ENTRETENIMENTO

'Interessa-me discutir o corpo e a homossexualidade', diz diretor de 'Corpo Elétrico'

Marcelo Caetano estreia na direção de longa-metragem com 'Corpo Elétrico', em cartaz nos cinemas.

27/08/2017 12:52 -03 | Atualizado 12/12/2017 13:41 -02
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"Partimos muito mais de uma observação do que o país é do que do desejo de trabalhar com estrelas, de querer trabalhar com atores e atrizes conhecidos".

Marcelo Caetano estreia na direção de um longa-metragem Corpo Elétrico, em cartaz nos cinemas. O título do filme faz referência ao poema Eu Canto o Corpo Elétrico, do americano Walt Whitman (1819-1892). No texto, o poeta celebra as dotes físicos de fazendeiros, nadadores, pugilistas e bombeiros. Já no filme, o diretor mineiro focaliza a diversidade de trabalhadores de uma fábrica de confecção na região do Bom Retiro, no centro de São Paulo. É lá onde o protagonista Elias (Kelner Macêdo) passa longas horas do seu dia. Após os expediente, o jovem paraibano encontra diversão na companhia dos colegas de trabalho e prazer em encontros fortuitos com outros homens.

Caetano tem no currículo curta-metragens que percorreram festivais. Além disso, foi assistente de direção de filmes brasileiros aclamados pela crítica como Tatuagem (2013), Boi Neon (2015) e Mãe Só Há Uma (2016). No premiado Aquarius (2016), foi ele o responsável pela produção de elenco. Em Corpo Elétrico, o cineasta aborda questões de convívio e relações de trabalho, além de sexualidade e outras formas de amor que não o romântico. O universo LGBT, por sua vez, é retratado sem esteriótipos e conta com participações ímpares da cantora MC Linn da Quebrada e da travesti Marcia Pantera.

"Partimos muito mais de uma observação do que o país é do que do desejo de trabalhar com estrelas, de querer trabalhar com atores e atrizes conhecidos", disse o diretor em entrevista exclusiva ao HuffPost Brasil. Formado em ciências sociais, Caetano diz um diretor que lê jornais, apenas "livros do século 19" e defende a abordagem de outras formas de relacionamentos amorosos na sociedade. "Existe um conceito de hegemonia do amor romântico na literatura, na música, no teatro e no cinema - e outras formas de amor que são pouco discutidas", afirma.

Quando o assunto é a crise política no Brasil, a onda conservadora que ganha peso no Páis e seus reflexos no mercado de cinema, o mineiro se mostra apreensivo, mas com muita disposição de continuar trilhando sua trajetória no audiovisual. "Acho que é um momento bastante tumultuado. Acredito que essas pessoas querem impor o medo, porque aí fica mais fácil a manipulação. Só que acho que não podemos ter medo, não. Temos que continuar fazendo filme".

Sobre projetos futuros, Caetano conta que seu próximo projeto, ainda sem nome, será apresentando para o mercado holandês em setembro. "Vamos ter muito provavelmente o primeiro dinheiro do filme vindo do Brasil, mas é bom já costurar outras parcerias fora porque, como falei, o cenário é bem instável", explica.

Leia trechos da entrevista na íntegra:

Corpo Elétrico e a obra de Walt Whitman

"O protagonista é inspirado um pouco nas ideias e nas imagens do Walt Whitman. A gente brinca que o personagem desse autor é prismático, tem uma circulação pelo mundo e tenta ver beleza e integridade nos corpos daqueles que estão às margens da sociedade. De uma certa forma, ele subverte o olhar para a beleza que até então dominava a poesia americana. O Whitman tem um olhar bastante democrático. Apesar de conhecer as diferenças, ele não fragiliza a igualdade dos corpos, especialmente em termos de pulsão e de potência. Então quando você fala em eletricidade em Whitman, tem muito mais a ver com a potência do que com a agitação de corpos."

Diversidade de gênero, raça e entia na tela

"No filme, o que a gente tenta fazer é movimentar o personagem dentro desse desejo de encontro com a diversidade. Ele se nutre disso. Ele não é um personagem com uma constituição tradicional. Muito pelo contrário, ele vai se dando a partir dos encontros que vai vivendo. Quanto mais diversos esses encontros, mais plural e interessante fica a vida dele. Muito mais do que um discurso político de representar – e aqui eu digo que não quero representar o povo brasileiro, não quero representar a diversidade brasileira - , eu quero achar pessoas e corpos interessantes para que esse meu personagem consiga transitar por diferentes universos. Agora, óbvio que quando nós vamos fazer o casting e montar o elenco, partimos muito mais de uma observação do que o país é do que do desejo de trabalhar com estrelas, de querer trabalhar com atores e atrizes conhecidos."

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Nova geração, novas preocupações

"Quando comecei a ver filmes brasileiros ali no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando eu era mais jovem, achava engraçado porque via os atores globais interpretando nordestinos nas zonas de meretrício de Recife e Salvador. Quando os filmes terminavam, os diretores faziam clipes de rostos de pessoas locais. Tem isso no Cidade Baixa [2005, de Sérgio Machado], tem isso no Amarelo Manga [2002, Cláudio Assis], tem isso no Diários de Motocicleta [2004, de Walter Salles]. Isso pra mim era uma coisa bastante esquisita. E eu sempre me perguntava: "Mas por que esses rostos que estão sendo fotografados no final do filme não estão no filme?". Acredito que a minha geração problematizou um pouco isso. E a gente está buscando atores que tenham outro tipo de beleza."

O que interessa ao cineasta

"De onde eu olho o mundo, de onde eu olho as coisas, me interessa discutir o corpo, me interessa discutir a homossexualidade, me interessa, inclusive, discutir as possibilidades de borrar as identidades e aproximar pessoas muito diferentes. Acredito que uma coisa que está em todos os meus filmes é essa tentativa de borrar as identidades dos personagens do mundo para a gente perceber pontos de conexão e desconexão, pontos de encontro e pontos de desamparo."

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Um olhar para além da hegemonia do amor romântico

"Se você para pensar nos hippies, a experiência das relações ia pelo mesmo caminho em plena década de 1960. Existe também o próprio Walt Whitman e a como ele viveu a vida dele, circulando entre os marinheiros, homens do porto e mulheres – isso no século 19. Acredito que a forma de viver o amor que está no filme não é fruto do nosso tempo. Porque existe realmente um conceito de hegemonia do amor romântico na literatura, na música, no teatro e no cinema - e outras formas de amor que são pouco discutidas. Posso citar também o filme Cabaret (1972), que de certa forma já discutia esse tipo de amorosidade, essa questão das relações não românticas no amor. O que a gente fez nesse filme foi um processo dramatúrgico de retirar a relação entre amor e ciúme, e a relação entre amor e propriedade."

A participação de MC Linn da Quebrada

"Eu conheço a Linn há bastante tempo, desde quando ela performava em festas, no início da transição dela, inclusive. Quando eu a chamei para fazer o filme, era Linn Santos ainda, não era Linn da Quebrada. Ela começou a escrever os funks na época em que a gente estava ensaiando. Ela levava para os ensaios e a gente ouvia. Todo mundo adorava o que ela estava escrevendo e a incentivava. Um dia, eu e ela conversamos e decidimos criar uma cena a partir de um dos funks que eu achava que narrativamente seria importante para dizer alguma coisa do personagem, sobre o desejo dele. Dois, três meses depois, ela lançou o clipe de Enviadescer. E foi uma construção nesse ano que passou, ela foi ficando cada vez mais popular, mas quando a gente começou a trabalhar não existia nem essa possibilidade dela ser funkeira."

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Expectativas sobre a crise política e o futuro do cinema brasileiro

"Vou te falar uma coisa bem honesta: eu não leio jornal. Eu sou absolutamente fora do planeta. E gosto de ler livros do século 19 [risos]. Mas eu converso muito com os cineastas com quem trabalho, converso com as pessoas próximas sobre essas questões. Tenho minhas posições políticas. E acho que atualmente a gente tem um governo pavoroso. Ainda estou esperando aparecer propostas culturais realmente criativas e interessantes. Óbvio que a gente fica temeroso. Não só pela possibilidade de descontinuidade das políticas públicas, mas também por uma questão que mais me preocupa que é uma certa perseguição política aos artistas. E essa perseguição parte não só de gestores públicos, mas especialmente por parte do público. Pessoas, por exemplo, que passaram a vida ouvindo Chico Buarque e que, por uma postura política se voltam contra ele. Não é nem uma postura política, é uma postura partidária. Eu acho que é um momento de conflito, sim. Acho que é um momentos bastante tumultuado. Acredito que essas pessoas querem impor o medo, porque aí fica mais fácil a manipulação. Só que acho que não podemos ter medo, não. mos vai ter muito provavelmente o primeiro dinheiro do filme vindo do Brasil, mas é bom já costurar outras parcerias fora porque, como falei, o cenário é bem instável." continuar fazendo filmes. O digital está aí. A gente tem como captar recursos fora. O meu próximo longa já tem um investimento holandês. Então não sinto a possibilidade de me calarem. Mas percebi nos processos de distribuição alguns indicativos de perseguição política a mim. Perseguição motivada talvez pelas relações que eu tenho, pelos filmes em que trabalhei ou mesmo por eu ser uma pessoa gay. Mas eu não tenho medo, não."

O que vem por aí

"A gente está escrevendo o roteiro agora [de um novo projeto ainda sem título]. Ganhamos o fundo holandês Hubert Bals, que de certa forma deu início ao Tatuagem, Boi Neon e o Som ao Redor. Eles [responsáveis pelo fundo holandês] concedem um valor em dinheiro para a criação do roteiro. E agora selecionaram a gente para conhecer as produtoras holandesas. Estou indo em setembro para um evento do mercado de cinema holandês. Vou apresentar o projeto para produtores de lá para ver se a gente continua com essa parceria com a Holanda. Vamos ter muito provavelmente o primeiro dinheiro do filme vindo do Brasil, mas é bom já costurar outras parcerias fora porque, como falei, o cenário é bem instável."

Assista ao trailer de Corpo Elétrico: