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O projeto de mãe e filha que troca flores por ajuda para refugiados ao redor do mundo

"O que eu queria? Que, se fôssemos nós, a gente encontrasse do outro lado da fronteira um abraço. A gente precisa se colocar no lugar do outro."

27/08/2017 09:00 -03 | Atualizado 28/08/2017 11:14 -03

"O que eu queria? Que se fôssemos nós no lugar desses refugiados a gente encontrasse do outro lado da fronteira um abraço, uma roupa seca e um prato de sopa. A gente precisa se colocar no lugar do outro. Porque ninguém garante que a gente não possa estar nesse lugar. Não podemos esquecer a história. Se sua família é judia, libanesa, italiana, vocês já passaram por isso. O Brasil é uma mistura, não é verdade?"

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Gabriela Shapaizan durante trabalho voluntário com refugiados em Lesbos, na Grécia.

Foi na Primavera Árabe, em 2010, que Kety e Gabriela Shapazian cruzaram as fronteiras do Brasil para se tornarem cada vez mais sensíveis aos dramas que milhares de pessoas vivem ao redor do mundo. Na época, a pequena Gabi tinha apenas 11 anos e já via a mãe se tornar uma espécie de ativista no Twitter sobre os direitos humanos.

Cinco anos depois, a sementinha plantada levou a jovem paulistana a passar 45 dias na Grécia acompanhada da mãe trabalhando como voluntária no recebimento de refugiados na Europa.

Daí em diante, não parou mais.

Atualmente, o mundo vive a mais grave crise de refugiados desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. São pelo menos 65,6 milhões de pessoas que deixaram os seus lares fugindo de conflitos, perseguições políticas e guerras.

Mulheres e crianças compõem grande parte desse montante. E quem vive de travessias é obrigado a lidar com torturas, abusos e a incerteza. Diante deste contexto nasceu o Flores para os Refugiados. O projeto de mãe e filha troca delicados arranjos de flores por uma verba que é capaz de manter a Gabi trabalhando em campos de refugiados.

Após a visita em 2015, Gabi já voltou para o país, trabalhou na ilha de Lesbos, foi para Belgrado e deve continuar sua trajetória pela Turquia e Jordânia. Para manter a ação transformadora da filha, Kety permanece em São Paulo vendendo as flores.

Em depoimento ao HuffPost Brasil, Kety Shapazian compartilhou parte de sua trajetória com Gabi:

Por que você não para de reclamar e vai lá?

"Em 2015, a gente começou a adicionar pessoas no Facebook, a participar de grupos de apoio aos refugiados online. Nesses grupos, percebemos que as pessoas estavam se organizando para ir nesses locais. Até aquele momento eu sempre tinha sido uma espectadora junto com a Gabi. No final do ano ela me disse: por que você não para de reclamar e não vai lá ajudar? Mas como assim ir até a Grécia para ajudar?

A gente seguia acompanhando as cenas das pessoas em barcos se afogando. As pessoas que a gente adicionava no Facebook sofrendo e pedindo ajuda nas redes sociais. Uma família inglesa que a gente tinha contato denunciava no Facebook que os corpos dos refugiados estavam chegando na praia da casa deles. Era terrível. Então nós resolvemos ir. Ficamos 45 dias recebendo barcos e pessoas na Grécia."

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Voluntários recebem barcos de refugiados em Lesbos, na Grécia.

Fui vender flores para bancar o projeto

Tive muita sorte em viver esse momento com a minha filha. Ela tinha 16 anos quando chegou em Lesbos, e ela virou uma adulta na minha frente. Ela era incansável. Havia horas que eu queria voltar. Tinha em mente que já tinha feito a minha parte e que precisava sair de lá. Eu reconheço que teve horas que simplesmente cansei. E ela não. Ela só voltou porque eu a obriguei a voltar pra terminar o ensino médio.

Voltamos em fevereiro de 2016 quando as aulas dela iam começar. Ela foi para escola e foi terrível. A Gabi estava em outra página, em outro capítulo, em outra frequência. Não importava mais a física, a química, a matemática, nada disso. A escola não soube lidar com a cidadã que ela virou. Não soube lidar com o fato de que para ela e para mim prestar vestibular seria a última de nossas preocupações.

Como se preocupar em ir para qualquer faculdade se a gente tinha visto coisas que iam dos dois extremos, da extrema felicidade por ter sobrevivido até a extrema tristeza por ter perdido pessoas queridas na travessia?

A Gabi decidiu que voltaria nas férias de julho de 2016 para a Grécia. A gente não tinha dinheiro para bancar a viagem das duas, e eu já não me sentia disposta a ir, mas entendi que ela precisava continuar. E prometi para ela que ia dar um jeito.

Só que a gente não tinha dinheiro. E foi nesse momento de pensar qual seria a solução que fui para um chá de bebê organizado para um casal sírio em São Paulo. Lá, sentei na mesa e vi os arranjos de flores. Olhei pra eles e entendi que poderia fazer isso. Decidi que iria vender flores para bancar a Gabi. Tive o incentivo de amigos que me apoiaram e no dia seguinte eu já estava procurando as coisas para me organizar. Virei autodidata dos arranjos e de tudo que envolve o universo das flores.

Fui paro os faróis das ruas de São Paulo vender os arranjos. Hoje, o projeto já é bem mais estruturado. Somos um negócio de flor, temos um ponto de venda na Casa Orgânica, recebo encomendas, isso tudo porque as pessoas gostam do projeto.

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Katy e Gabriela Shapaizan, idealizadoras do projeto Flores para os Refugiados.

Caminho tortuoso

Chegar em Lesbos era um marco. Era o símbolo de estar seguro. A Europa foi fundada como um continente democrático. Ao contrário de lugares como a Síria, África, Bangladesh. Eu tinha que olhar no mapa para entender a rota daquelas pessoas. Porque eu simplesmente não entendia como elas saiam do Sri Lanka e chegavam até Lesbos, por exemplo. Eu e a Gabi fomos aprendendo muita coisa.

As pessoas que saem, além do caminho tortuoso, elas enfrentam diversos abusos. E nós, naquela posição, nos tornamos fonte de informações para as famílias. A gente tinha que mostrar a cada um dos grupos de refugiados quais os caminhos que eles poderiam seguir.

Eles chegavam lá e questionavam onde estavam, o que deveriam fazer para chegar nos outros lugares. Nós éramos o estágio inicial. Depois eles iam para os campos de refugiados. Eles precisavam conseguir documentos para comprar as passagens da Grécia para os outros lugares.

A Gabi se tornou uma ativista do direito ao movimento. Ela não aceitava porque ela com 17 anos pode ir para qualquer lugar e já uma menina síria de 17 não pode entrar em um avião. Quem precisa mais? Óbvio que a menina que precisa fugir da guerra e precisa ser recebida.

A gente tem que entender que a crise não acabou, pelo contrário, o problema está maior.

Você aprende a valorizar simplesmente tudo o que você tem. A experiência da Grécia mudou 100% a nossa relação com consumo, por exemplo. Você percebe que algumas preocupações simplesmente não fazem sentido.

Os refugiados fugiram por conta da violência em seus países de origem. São inúmeros grupos terroristas, minorias com crenças que eu nunca tinha ouvido falar. Quem não está envolvido com a causa acaba não tendo muito acesso as informações sobre os refugiados. É tudo muito complexo para aparecer no jornal.

O dia a dia deles é muito difícil. Os refugiados pagam traficantes para atravessarem o continente. Certa vez eu recebi um homem que literalmente vendeu o rim para fazer a travessia. Como o barco pode ser mais seguro que a terra? Porque você só entra nessa situação com alguma racionalidade se apegando na esperança de que está indo para um lugar melhor. Os refugiados sofrem tortura, abuso, estupros. Homens e mulheres. Não é opção ficar ou voltar pra casa.

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Gabriela Shapaizan em meio aos coletes salva-vidas descartados em Eftalou, na Grécia.

Autoconhecimento e preconceito

A Gabi foi para Sérvia também, mas lá ela reconheceu que Belgrado estava vivendo uma situação muito difícil. Ela ia ficar 30 dias e ficou apenas dez. Ela reconheceu que não estava bem ali e que não ia conseguir. Nesse trabalho, é importante reconhecer os seus limites.

Mas ai quando você "desiste", quando você decide sair da situação e voltar pra casa, é um sentimento de culpa enorme. Não tem como explicar. Porque é lógico, você tem uma casa. Você tem um lugar para voltar, seu banheiro, seu cachorro, tudo seu está te esperando. E aquelas pessoas não têm nada isso.

Mas ela não está sozinha. Foi sendo criada uma rede de ajuda e proteção entre os voluntários. Várias ONGs e projetos se juntaram para apoiar os refugiados. No caso da Gabi, ela é voluntária independente, ela se apresenta às organizações, manda mensagens para os campos de refugiados e se disponibiliza para trabalhar com eles. Esses projetos podem aceitar ou não.

Por outro lado, tem muita gente que não gosta. Muitos moradores de Lesbos acreditam que os refugiados acabaram com o turismo na ilha. Que as ONGs e os voluntários não deveriam estar lá. Ainda existe muito preconceito.

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Placa de "seja bem vindo" em campo de refugiados.

Ser mulher e receber mulheres é fod*

Ser mulher e receber mulheres é foda. Uma vez, recebemos um grupo do Sri Lanka. Estávamos em um campo chamada Platános, em Lesbos. Ao lado deles tinha um campo construído por voluntários suecos, o Light House. O Platános não tinha banheiro e o Light House tinha.

A gente fazia uma excursão toda vez que recebíamos as pessoas e o banheiro era a parada obrigatória. Nessas excursões a gente precisa ter muito cuidado, porque as pessoas não podem se separar.

Se você se perde você corre o risco de nunca mais encontrar seus parentes.

E tinha um grupo só de moças do Sri Lanka. Elas pediram para ir ao banheiro e fui levá-las. Quando elas chegaram no banheiro, elas disseram que não tinha condições de usá-lo. Agora imagine. Uma pessoa que está fora de casa há meses. Passou os últimos dias no barco. Chega em terra firme e precisa usar o banheiro. Imagine o estado que deveria estar aquele banheiro... A gente sabe o nojo que é usar um banheiro desconfortável. Então, eu levei elas para o meu quarto na minha acomodação e elas ficaram muito muito gratas.

Outra vez, a Gabi se emocionou muito ao receber uma menina síria de nove anos que estava acompanhada de seu irmão de três anos. É surreal que crianças estejam atravessando o continente sozinhas. E não é uma ou outra. Basta ver as estatísticas: metade dos refugiados do mundo tem menos de 18 anos.

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Crianças refugiadas brincando.

Chegavam mulheres sírias, afegãs, paquistanesas. Elas me remetiam muito a figura da Malala porque todas falavam a mesma coisa, elas queriam ir para a escola. A gente conversava com elas, algumas falavam um pouco de inglês, e o que eu percebi é que o sonho delas não é diferente do meu. Elas querem viver em segurança, ter um emprego e colocar comida em cima da mesa.

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