MULHERES

O sexismo na indústria da tecnologia não tem nada de sutil

Ellen Pao fala sobre sua passagem por um fundo de investimentos de risco de prestígio. Foi aterrorizante.

25/08/2017 12:24 -03 | Atualizado 25/08/2017 12:24 -03
Bloomberg via Getty Images
Ellen Pao, sócia do Kapor Capital e ex-investidora do Kleiner Perkins Caulfield, fala em San Francisco, em 20 de abril de 2017.

O sexismo na indústria da tecnologia é real, difundido e extremamente malicioso, como deixa claro um trecho do livro que será lançado por Ellen Pao. A história de Pao é uma réplica poderosa a pessoas como James Damore, o engenheiro demitido do Google por causa de um manifesto sexista circulado na empresa.

Pao era uma sócia-júnior no fundo de investimentos de risco Kleiner Perkins, no Vale do Silício, e processou a empresa por assédio sexual e discriminação em 2015. No trecho, publicado esta semana no site The Cut, ela fala sobre sua experiência. É aterrorizante.

Em uma cena, Pao está num jatinho privado com um CEO e investidor da área, cujo nome não é revelado, além de dois sócios-diretores da sua firma. O assunto da conversa entre esses homens da elite? Pornografia.

"O CEO ... começou a se gabar de ter conhecido Jenna Jameson, falando da carreira dela como a maior estrela pornô do mundo", escreve Pao. Perguntam se ela conhece o trabalho de Jameson. Ela diz que não. Os homens falam também de suas preferências em relação a prostitutas, e o colega de Pao diz que prefere as brancas do Leste Europeu.

A ironia final: o grupo então passa a falar de trabalho – uma discussão sobre a busca de uma mulher para o conselho de administração da empresa do CEO, composto somente por homens. Quando Pao sugere Marissa Mayer, então CEO do Yahoo!, o CEO responde: "Não, muito polêmica". E acrescenta: "Mas eu deixaria ela entrar no conselho porque é gostosa".

Esses homens são parte da elite da elite da indústria da tecnologia. O Kleiner Perkins foi um dos primeiros investidores da Amazon e do Google, entre outras empresas de sucesso. A conversa deixa claro que o mundo deles é dos homens. Pao também relata ocasiões em que homens levaram o crédito por suas ideias e outras em que colegas homens nem sequer dividiram seus cookies com funcionárias mulheres.

O sexismo revelado no trecho do livro de Pao basicamente destroi os argumentos de Damore. O engenheiro criou polêmica sobre mulheres no setor de tecnologia depois do vazamento do seu memorando de dez páginas. No texto, que foi defendido por alguns conservadores, Damore argumenta que as mulheres não ocupam mais espaço no setor de tecnologia por causa de diferenças biológicas em relação aos homens.

Ele menciona a palavra "sexismo" apenas duas vezes. Uma vez para admitir, sem vontade, a existência do problema, e outra para afirmar que as pessoas deveriam parar de associar sexismo com diferenças de salários entre homens e mulheres.

Mas a história de Pao deixa claro que o sexismo é uma das maiores razões – se não a única – para o reduzido número de mulheres na indústria. Elas não são acolhidas como iguais e têm de trabalhar num ambiente em que há sexismo explícito e hostil.

Não há como conversar sobre o assunto sem enfrentar essa questão de frente. E, graças ao processo de Pao, isso vem acontecendo há alguns anos.

Apesar de ter perdido a ação que moveu contra o Kleiner Perkins, Pao abriu a porteira. Desde 2015, as mulheres vêm se manifestando cada vez mais em público sobre o assédio e a discriminação no setor.

"Alguns repórteres chegaram a criar um nome para o fenômeno de mulheres ou minorias falando ou processando [empresas]", escreve Pao. "Eles o chamam de 'efeito Pao'."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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