ENTRETENIMENTO

3 perguntas cruciais para entender ‘O Castelo de Vidro’, novo filme de Brie Larson

Pobreza e imaginação, afeto e negligência, triunfo e vergonha — história baseada em fatos fala sobre relacionamento com o passado.

23/08/2017 20:13 -03 | Atualizado 23/08/2017 20:13 -03
Reprodução
Brie Larson é Jeannette Walls em filme de Destin Daniel Cretton.

De dentro de um táxi em Nova York à noite, a jornalista Jeannette Walls viu uma mulher fuçando o lixo em uma rua escura. Jeannette desviou o olhar e, diante do carro, viu um homem, possivelmente embriagado, dizendo grosserias para o taxista. Jeannette fingiu que não o percebeu também. O táxi seguiu viagem. Ambos eram os pais de Jeannette.

Ver esta cena no filme O Castelo de Vidro (The Glass Castle, 2017), que chega aos cinemas nesta quinta-feira (24), é de partir o coração — e também diz muito a respeito da questão central da personagem vivida por Brie Larson (vencedora do Oscar por O Quarto de Jack).

Baseado no livro de memórias homônimo de Jeannette Walls, o filme aborda a complicada trajetória da autora, que cresceu em condições de extrema pobreza com mais três irmãos e se tornou uma famosa jornalista em Nova York.

O Castelo de Vidro tem uma incisiva história de interesse humano — bastante necessária em tempos atuais, em que o outro é tratado com intolerância — e mostra como é importante pensar nossa relação com o passado.

Há três perguntas que nos ajudam a entender o longa-metragem dirigido por Destin Daniel Cretton (Temporário 12, também com Larson como protagonista) como um espelho para nós mesmos.

1. De onde você veio?

Os pais de Jeannette, o culto e inteligente Rex (Woody Harrelson) e a excêntrica artista Rose Mary (Naomi Watts), educaram os filhos de maneira nem um pouco tradicional, levando-os para conhecer a natureza in loco em vez de confiar à escola a tarefa de ensinar sobre ela, por exemplo. Ambos estimularam as crianças a se tornarem adultos autônomos e criativos, sempre com livros à mão, e o conseguiram.

Por outro lado, Rex era alcoólatra e, assim como Rose Mary, não queria saber de ter um emprego fixo. Os dois eram egoístas, desequilibrados e mal se davam ao trabalho de providenciar alimentação e moradia decente nas várias cidades em que moraram com os filhos.

"Muitas pessoas não viveram as situações extremas que ela [Jeannette] viveu, mas todo mundo tem sua própria m... na vida, e muitos de nós apenas a esconde", disse Daniel Destin Cretton em entrevista à Entertainment Weekly.

"Acho que há uma solidão que vem com isso. Ler o livro me fez pensar 'Eu também tenho meus pesares, e isso não me torna esquisito'. Esse sentimento de solidão meio que vai embora durante a leitura e espero que aconteça o mesmo com as pessoas que virem o filme."

Aí está o legado contraditório do passado de Jeannette. Antes de aceitá-lo pelo que é e como parte de quem ela é, a escritora mentia para conhecidos, pois acreditava que todos deixariam de falar com ela e perderia o emprego se soubessem de sua origem.

2. Por que você está aqui?

A escritora e os irmãos precisaram trabalhar desde a adolescência para juntar dinheiro e deixar os pais, pois entenderam que, se dependesse dos dois, nada mudaria. Todos vão para Nova York, onde Jeannette faz faculdade, torna-se independente e tem grande sucesso profissional.

No ápice da carreira, com uma coluna de fofoca na prestigiada New York Magazine, e noiva do analista financeiro yuppie David (Max Greenfield), Rex confronta Jeannette: Afinal de contas, quais são os valores dessas pessoas da cidade grande que não a aceitariam por ter sido pobre? A partir daí, Jeannette inicia um delicado processo de reflexão sobre sua origem e suas escolhas. E o passado literalmente a segue para NY: Rex e Rose Mary também se mudam para a cidade, onde se tornam ocupantes de um prédio abandonado.

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A família chega à cidadezinha de Welch — um cafundó muito parecido com uma prisão.

"Esse filme lida com reflexão e memória, e como em nossa infância temos um jeito bastante simplista de ver as coisas", disse Larson à EW.

"Conforme envelhecemos, somos capazes de ver mais complexidade nisso e o quão maravilhoso e importante é aceitar por onde nós passamos, em vez de sentir vergonha ou constrangimento."

3. Para onde você vai?

Independente de onde ou com quem Jeannette estiver, não há como apagar algumas cicatrizes. Seja nas memórias felizes ou terríveis da infância — como quando ela quase se afogou ao ser atirada em uma piscina pelo pai, que queria ensiná-la a nadar, ou sofre queimaduras terríveis no corpo ao preparar o almoço que a mãe se recusou a fazer —, tudo isso faz parte de uma coisa só. E é isso que está marcado a ferro dentro de Jeannette.

A escritora se recorda que, na infância, o pai prometeu a ela que construiria um castelo de vidro para a família morar. Ele próprio desenhou a planta e definiu quais materiais seriam usados na construção. A promessa, é claro, não foi cumprida, mas a ideia permanece como símbolo de uma vida que tanto a fortaleceu quanto traumatizou — o ponto de vista pode definir tudo.

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Naomi Watts (à esq.) vive a pintora Rose Mary. Ela prefere se dedicar a arte em vez de cuidar dos filhos famintos.

"Muita gente me pergunta 'Como você pode perdoar sua mãe pela maneira que você foi criada?'", disse Jeannette em entrevista ao New York Times em 2013. "Na verdade não é sobre perdão, na minha opinião. É aceitação. Ela nunca será o tipo de mãe que quer cuidar de mim."

"Todos nós temos nossa bagagem e eu acho que o truque não é resistir a ela, mas aceitá-la, entendendo que a pior experiência tem um presente valioso embrulhado por dentro, se você estiver disposto a recebê-lo."

O Castelo de Vidro tem duração de 127 minutos, classificação indicativa 14 anos e distribuição da Paris Filmes.

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