COMPORTAMENTO

Isso é tão ‘Black Mirror’: A renúncia à privacidade como premissa para se conectar

Fatos, mitos e medos de uma época em que a informação é dada de bandeja e o sentimento é de paranoia.

20/08/2017 17:08 -03 | Atualizado 21/08/2017 18:04 -03
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Princípio básico para alguns, moeda de troca para outros, a privacidade é percebida como um bem valorizado na vida contemporânea.

Algumas cenas modernas:

1. Uma conversa com os amigos, ao vivo. Os celulares estão ali do lado, mas sem uso naquele momento. Você diz o quanto gostaria de conhecer o Canadá. Pouco tempo depois, aparece um anúncio na sua rede social sugerindo pacotes econômicos de viagem... para Toronto, Vancouver ou Ottawa.

2. Você nunca viu, passou do lado, esteve por perto. Mas sabe direitinho os hábitos alimentares do filhote de chihuahua daquela influenciadora digital.

3. O norte-americano Jack Vale aborda pessoas desconhecidas na rua e as surpreende por ter informações de suas vidas. Sabe seus nomes, os nomes de seus amigos, até mesmo a data do aniversário. Vale nem é espião – é um comediante que observa as postagens públicas do Instagram feitas perto de onde ele está.

Princípio básico para alguns, moeda de troca para outros, a privacidade é percebida como um bem valorizado na vida contemporânea. Seja por aqueles que querem preservá-la como por quem abre mão dela, que pode virar uma informação comercial lucrativa, uma proposta de trabalho, uma legião de fãs, um séquito de simpatizantes ou, simplesmente, uma resistência à exposição da vida particular.

As redes sociais têm sido usadas como "cartas abertas" para uma série de temas, desde maternidade, feminismo, preferências políticas ou relacionamentos amorosos até reclamações e denúncias. Ao mesmo tempo, anônimos se tornam influenciadores digitais ao compartilhar suas vidas na internet. Comentários dão o tom das trocas entre mensageiros e leitores. Há mais voyeurismo e exibicionismo hoje do que quando não estávamos online?

Certamente a rede aumenta a possibilidade de ver e ser visto ao permitir que o outro acesse suas imagens e vice-versa, explica ao HuffPost Brasil o psicanalista e mestre em Psicologia Social pela USP Daniel Lírio:

"As pessoas geralmente se importam bastante com a imagem que apresentam de si mesmas, pois a constituição de cada sujeito é formatada pelo olhar do outro. Para algumas pessoas, ver e ser vista constitui um circuito de prazer importante; mas esse circuito se estabelece na infância, quando a maioria de nós ainda não usava a internet. Agora, será que crianças imersas em meios digitais serão adultos mais voyeristas e exibicionistas? Essa é uma questão para acompanharmos."

Nos tempos tecnológicos nos quais vivemos, a privacidade é uma preocupação cada vez mais em pauta. Mas nem sempre foi assim. Esta ideia não é inerente ao ser humano; ela surgiu no século 19, com a ascensão da burguesia e o romantismo. Foi quando começou o cultivo do mundo interior e individual e surgiu, por exemplo, o diário para que se pudesse expressar as vivências apenas para si, contextualiza o psicanalista:

"Contudo, um diário que se preze deve vir com uma fechadura ou um cadeado, justamente para garantir a privacidade. Mas, se preciso trancar meu caderno, é porque imagino de antemão alguém que queira lê-lo e descobrir meus segredos. Ou seja, tudo o que faço tem como horizonte um outro, real ou fantasiado, a quem eu poderia magoar, alegrar, surpreender ou decepcionar. Então, a privacidade traz implícita a ideia desse outro e, num segundo momento, o meu prazer ou terror caso ele devasse minha privacidade."

Se por um lado os diários saem de cena, entram as postagens em redes sociais cujo alcance presume um certo controle – apenas para amigos, amigos de amigos ou para todo mundo. Mas o confinamento da informação apenas nos grupos selecionados é ilusório diante dos prints ou das telas exibidas em locais públicos, por exemplo.

Em paralelo, conversas registradas via rede social ou até mesmo presenciais padecem de um sentimento de "frouxa" confidencialidade. A segurança, de fato, é precária, adverte John McAfee, criador do antivírus McAfee, em entrevista ao G1. "Quando você desliga um smartphone, isso é apenas um interruptor do software. É uma operação realizada pelo software. Hackers podem interceptar isso, desligar as luzes, fazer a tela ficar preta para dar a impressão de que o celular foi desligado. Mas ele continua ligado, ouvindo você, vendo você. Os fabricantes de smartphones precisam desesperadamente colocar botões de liga e desliga também no hardware, como um interruptor de luz."

O desenvolvedor também ressalta os contratos dos aplicativos baixados no celular. Ao fazer o download, o usuário dá permissão para acesso ao email, aos contatos, ao Wi-Fi, ao Bluetooth, à sua localização, câmera e até mesmo ao microfone: "Por que você acha que esses aplicativos são gratuitos? Meu pai e minha mãe me disseram que não há nada grátis na vida. Esses apps fazem dinheiro espionando a gente e vendendo essa informação para terceiros." Difícil não ficar alarmado(a).

"Mas vale enfatizar que as empresas e o Estado não se importam com nossa privacidade: nossa orientação sexual, taras secretas, desejos, gostos obscuros ou a beleza de nossos filhos são completamente irrelevantes para eles", tranquiliza Lirio. Segundo ele, o que está em jogo são dados necessários para fazer funcionar algoritmos, informações sobre consumo ou, na pior das hipóteses, nosso comportamento político. "A questão do neurótico é que ele se acha muito importante e pensa que sua privacidade vale alguma coisa para os outros, o que, na grande maioria das vezes, não é verdade."

O filósofo e linguista italiano Umberto Eco, morto no ano passado, refletiu sobre a exposição no mundo digital no artigo Perda da Privacidade, publicado no ensaio Pape Satàn Aleppe: Crônicas de uma Sociedade Líquida (Editora Record, 2017). Ele retoma um texto do sociólogo polonês Zygmunt Bauman para criticar a perda de privacidade consentida:

"Pela primeira vez na história da humanidade, os espionados colaboram com os espiões, facilitando o trabalho destes últimos, e esta rendição é para eles um motivo de satisfação porque afinal são vistos por alguém enquanto levam a vida – e não importa se às vezes vivam como criminosos ou como imbecis."

Com a incontrolável circulação de dados até então reservados para algumas pessoas em particular, cresce um clima de ameaça relacionado ao modo com que nos comunicamos. O seriado Black Mirror e, antes dele, o livro 1984, de George Orwell (Companhia das Letras), nos aterrorizaram com exemplos de vida íntima ameaçada por uma frequente vigilância. O sentimento de paranoia paira sobre muitos hoje. Lirio explica que temos um traço paranoico porque nos constituímos com base no olhar do outro sobre nós. Ao longo do desenvolvimento infantil, a prevalência desse outro evolui para a intuição de que há algo ou alguém que nos observa, avalia, julga, pune ou recompensa. Mas, de fato, podem surgir na sociedade elementos que alimentam esse sentimento paranóico.

"Atualmente, há o receio, bem fundamentado, de que alguém usurpe nossos dados bancários. Mas quando isso extrapola para algo mais difuso, de alguém saber meus hábitos de consumo, meus gostos pessoais e me manipular ou dominar com isso, aí há uma certa paranoia. Mas ela sempre existiu: em uma sociedade muito religiosa, Deus ocupa esse lugar de quem observa e pune; na época da Guerra Fria, existiam espiões e conspirações secretas, de modo que qualquer pessoa era potencialmente um inimigo. Acabou a guerra, mas entrávamos em uma loja ou no elevador e víamos a placa 'sorria, você está sendo filmado'. Atualmente essa placa é desnecessária porque já introjetamos o fato de que podemos ser observados a qualquer momento."

A sensação, portanto, é de que a busca por privacidade seja um ideal quixotesco. Mas Lirio faz uma ponderação nada fantasiosa: a vida não transcorre apenas no digital.

"Quando escolho uma pessoa especial para compartilhar minha privacidade, há uma experiência de intimidade e cumplicidade. Felizmente, os espaços digitais não recobrem a totalidade da experiência humana, então as pessoas podem se resguardar, se quiserem."

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