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Do lego à robótica: Esta jovem quer ampliar o acesso de meninas à ciência

"Independente de afinidades ou de gênero, todo mundo tem o direito de testar o que quiser, de se ver em qualquer área."

17/08/2017 17:41 -03 | Atualizado 18/08/2017 16:36 -03
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Lorenna Vilas Boas que ampliar o acesso de meninas à ciência e tecnologia.

Em junho deste ano, Lorenna Vilas Boas preparou as malas e se juntou a outras representantes de cada país em Munique, na Alemanha. O motivo? Discutir quais são as mudanças necessárias para que o mercado de trabalha inclua cada vez mais as mulheres.

Aos 19 anos, a jovem baiana foi a delegada do Brasil na conferência G(irls)20. Criado em 2009, o encontro defende que a participação feminina na força de trabalho seja um dos elemento-chave das prioridades e ações do G20.

Enquanto os líderes mundiais discutiam o futuro das nações em uma sala, ao lado, meninas-mulheres produziam as suas próprias recomendações. E a de Lorenna já estava bem clara: possibilitar o acesso de meninas à ciência e tecnologia como ferramentas de empoderamento.

Ainda no ensino fundamental em Candeias (BA), Lorenna descobriu que era capaz de transformar a sua realidade se tivesse acesso às ferramentas certas.

Enquanto lá atrás os instrumentos eram peças do kit Lego para construir um projeto de mobilidade urbana, hoje, na faculdade de engenharia elétrica da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Lorenna quer desenvolver um aplicativo de tecnologia assistiva para ajudar pessoas cegas.

Ela faz parte dos 12,8% de jovens negros que tiveram acesso ao ensino superior. E a estatística é um lembrete diário para a jovem:

"Me sinto muito mal vendo a realidade que preciso enfrentar. Quando descobri que posso contribuir levando esse problema à tona, participando de programas como o G(irls)20, entendi que é uma oportunidade de dizer para o mundo a situação que a gente vive no Brasil. O País é de maioria negra, mas onde estão as mulheres negras? O meu projeto atual é desenvolver tecnologias voltadas para pessoas - o que a gente chama de engenharia pessoal", declarou em entrevista ao HuffPost Brasil.

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Representantes de diversos países em encontro do G (irls) 20.

Sem bolsa da universidade para continuar as pesquisas e com a pouca idade, Lorenna não desanima. Ela carrega um currículo de peso - venceu diferentes competições nacionais e internacionais, fundou a Equipe de Robótica do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA), representou o Brasil no Youth Ambassador Program da Embaixada dos Estados Unidos, foi uma das finalistas da Intel International Science and Engineering Fair (ISEF).

Em depoimento ao HuffPost Brasil, Lorenna Vilas Boas compartilhou parte de sua trajetória:

"Conheci o poder da tecnologia quando era bem pequena, tinha cerca de seis anos e estava na segunda série do ensino fundamental. Estudava em uma escola da rede SESI, em Candeias, no interior da Bahia.

Na escola conheci a robótica através dos kits de peças Lego. Os meus professores tinham muito interesse em incentivar os alunos através de projetos. Em um deles, comecei a pensar em soluções para os problemas da minha cidade, rolou um desafio, escolhemos um problema e tivemos que utilizar o kit para resolvê-lo.

Candeias é uma cidade que fica entre Salvador e o polo petroquímico de Camaçari. Lá sempre passa muito carro, muito caminhão. As crianças não podiam brincar na rua, por exemplo. Então, nós criamos uma ponte com o Lego. Ali foi a primeira vez que eu senti que era capaz de resolver qualquer problema que tivesse.

Comecei a enxergar que era capaz de realizar coisas. E aí não parei. Fui me envolvendo cada vez mais. Atrelei a robótica a tudo o que aprendia.

Foi esse ensino fundamental que me incentivou a fazer uma escola técnica no nível médio. Fiz automação industrial no Instituto Federal da Bahia (IFBA). Se no ensino fundamental entendi que era capaz de implementar minhas ideias, no ensino técnico aprendi como trazer isso para a minha vida real. No técnico também fiz pesquisas com o CNPQ e aprendi com rigor de um pesquisador. Agora, na Universidade Federal da Bahia (UFBA), estou cursando engenharia elétrica.

A minha família sempre me apoiou muito. Nunca tive nenhum tipo de problema em casa. Sempre entendi que era capaz. Mas no fundo meu pai queria que eu fosse homem. Só que consegui provar para ele que não precisa ser homem para fazer certas coisas. Acho que já nasci feminista por causa disso.

Sei, no entanto, que não é tão fácil para os meus pais todas essas ideias de eu estar me envolvendo com áreas "masculinizadas". É como se eu sempre tivesse avançando na minha idade. Ganhei uma maturidade e uma independência muito cedo que eles não estavam prevendo. O acesso a tecnologia me deu isso. É uma ferramenta de empoderamento. Você começa a enxergar as soluções para problemas que estão ao seu redor. E isso não influencia só na Lorenna pesquisadora, mas na Lorenna como pessoa. Então, entendi que precisava sempre assumir as minhas responsabilidades e entender o lugar que ocupo.

Tenho dois grandes exemplos na área de tecnologia. A primeira é a minha mentora na pesquisa, a Andrea Bittencourt. Ela enfrentou todas as dificuldades da área pra chegar onde chegou e incentiva muito as pessoas a continuarem. Foi ela que me abraçou quando cheguei no IFBA. Ela acreditou no meu sonho. E faltam pessoas que acreditem nos sonhos das outras. Foi assim que criei o grupo de robótica no IFBA, desenvolvemos cursos preparatórios e aos poucos estamos criando uma história no Instituto.

Outra inspiração é a Sônia Guimarães. A história dela me fascina. Ela é uma mulher negra e é uma das pioneiras na área de tecnologia. Hoje, Sônia é professora de física no ITA. Ela enfrentou muito racismo para chegar lá. Além dessas duas mulheres, tive um professor que é um exemplo de pessoa que incentiva o potencial dos alunos.

A educação transformou a minha realidade e como eu enxergo a minha posição no mundo. Então, acho que a educação é capaz de transformar a vida de qualquer pessoa, desde as mais ricas até as pessoas de classes mais pobres. É a ferramenta para a gente trazer igualdade.

O meu professor Evantenor quebrou todas as barreiras. Me ajudou a criar o instituto de robótica no IFBA. Depois, ele saiu da rede SESI, foi pra uma escola municipal em uma periferia de Salvador com o objetivo de incentivar o ensino de tecnologia para essas crianças. E, hoje, desenvolve um projeto lindo.

Uma coisa que sempre percebi, mas que hoje me preocupo, é o fato de ser quase sempre uma das únicas mulheres nos lugares em que frequento.

As meninas não são incentivadas para o ensino técnico. Eu era a única da sala no IFBA que já tinha tido contato com a tecnologia, por causa da robótica. Então, muitos alunos sequer sabiam do que se tratava o curso e porque estavam lá. Durante todo o tempo de curso tive uma única professora mulher. Isso só mostra que as mulheres não tem incentivo de continuar na área de tecnologia. Na minha sala, as meninas se sentiam incapazes de fazer as atividades práticas, os experimentos em geral.

No IFBA fiz uma amiga e ficamos muito próximas. Ela é uma mulher negra como eu. Mas a gente tem uma diferença. Eu sempre soube que era capaz de me relacionar com a tecnologia por causa da experiência que tive no ensino fundamental, mas ela não tinha essa visão. Ela não se achava capaz.

Por puro preconceito até dos professores, ela era subestimada. E o que aproximou a gente foi a minha tentativa de mostrar que ela era sim capaz. Ela tinha a sensação de que só estava levando, que a área não era para ela. Mostrei que a automação é para qualquer pessoa.

Independente de afinidades ou de gênero, todo mundo tem o direito de testar o que quiser, de se ver em qualquer área. Ao ver meninas com dificuldades de seguir no curso, comecei a lutar por mais e mais espaço para a gente.

Hoje, sou defensora do uso da tecnologia para o empoderamento feminino. Na minha sala do IFBA de 50 aprovados apenas sete eram meninas. E só cinco seguiram o curso. Com essa trajetória do ensino técnico percebi que apesar de as meninas tentarem entrar na área, o sistema não incentiva. Temos pouquíssimos exemplos e essa falta de representatividade entristece. A gente realmente passa a acreditar que não é capaz.

É muito desafiador produzir ciência em um país que não tem incentivo para isso. A situação tem melhorado, mas o Brasil ainda não coloca a educação como prioridade. Isso interfere no incentivo ao ciência e tecnologia. É uma bola de neve. Nosso sistema é rígido, não desenvolve a criticidade e a criatividade do aluno. Isso afeta a participação dos jovens em atividades extra curriculares, que geralmente é onde entra a ciência e tecnologia.

Uma coisa que sempre senti foi a dificuldade em relacionar o que eu aprendia na sala de aula com o que eu desenvolvia nas oficinas de robótica, por exemplo. É fundamental ter uma reforma no ensino que inserisse a ciência e a tecnologia como parte do ensino, e não como algo acessório. Um aluno que não dá conta das matérias básicas não vai conseguir se dedicar as atividades de ciência.

Esse sistema cria a ideia de que o cientista e os desenvolvedores precisam ser os melhores em tudo. Mas existem pessoas que simplesmente não conseguem se adaptar a essa rotina e a gente exclui essas pessoas do desenvolvimento. Imagina o quanto de pessoas não tem a contribuir, mas que simplesmente nunca tiveram acesso a essas linguagens?

Precisamos criar um sistema de educação que trabalhe em conjunto com a ciência e a tecnologia, e não que as distancie ainda mais.

O G(irls)20 me emocionou muito desde a etapa de inscrição até o resultado. Sair do ensino médio e entrar na graduação abriu minha visão de tudo e para os problemas de desigualdade de gênero. A realidade que vivo na politécnica na UFBA só deixa isso mais claro. Essa percepção aumentou meu desejo em combater essa desigualdade.

Quando se fala em mulheres negras é ainda pior. Me sinto muito mal vendo a realidade que preciso enfrentar. Quando descobri que posso contribuir levando esse problema à tona, participando de programas como o G(irls)20, entendi que é uma oportunidade de dizer para o mundo a situação que a gente vive no Brasil. O país é de maioria negra, mas onde estão as mulheres negras? O meu projeto atual é desenvolver tecnologias voltadas para pessoas - o que a gente chama de engenharia pessoal.

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