partido de voluntários. Todo mundo do partido é voluntário. É certo que alguns deles vão trabalhar diariamente no partido, mas até mesmo os parlamentares desse partido são voluntários. Nós estabelecemos, e entendemos que a atividade parlamentar não é remunerada, mas voluntária. Uma vez que entende isso, não vou fazer campanha para encher o bolso de dinheiro de um deputado.

Como vai funcionar esse voluntariado na prática?

Os parlamentares recebem o pagamento deles e vão doar para a sociedade 50% desse dinheiro. Como vão fazer isso? Montamos um instituto e todos os parlamentares do partido eleito doam 50% do salário para essa fundação e todo ano, no mês de dezembro, abre um edital e financia projetos sociais feitos em favelas de todo o Brasil. As pessoas do instituto não podem ser filiadas ao partido, porque não queremos que viabilize o dinheiro para o partido. Então a ideia é não ter relação com o partido.

Brancos, japoneses, chineses, negros... Todos podem fazer parte do partido, mas na posição de voluntários.

Outro diferencial é a paridade de gênero. Todos cargos serão partilhados entre homens e mulheres, o partido não tem presidente. Nos estados, nos municípios e até na presidência nacional, será uma mulher e um homem, sempre.

Uma espécie de presidência compartilhada?

Sim. Formalmente, todas as mulheres serão presidentes dos estados, mas na prática, compartilham a presidência. Sempre haverá um homem e uma mulher em todas as lideranças. Eles falam juntos.

Outro diferencial: o presidente e a presidente do partido não podem ser do Rio nem de São Paulo. A gente entendeu que esses estados concentram o poder do País. Em nível de legislação, tem que ser Brasília (na sede), mas o escritório nacional será sempre na mão de presidentes que morem fora do eixo Rio-São Paulo.

Hoje, o presidente é um homossexual negro de Minas Gerais e a presidente é uma mulher da religião do candomblé que mora no Morro do Papagaio, em Minas Gerais. E o vice-presidente é um pastor evangélico de São Paulo e a vice-presidente é uma mulher indígena da Bahia. A gente tenta estar representado.

Outro diferencial: 50% de todas as vagas da disputa eleitoral serão para jovens entre 18 e 35 anos de idade; 25% entre 35 e 50 anos de idade e outros 25% a partir de 50 anos. Se você considerar que pessoas com 18 e 50 anos são 75% e que a média [de idade] é de 30 anos, [o Frente Favela Brasil] será um partido jovem. Também há paridade de gênero, sendo 50% de mulheres concorrendo às vagas, e 50% de homens. Então os jovens e as mulheres não vão perder espaço nesse partido.

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Lançamento do Frente Favela Brasil, em julho de 2016.

Qual sua posição sobre as críticas de parlamentares de que há partidos demais no Brasil?

Os negros são 112 milhões de pessoas e, desses, 95% não fazem parte de movimento nenhum. Nunca foram de partido nenhum. A gente entende que não existem partidos demais. Existem partidos de menos.

O que existe são partidos demais falando da mesma coisa. Nenhum deles fala pra nós. Só existiria partido demais se algum deles falassem em nome de 54% da população.

Fomos acusados de racistas agora por membros de um partido. Engraçado que esse partido tem um grupo de afro-descendente. O DEM tem um grupo de negro, o PMDB também tem, o PSDB tem o Tucanafro, o PT tem o MMU, o PCdoB também tem. Os negros estão em caixinhas nos partidos e a função deles é arregimentar votos dos negros, das periferias, para esses partidos.

Ou seja, esses partidos reconhecem os votos dos negros, tanto é que abrem portas, quadros de negros numa mesma caixa, embora não deem poderes a eles. Estão lá para representar. Eles são diferentes. Se esses partidos achassem que somos iguais, não teriam essas caixinhas. Por que tem grupo de negros se somos tudo iguais?

Quando você não quer mais fazer parte de uma caixinha, isso vira um problema. Exatamente como as cotas. O DEM, como te falei, está movendo ação contra as concessões dos quilombolas como se não fosse um direito dessas pessoas. E no entanto, os negros do DEM não falam nada. O negócio deles é pegar votos. Sequer discutem essas pautas, nem se posicionam.

O que quero dizer com isso? Nós precisamos de negros no poder para também fazer esse contraponto. Será que as comunidades de religiões de matriz africana estão sendo respeitadas, se deputados da bancada evangélica têm como papel fundamental exorcizar e excluir essas pessoas?

Se eles têm alguma pauta religiosa que não seja deles, eles vão negociar com outras bancadas, trocar interesses. Se têm religião como pauta, tem que negociar com esses deputados. Se o negro não está representado, ele vai ser massacrado. Ninguém pede votos para negros [no Congresso]. Se está nesse espaço, o partido tem como princípio a igualdade de oportunidade. Não a reversão do quadro. Queremos igualdade de oportunidade. Se o negro não tem dinheiro, não consegue fazer campanha, se negro não faz campanha, só consegue votar. E ainda que vote em preto no partido dos brancos, esses negros são minoria e não conseguem ter força para reivindicar nossos interesses.

Se tivermos uma bancada forte, pode ser que nossos anseios sejam atendidos. Ou ter apenas condição de negociar. Fundamentalmente somos reconhecidos hoje de uma série de formas, mas também precisamos ser reconhecidos como atores na política, atores no poder e que debatem e discutem o problema da nação e tendo parte das rédeas que definem nossos destinos.

Como as comunidades poderiam contribuir, nesse sentido?

Qual a contribuição da favela hoje? É votar. Mas não contribui legislando. Agora imagine: um homem muito rico com uma mulher muito rica em uma BMW vão para uma favela comprar drogas — que é o que mais tem — e um pretinho jovem de 13 anos de idade sem dentes, descalço e mal arrumado entrega pra este casal perto da sua casa. Se a polícia chega, não prende os três. Libera o casal, que é vítima do pretinho, e prende o pretinho por crime hediondo, por tráfico de drogas. Ou seja, se a favela fizesse as leis, iria prender os três, e os dois [o casal] com agravante: aliciando um menor.

Na verdade, enquanto não estivermos dentro do processo das leis e legislando, vamos ficar submetidos às regras do asfalto. Sendo criminalizados em todos os aspectos.

Fica muito claro que esse partido não é racista. Os brancos podem fazer parte na sua elaboração, até japonês tem no partido. Entendemos que os não-negros do partido são voluntários, mas não vão falar em nosso nome no partido.

Como assim?

O partido preza pelo protagonismo. Eu sou negro. Se minha mulher fosse japonesa eu podia fazer parte da comunidade dela, como marido dela. Mas jamais aceitariam que eu falasse em nome da comunidade japonesa. E eu também acho que não devo falar, nem tenho condições, embora possa apoiar suas causas. Mas por que, então, os brancos insistem em falar em nosso nome?

Isso não é racismo; é protagonismo. Até pouco tempo atrás, o samba era proibido por lei. A capoeira era proibida por lei. O racismo foi no Brasil um sistema oficial de governo, foi um projeto de governo, não era ideia de maluco. Quando o samba ganhou força, os homens do asfalto criticavam, porque os sambas aconteciam nos barracões do candomblé. Aí quando o homem do asfalto toma o samba para ele, leva pro sambódromo, leva para Apoteose, traz networking, traz dinheiro, televisão, rádio — em contrapartida leva o carnaval para ele. Todo o dinheiro que o carnaval gera vai pro homem do asfalto. E os únicos espaços que o preto tem no carnaval do asfalto estão no carro alegórico, batendo na bateria, mais nada.

Se é pra poder sambar na avenida sem ganhar dinheiro, então fazemos carnaval na rua, sem cobrar nada. O que queremos é partilhar da riqueza, compartilhar daquilo que nós construímos. As famílias negras hoje mobilizam R$ 1,5 trilhão por ano. E dos não-negros, são 2,4 trilhões. Nós mobilizamos e produzimos 40% de toda riqueza do País. E os não-negros, 60%. Ora, se nós construímos essa riqueza, podemos usufruir dela também.

Não vamos mudar a vida das pessoas da noite pro dia, mas precisamos ocupar a maior quantidade de espaços todos os dias. Inclusive aquele que está sendo chamado de anomalia, que é o espaço político. Essa anomalia existe, mas se nós não contribuirmos nesse território, além de ficarmos sendo administrados por esse tipo de gente, ainda seremos massacrados na medida em que todas as leis são feitas e não temos acesso. Hoje sofremos o maior impacto no acesso à saúde. Se quebra a segurança pública, o impacto para nós é muito maior. Então, nada mais que justo que as pessoas que estão nesses espaços também decidam as regras da nação

Além dos negros, o partido vai apoiar outras minorias, como mulheres, indígenas, comunidade LGBT?

Se o partido abrir muito, vai discursar para todo mundo e não vai se posicionar. Quando o MST tem discurso claro sobre reforma agrária, também precisa pensar o quanto a mulher é importante nessa luta. O PT também pensa como a mulher precisa avançar. O PRB, partido evangélico, precisa pensar como a mulher está incluída nesse processo. Quando a gente [o partido] fala da mulher, é a mulher favelada e preta. Esse é o nosso foco. Seria uma ingenuidade falar para todas as mulheres.

Quando fala da juventude, a gente fala do jovem negro, que é o mais violentado, que mais morre por arma de fogo.

Isso não é ser contra os outros jovens. A mulher negra pode ser evangélica, macumbeira ou espírita, mas se fala do aborto, uma tem o ativo religioso, a outra pensa diferente. É um debate sem fim. Temos que pensar naquilo que nos une, que é o preconceito absurdo.

Quando se fala em mulheres, as negras recebem menos que uma mulher branca. Então nosso foco não pode ser para todas. As mulheres brancas podem se juntar a nós. Mas elas não recebem o preconceito que as negras têm. As mulheres brancas já avançaram muito mais.

Se o partido fala pra todo mundo, é ingenuidade. Ao mesmo tempo, se juntar todas as favelas do País, seriam o 5º estado mais rico do Brasil. As favelas movimentam por ano R$ 70 bilhões. E dentro da favela, existem todos os problemas nacionais: da mulher, do jovem, do negro, do pobre, do índio, do desempregado. E não é só economicamente que importa, o meu sonho é conseguir juntar as pessoas negras ou não que conheçam dos temas e esses, sim, toquem esse projeto. Não tenho conhecimento técnico para presidir um projeto como esse. Meu papel tem sido juntar essas pessoas, os cientistas, o laboratório, para que eles desenhem um projeto de nação onde todos tenham oportunidades e ter direito ao que o homem do asfalto chama de meritocracia. Até então não podemos medir essa meritocracia se as pessoas não têm as mesmas oportunidades.

Esse debate está na casa grande, não está na senzala. Os pretos absorvem esse debate pela grande mídia, que é contrária aos nossos interesses. A gente não tem veículo de mídia, a gente não pauta, a gente tem vergonha de nós mesmos. Na verdade, o partido não está aqui para reverter o quadro, está aqui para equilibrar as relações e avançar junto.

Então nenhuma pessoa branca poderá se lançar a candidato pelo partido?

No estatuto do partido, não diz isso. O partido diz que todos os moradores de favelas e negros [podem se candidatar]. Não os homens do asfalto. Então uma mulher loira de olho azul que mora em Paraisópolis pode nos representar, não como negra, mas enquanto território. Tem dois recortes: territorial e étnico. Agora um morador do asfalto, mesmo que seja branco com boa intenção, não pode falar pela favela, nem pelo negro. Assim como não posso falar em nome dos petroleiros ou da comunidade científica. Mas posso achar importante aquela causa.

Quero ser representado por alguém que sofre como eu sofro. Não quero que alguém fale por nós: "eu acho que os negros precisam ser reconhecidos". Não precisamos dessa voz, porque sempre foi assim.

Será que o PRB, partido do Edir Macedo, aceitaria colocar como ministro um pai de santo? Não conheço nenhum pai de santo que represente o PRB, porque não está alinhado com o partido. Nosso partido está ligado aos negros, aos moradores de favela e aos pobres, que moram na periferia. Atrás de um condomínio de rico, tem uma vila de moradores que servem esse condomínio.

A elite já se representa, enquanto nós estamos na política dentro de uma caixinha nos partidos. Achamos que é legítimo termos nossa bancada e termos nossa autorrepresentação.

Eu sou negro e sou diferente a ponto de me darem espaço no seu partido na condição de negro, então entendam que nessa condição quero ter um partido pra mim.

Como o partido pretende representar as comunidades de todo o Brasil, uma vez que há pessoas muito diferentes dentro delas (como crenças, ideologias, interesses)?

As religiões são distintas, os interesses são distintos, o dialeto é distinto etc. Mas pergunte para um morador de favela se ele sofre preconceito, 100% vão dizer que sim. Independe de sua origem, de sua raça, de sua cidade, de qualquer coisa, ele sofre preconceito. Negros, ricos e pobres, também sofrem preconceito.

Socialmente, pode ser que um ganhe dinheiro mas vai sempre ser lembrado pelo porteiro do prédio que ele é preto. Apesar de ter dinheiro, não parece. Apesar de ter carro, não parece que é dele. Apesar de ter status, quando tem um branco do lado dele, sempre vão achar que o branco é patrão, ele é empregado. Ainda que seja o contrário. Isso nos une.

Na religião é diferente; nas igrejas pentecostais, existem vários movimentos negros. Por exemplo, o vice-presidente do nosso partido é negro, pastor evangélico e desalinhado com a pauta do Silas Malafaia. São pretos que buscam espaço na condição de negros dentro das igrejas evangélicas, assim como tem movimento de negros dentro da igreja católica. Padres que se rebelam por causa do racismo na igreja.

Por mais que sejamos diferentes, vemos avanços. Eu posso ser contra aborto, e outro a favor, mas somos uma nação de 112 milhões de pessoas e temos nossos mais diversos pensamentos e divergências. Mas existe pauta que nos une: a necessidade de avançar e a consciência de que não temos as mesmas oportunidades que outros grupos.

Por que não quis se candidatar a nenhum cargo do partido?

Sou empresário hoje, tenho 21 empresas. Tenho uma holding de favela e, pessoalmente, entendo que atividade parlamentar não é compatível com a atividade empresarial. O Trump é um exemplo disso, mas mesmo o vereador que é empresário acaba confundindo o que é público com o privado e usa as relações políticas para oxigenar sua atividade empresarial. Eu prefiro ser só empresário. Montei a primeira holding do mundo de favela. E acho que é uma contribuição que estou dando.

Também é para ninguém ter dúvidas do meu objetivo. Não quero que fiquem imaginando o que quero com isso, se tenho interesse político nesse sentido, e até para não ser alvo de inveja, o que destruiria o projeto, eu não vou me filiar. Não terei cargo nesse partido. Serei voluntário e farei as críticas quando é necessário fazer, mas sem ter poder de decisão. Se o partido seguir um caminho que eu não sonhei, eu serei só um crítico.

Ainda que esse partido cometa todos os erros que outros partidos cometeram, acredito que é um avanço.

Nunca cometemos um erro sequer antes, porque nunca tivemos o poder e a oportunidade de errar.

O partido é de esquerda, direita ou centro?

A gente optou por não reproduzir os modelos que estão postos. Uma pelo desgaste que todos eles têm e a maior prova disso é que ninguém acredita mais nesses partidos, salvo algumas exceções, e que ficam trocando de nome o tempo todo para tirar os estigmas dessas bandeiras. Nós entendemos que a gente tinha que sair desse lugar comum. A direita é justamente os partidos que pregam a meritocracia, sem pregar os direitos iguais e que estão mais próximos dessa direita radical que está crescendo no mundo. Então não podemos ser de direita, nunca.

Se me obrigasse a responder, eu obviamente diria que somos um partido de esquerda. A gente não quer ficar com esse rótulo. Com a marca de não poder se comunicar com ninguém. A gente entende que a esquerda foi quem mais deu oportunidades para os negros. Então estamos mais alinhados com a esquerda, mas não com a promiscuidade em que eles se envolveram.

Como isso é muito confuso para as pessoas da favela, que nunca entenderam muito essas diferenças, ficar carregando bandeira neste momento é cair numa vala comum que a favela também não quer saber. Mas eu preferia dizer que entre ser de esquerda, de direita, eu prefiro ser preto. Por mais que partidos tenham feito muito por nós, não foi o bastante para nossa evolução real.

O partido vai lançar candidatos nas eleições de 2018?

Eu preferia dizer em que pé a gente está. O partido tem três momentos: inicial, sua formação. A gente fez isso no ano passado, no morro da Previdência com o Lázaro Ramos e artistas. O segundo momento é fazer uma ata de fundação, formalizar e dar entrada em Brasília no cartório oficial. Registramos o partido na Receita Federal e temos o CNPJ, então já somos uma instituição.

Ainda no segundo momento, pegamos o CNPJ e damos entrada no TSE pedindo seu número de registro, que vai acontecer no dia 30. Só que, ao contrário de todos os partidos, em vez de dar entrada no diretório nacional, vamos dar entrada no diretório nacional e nos 27 diretórios estaduais. Nenhum partido jamais fez isso. Estamos construindo diretórios nos estados. Não mostramos essa força antes para não assustar muita gente.

No dia 30, a gente pede registro de todos os estados no mesmo dia e 24 horas depois o TSE libera nosso registro. E o terceiro momento: a gente tem dois meses para buscar 484 mil assinaturas para participar do pleito eleitoral. A nossa previsão é que até o final de outubro teremos 5 milhões de assinaturas.

Queremos mostrar que será o maior partido do País em três anos. Essa é nossa expectativa.

Dependeremos da resposta do TSE, pode ser que saia em 24 horas ou que alguém queira demorar para analisar nosso documento por três meses, o que inviabilizaria nossa atuação no pleito. Mas, mesmo se demorarem, quem esperou 500 anos para ter um partido pode esperar um pouco mais.

Uma vez que consigamos as assinaturas no final de outubro, já damos entrada para participar nas eleições de 2018.

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