MULHERES

A denúncia de estupro de Clara Averbuck e a forma mais cruel de culpabilização da vítima

Escritora foi estuprada por motorista do Uber na madrugada deste domingo (27). Empresa desligou colaborador.

28/08/2017 19:21 -03 | Atualizado 28/08/2017 19:40 -03

"Bom, virei estatística de novo."

É assim que a escritora gaúcha Clara Averbuck, 38, inicia texto publicado em seu Facebook, em que denuncia o estupro que sofreu na noite deste domingo (27), por um motorista do Uber: "Fui violada de novo, violada porque sou mulher, violada porque estava vulnerável e mesmo que não estivesse poderia ter acontecido também", escreve.

Clara dá detalhes da violência sofrida por ela. Segundo o relato, ela estava em uma festa e pediu um carro via aplicativo para ir embora para casa. E foi aí que a agressão aconteceu. "O nojento do motorista do uber aproveitou meu estado, minha saia, minha calcinha pequena e enfiou um dedo imundo em mim, ainda pagando de que estava ajudando "a bêbada", conta.

Ainda em sua postagem, a autora conta que ficou com um olho roxo e que "a culpa de ter bebido e me colocado em posição vulnerável" a acompanha. Mas deixa claro que, desta vez, não vai deixar a culpa falar mais alto e, por isso, escreveu o texto também para servir de alerta às mulheres.

"Estou falando tudo isso para que todas as que me lêem saibam que pode acontecer com qualquer uma, a qualquer momento, e que o desamparo e o desespero são inevitáveis. O mundo é um lugar horrível pra ser mulher".

Clara iniciou a denúncia dizendo que virou "estatística novamente". Em maio deste ano, a escritora escreveu outro depoimento em sua página no Facebook em que relatou ter sido vítima de estupro aos 13 anos. "Quando eu fui estuprada por três homens, há 24 anos, aos 13 anos, não tinha funk, eu não morava na favela, eu não estava de shortinho. Foi numa festa de alunos de uma escola particular", escreveu à época.

Leia o relato completo:

Em nota à imprensa a Uber repudiou o ocorrido e informou que o motorista foi identificado e banido da empresa.

"A Uber repudia qualquer tipo de violência contra mulheres. O motorista parceiro foi banido e estamos à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações. Acreditamos na importância de combater, coibir e denunciar casos de assédio e violência contra a mulher"

E Clara confirmou:

A reação ao relato de Clara chegou aos Trending Toppics do Twitter e teve mais de 10 mil compartilhamentos no Facebook. Ao mesmo tempo em que recebeu apoio, inclusive, de desconhecidos, a escritora também foi alvo de críticas e seu relato foi posto em dúvida. Atitude comum quando uma mulher é vítima de violência.

Mulheres são violentadas a cada onze minutos no Brasil, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2015. Até o ano de 2009, o estupro era considerado crime contra a honra. E ainda hoje o estupro é um dos crimes menos notificados do Brasil.

Cerca de 50 mil casos são registrados anualmente no Brasil e estima-se que isso representa apenas 10% da quantidade dos casos.

A pessoa que é violentada, na maioria das vezes, deixa de denunciar com medo de retaliações, com vergonha de se expor, e até mesmo com receio de serem culpadas ou expostas pela violência sofrida.

Alguns chegaram até a duvidar e questionar se, realmente, Clara tinha sofrido um estupro.

De acordo com o Código Penal Brasileiro em seu artigo 213 (na Lei nº 12.015, de 2009), estupro é classificado como o ato de constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.

Em resposta à reação negativa que sofreu, Clara escreveu em seu Twitter:

Como resposta à agressão, Clara criou a campanha #MeuMotoristaAbusador e #MeuMotoristaAssediador nas redes sociais. A ideia é que outras mulheres compartilhem suas histórias.

"Que meu caso sirva para que outras mulheres não tenham medo de expor o acontecido", escreveu em relato para a revista Claudia. "Que não se culpem. Que, se não se sentirem seguras para fazer uma denúncia formal, sejam respeitadas", conclui.

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