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Por que Las Ramblas não é qualquer lugar de Barcelona

Ela liga a Praça Catalunha ao porto velho e ocupa um lugar especial no coração da cidade. 

18/08/2017 12:38 -03 | Atualizado 18/08/2017 13:13 -03
Albert Gea / Reuters
A área de Las Ramblas guarda resquícios de uma cidade orgulhosa de sua cultura, sua arquitetura, sua língua e seu modo de vida, tão incrivelmente interessante quanto coisas materiais.

Apesar da riqueza de Barcelona - com suas praias lotadas, as principais casas noturnas da Espanha (atrás de Ibiza, claro) e seu time todo-poderoso -, a cidade não é uma ostentação de luxo. Pelo contrário, suas ruas e construções parecem gritar resistência.

Guardam resquícios de uma cidade orgulhosa de sua cultura, sua arquitetura, sua língua e seu modo de vida, tão incrivelmente interessante quanto coisas materiais. Las ramblas, principal avenida de Barcelona, consegue materializar essa riqueza imaterial do modus vivendi catalão.

É o lugar em que, historicamente, a cidade celebrava os triunfos do Barça, se manifestava ou deixava fluir suas paixões. Em outros tempos, abrigou burgueses que iam à Opera do Liceu com marinheiros estadunidenses, as prostitutas, as floristas, os vendedores de pássaros e os comerciantes.

Justamente por isso, a escolha das Ramblas para o ataque terrorista desta quinta-feira (17) é emblemática.

A avenida é sinal de tempos de paz e fortaleza. No século XIX, Barcelona destruiu o muro que limitava seu crescimento e construiu uma grande avenida para unir a parte alta da cidade ao mar, nascendo las Ramblas. Elas ligam a Praça Catalunha ao porto velho e ocupam um lugar especial no coração da cidade.

Tanto que deu origem a um verbo barcelonês: ramblear, que significa sair para uma caminhada.

As Ramblas atravessaram o coração da cidade e, ao seu redor, estão a sede dos poderes políticos, o governo catalão e o de barcelona; do poder espiritual, com a catedral e a grande igreja de Santa María do Mar; e o poder econômico, com as sedes da Caixa ou a medieval Llotja del Mar, no final da avenida, tocando o mar, onde se fechavam os detalhes das expedições comerciais mediterrâneas da Coroa de Aragão.

Elas estão dividias em cinco partes. Começam em sua parte alta, que se chamava 'la Rambla de Canaletas', onde está a fonte de Canaletas, do século XIX. Quem dela bebe volta a Barcelona, explica a prefeitura da cidade.

A próxima parte era a Rambla dos Estudos, porque recebeu uma das primeiras universidades de Barcelona e que recebia também o palácio da vice-rainha, um presente do vice-rei do Peru a sua segunda esposa.

Seguia a Rambla das Flores, por seus postos de floristas; a dos Capuchinos, com o mítico Mercado da Boquería e o Liceu; e acabava na da Santa Mônica, desembocando ao mar ali onde fica a grande estátua de Cristóvão Colombo apontando para a América.

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A cultura da rua é muito forte na cidade. Artistas de todo o mundo vão para tocar, encenar e divertir com seus instrumentos e pés no chão da rua. A cidade é viva!

Todos que a visitam admiram sua disposição, suas flores, a alegria e a vida que a invadem. Ali, andando pela rua a conversar e sorrir em catalão ou espanhol, a comer, comentar sobre o jogo, desfrutar a maresia e ser resiliente frente a forte crise que assola o país, ali e assim é que se expressam a "catalunidade" tão pura e, por isso, tão encantadora.

E foi com isso que os terroristas queriam acabar. Mas desde o minuto zero, os barceloneses mostraram que não. A onda de solidariedade que invadiu a cidade após o atentado revelou que a magia e a alegria de Barcelona continuarão. E que a avenida Las Ramblas seguirá sendo seu estandarte.

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