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O naufrágio no Pará e o risco das travessias em barcos superlotados em rios do Norte

Um barco clandestino naufragou no rio Xingu e o número de vítimas já passa dos 20.

24/08/2017 15:38 -03 | Atualizado 24/08/2017 15:38 -03
Reprodução/TV Globo
O barco Capitão Ribeiro transportava clandestinamente passageiros no rio Xingu.

Já passa de 20 o número de mortes confirmadas no naufrágio de um barco que transportava pelo menos 48 pessoas no rio Xingu, no Pará. O acidente ocorreu na noite da última terça-feira (22), enquanto o barco Capitão Ribeiro transportava os passageiros em uma região conhecida como Ponta Grande, localizada entre os municípios de Senador José Porfírio e Porto de Moz.

Após ter saído de Santarém na noite da última segunda (21), a embarcação teria feito duas paradas antes do destino final em Vitória do Xingu. O naufrágio aconteceu após o barco já ter percorrido cerca de 350 km da viagem.

A polícia de Porto Moz recolheu relatos de sobreviventes e dos tripulantes da embarcação. As narrativas indicam que o barco teria sido atingido por uma tromba d'água. O fenômeno metereológico é similar a um tornado quando é formado sobre uma superfície líquida, agrega umidade e se desloca em direção ao continente.

"A tripulação disse ter visto, no horizonte, algo com o formato de um funil, acompanhado de muita chuva e vento forte, e que teria pego o barco pela popa e o afundado. De acordo com os relatos a embarcação girou e afundou em seguida", informou o delegado Elcio de Deus, de Porto de Moz.

Segundo a Agência Estadual de Regulação e Controle de Serviços Públicos (Arcon-PA), a embarcação Comandante Ribeiro não estava legalizada junto ao órgão. O transporte dos passageiros era clandestino.

Insegurança

De acordo com a moradora de Belém Kamila Brito, ouvida pelo HuffPost Brasil, as travessias em barcos superlotados e clandestinos são comuns na região, principalmente em comunidades mais distantes de centros como a capital. De carro, a cidade de Senador José Porfírio fica a mais de 800 quilômetros de distância de Belém.

Segundo a publicação local Diário do Pará, 75% dos barcos que navegam os rios do Pará são clandestinos: para cada embarcação inscrita junto à Capitania, existem pelo menos 3 que navegam sem qualquer tipo de autorização. Para a Capitania dos Portos da Amazônia Oriental, a questão da clandestinidade é um fator de relevância em acidentes nos percursos. O órgão é responsável pena inspeção.

A reportagem procurou o Comando do 4º Distrito Naval da Marinha do Brasil, responsável pelas regiões do Pará, Piauí e Maranhão. Até a publicação deste texto, a resposta da Marinha não havia chegado.

Investigação

O Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil do Pará coordenam as ações de busca, salvamento e atendimento social da sede da Câmara Municipal de Porto de Moz, onde foi instalado um gabinete de crise com a presença das forças de segurança estaduais, Executivo municipal e demais órgãos envolvidos na operação de resgate das vítimas do naufrágio.

O dono da embarcação também já foi ouvido. Ele informou que 48 pessoas, entre tripulação e passageiros, estavam a bordo, e não 70, como havia sido divulgado pela mídia.

De acordo com a Defesa Civil, 23 pessoas foram resgatadas com vida e sete permanecem desaparecidas e estão sendo procuradas pelos parentes.

Tempestade

De acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), foi detectado o deslocamento de nuvens saindo de Altamira em direção a Porto de Moz no início da noite da última terça.

Para o coordenador do instituto José Raimundo Abreu e Souza, foram percebidas a presença das nuvens de tipo cúmulo-nimbo, conhecidas por causar tempestades.

"As nuvens cúmulo-nimbo causam chuvas severas e nada uniformes, com ventos que chegam a atingir 80 km/h", explicou o coordenador em entrevista à Folha.

Outros Acidentes

Há 20 dias, outro acidente ocorreu no rio Amazonas, também no Pará. Nove vítimas ainda estão desaparecidas.

Na região Norte, há diversas ONGs que trabalham para ajudar as mulheres escalpeladas. As vítimas de acidentes com barcos motorizados que fazem as travessias nos rios da região acabam por ter seus cabelos arrancados do couro cabeludo. Essas organizações recebem doação de fios para a construção de perucas que servirão como ferramenta de autoestima para as mulheres.

(Com informações da Agência Brasil)

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