MULHERES

O que o ‘manifesto’ sobre gêneros do Google realmente diz sobre o Vale do Silício

Até mesmo as gigantes do setor de tecnologia incentivam um ambiente de heteronormatividade e privilégio masculino.

21/08/2017 11:23 -03 | Atualizado 21/08/2017 11:26 -03
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"Achei que minha fala pudesse ajudar a mudar as ideias das pessoas a respeito das mulheres na história da computação".

Por Marie Hicks

Há cinco anos, uma onda de mau comportamento por parte dos "programanos" chacoalhou o Vale do Silício: fundadores de empresas cheias de dinheiro de investidores -- sempre privilegiados e, na maioria, homens brancos – fizeram coisas juvenis, erradas ou simplesmente estúpidas. A maioria dessas coisas – tais como incluir uma foto pornográfica numa apresentação de Power Point – tinha a ver com o assédio ou a desvalorização das mulheres, além da ideia de que o privilégio dos homens heterossexuais poderia ou deveria definir o ambiente de trabalho. O recente escândalo do "memorando" escrito por um funcionário do Google mostra como ainda temos um longo caminho a trilhar.

É possível que as empresas mais bem-sucedidas e estabelecidas não forcem os candidatos a emprego a lidar com "fotos de biquíni" ou "entrevistas gangbang". Mas até mesmo as gigantes do setor de tecnologia incentivam um ambiente em que a heteronormatividade e o privilégio masculino são tão dominantes que um programador possa sentir-se à vontade em escrever e distribuir uma diatribe que na prática assediou todas as suas colegas de trabalho.

É uma pena, porque as empresas de tecnologia dizem querer mudar essa cultura. Neste verão, fiz uma palestra no Google do Reino Unido sobre meu trabalho como historiadora dos gêneros na tecnologia. Achei que minha fala pudesse ajudar a mudar as ideias das pessoas a respeito das mulheres na história da computação, talvez até mesmo ajudar mulheres e pessoas não-binárias que trabalham na empresa. Ainda assim, a ironia era inevitável: estava visitando uma empresa de tecnologia multibilionária para falar sobre a subvalorização das mulheres – de graça.

Enfrentando medos comuns

Fui ao Google do Reino Unido com trepidação. Falaria do tema do meu novo livro, "Programmed Inequality" (desigualdade programada, em tradução livre), que trata de como as mulheres foram excluídas do setor no Reino Unido. Dos anos 1940 até o começo dos 1960, a maioria das pessoas que trabalhavam com computação eram mulheres, mas nas duas décadas seguintes os números caíram – a discriminação intencional e estruturada essencialmente as tirou do jogo. E as vítimas não foram só as mulheres – a nascente e promissora indústria da computação britânica também sofreu.

Na pior das hipóteses, imaginei que minha palestra terminaria com uma sessão de perguntas, durante a qual me perguntariam justamente sobre os pontos do manifesto. Já tinha acontecido antes – e não só comigo -, então tenho anos de prática em lidar com críticos e públicos difíceis, tanto na sala de aula quanto fora dela.

Como resultado dessa experiência, sei lidar com situações assim. Mas ser incompreendida é mais que desanimador. Senti na pele o dano que o fenômeno conhecido como "ameaça do estereótipo" pode causar nas mulheres: ser considerada inferior pode fazer a pessoas não só sentir-se inferior, mas na prática fazer coisas subconscientemente que confirmam esse suposto menor valor. Um exemplo: estudantes do sexo feminino têm desempenho mensuravelmente pior em provas de matemática depois de ler artigos que sugerem que a matéria não é para elas. (Um fenômeno relacionado, a síndrome do impostor, é muito comum na academia.)

Uma reação surpreendente

Para minha surpresa, o público conhecia e estava interessado no meu trabalho. Fiquei impressionada e feliz com a qualidade das perguntas que me fizeram. Mas uma das questões se destacou. Parecia o exemplo perfeito de por que a cultura do setor de tecnologia é tão problemático hoje, a ponto de destruir ou no mínimo atrapalhar significativamente seu celeiro de talentos, impingindo-lhe a ameaça do estereótipo.

Uma engenheira do Google me perguntou se eu achava que as diferenças biológicas das mulheres representavam menos probabilidade de que elas fossem boas engenheiras. Respondi que não, afirmando com firmeza que já se provou várias vezes que esse tipo de psicologia evolutiva pseudocientífica está errada, e que o determinismo biológico era uma arma perigosa, usada para privas negros, mulheres e vários outros de seus direitos civis – e até mesmo de suas vidas – durante séculos.

A autora da pergunta disse sentir-se diferente da média, porque achava ter menos inteligência emocional e mais inteligência intelectual que a maioria das outras mulheres, e isso significava que ela tinha desempenho melhor em seu trabalho. Ela se perguntava se a maioria das mulheres estava destinada ao fracasso. Ela falou com a incerteza de alguém que ouviu inúmeras vezes que mulheres "normais" não deveriam fazer o que ela faz, ou ser quem ela é.

Tentei empatizar com ela e responder de forma firme, mas sem desprezar a pergunta. A discriminação estrutural funciona assim: ela é insidiosa. Mal temos consciência de sua existência. Se não formos vigilantes – se não tivermos as ferramentas necessárias para isso, a coragem de falar e a capacidade de entender quando ela nos é explicada --, ela pode nos transformar em versões piores de nós mesmos. Podemos nos tornar as versões que os estereótipos negativos esperam. Mas o maior problema é que isso não acaba no nível do indivíduo.

Um problema de estrutura

Esses equívocos penetram todos os aspectos das nossas instituições, que, por sua vez, os nutrem e os propagam (muitas vezes sem perceber). Foi o que aconteceu quando surgiu o manifesto do Google – e o frenesi de mídia que veio em sua esteira.

Que o manifesto tenha sido considerado uma opinião potencialmente interessante ou ilustrativa diz algo não só sobre o Vale do Silício, mas também sobre o momento político que vivemos. A mídia também é cúmplice: parte da imprensa considerou o texto digno de nota só por ser chocante. Outros, em vez de caracterizar a diatribe como exemplo da misoginia do autor, da sua falta de compreensão história e, de fato – como observaram alguns profissionais do setor --, da falta de compreensão do que é ser engenheiro, lidaram com o documento como se ele fosse uma reflexão digna de consideração e discussão.

Os muitos que disseram abertamente que o texto não era nada disso merecem elogios. Mas o fato de que elas tiveram de gastar tempo com isso mostra os danos que a misoginia e o sexismo casual e irrefletido causam em todos os aspectos da nossa sociedade e economia.

A resposta corporativa

O Google, de sua parte, demitiu o autor do manifesto, uma decisão esperada tendo em vista as notícias negativas que ele gerou para a empresa. Mas, na mesma semana em que fiz minha palestra, o Google também se recusou a cumprir uma ordem do Departamento de Justiça dos Estados Unidos que determinava que a companhia fornecesse estatísticas sobre os salários das funcionárias mulheres, em comparação com os salários dos homens. A empresa afirma que compilar esses dados custaria 100 000 dólares. O preço seria alto demais para uma empresa multibilionária.

A empresa não vai gastar quase nada – especialmente em relação com seu faturamento – para corrigir as diferenças gritantes dos salários de homens e mulheres. Dá para ficar surpreso quando alguns de seus funcionários – tanto homens quanto mulheres – consideram as contribuições das mulheres, e as própria identidade feminina, como algo de menos valor inerente ou inadequado para a tecnologia? Ou que muita gente acredite nisso, apesar de si mesmos?

As pessoas observam as dicas das nossas instituições. Nossos governos, empresas, universidades, veículos de imprensa moldam nossa compreensão e nossas expectativas a respeito de nós mesmos e maneira só entendemos parcialmente sem auto-reflexão intensa e prolongada. Para o Reino Unido, no século 20, essa conscientização institucional e coletiva veio tarde demais para salvar o setor de tecnologia. Esperemos que os Estados Unidos do século 21 aprendam algo com a história. Numa época em que tecnologia e governança estão cada vez mais convergindo para definir quem somos como nação, estamos atravessando um momento que é uma perfeita – mas aterrorizante – lição.

The Conversation

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