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O mito sobre racismo que não deveria enganar os brancos progressistas

Não é só um problema do Sul ou do Meio-Oeste.

18/08/2017 11:48 -03 | Atualizado 18/08/2017 11:48 -03
Neonazistas, alt-right e supremacistas brancos gritam contra de manifestantes antifascistas na base da estátua de Thomas Jefferson depois de passeata pelo campus da Universidade da Virgínia, em Charlottesville, 11 de agosto de 2017.
Anadolu Agency via Getty Images

Depois da eleição, falou-se muito em "bolhas liberais", a ideia segundo a qual aqueles que moram nas costas Leste e Oeste dos Estados Unidos levam vidas muito distantes dos integrantes da alt-right (direita alternativa) no Sul e no Meio-Oeste do país. Mas temos de ter em mente que há bolhas dentro das bolhas.

Muitos brancos reagiram ao protesto "Unir a Direita" com choque e surpresa, usando hashtags como #ThisIsNotUs (não somos assim). Para as pessoas de cor, o que aconteceu neste fim-de-semana foi desalentador – mas de maneira nenhuma surpreendente.

Para muitos de nós, não são necessárias demonstrações explícitas de supremacia branca para saber que ela faz parte do tecido deste país. Uma reunião de brancos raivosos carregando tochas é um ato violento em nada diferente – na verdade igual – do branco raivoso que proferiu insultos racistas e depois matou dois homens num trem em Portland, em maio.

Neste momento, há bandeiras confederadas exibidas orgulhosa e livremente em jardins e camisetas e pára-choques de carros por pessoas que vivem em cidades que ficam a poucas horas de Manhattan. Existem mais de 700 monumentos confederados nos Estados Unidos, inclusive Estados como em Massachusetts, Pensilvânia e Iowa.

Neste momento, crianças negras e brancas em cidades como Nova York, Boston, Chicago e Los Angeles vivem de fato segregadas, frequentam escolas segregadas e têm recursos financeiros, apoio e expectativas surpreendentemente diferentes para o futuro.

Neste momento, existem 917 grupos de ódio em operação nos Estados Unidos, incluindo grupos ativos de supremacia branca em Rhode Island, Massachusetts, Nova York, Pensilvânia, Connecticut e Califórnia.

O ódio que alimentou o protesto do fim de semana alimenta todas essas diferentes realidades do racismo no país.

(Sei que é difícil escutar isso, mas... A supremacia branca beneficia todos os brancos. Incluindo aqueles que não carregam tochas. É por isso que ela sobrevive.)

A armadilha em que nós (pessoas brancas especialmente) não devemos cair foi desenhada por nós mesmos: a sensação de complacência que diz que esse problema de racismo é apenas um sintoma encontrado no Sul, uma característica de somente certos "tipos" de pessoas. É conveniente quando você consegue pensar no racismo como algo próximo o suficiente para olhar com nojo, horror e soberba moral, mas longe demais para não se sentir responsável por isso.

É mais difícil quando você tem de reconhecer que a supremacia branca não está em um planeta distante chamado Sul, mas sim ao seu redor -- e que, embora não seja um supremacista branco, você se beneficia da supremacia branca.

Não se trata de um ataque pessoal. É a realidade.

Você se beneficia da supremacia branca em um contexto histórico, político e social. Você se beneficia evitando os estereótipos e as generalizações a que são submetidos as pessoas de cor, especialmente nas interações com a lei, no local de trabalho e na mídia. Você se beneficia do acesso a recursos educacionais e econômicos raramente à disposição das pessoas de cor. Você se beneficia de raramente ter de pensar em raça, porque "branco" há muito tempo é considerado o padrão na sociedade.

Como explicou Lauren Duca, jornalista da Teen Vogue, na segunda-feira: "Conseguir um emprego porque seu nome é Geoff não é o mesmo que entrar para a Ku Klux Klan, mas foi justamente esse privilégio que os supremacistas brancos estavam tentando reafirmar em Charlottesville".

Essas são coisas com as quais você tem de lidar, e pessoas de cor não deveriam explicá-las para você a esta altura. Para evitar lidar com a complexidade de sua cumplicidade, alguns partem para o ataque -- eles pegam tochas e marcham porque não querem ser "substituídos".

Mas é reconhecendo essa inconveniência que as coisas realmente podem começar a mudar. Os brancos que se consideram aliados devem lidar com o fato de que o que aconteceu na Universidade da Virgínia é apenas um dos lados do racismo multifacetado neste país.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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