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Da obsessão ao desdém: Como Jane Austen se transformou em um ícone da ‘literatura cor-de-rosa’

Duzentos anos após sua prematura morte, isto é o que pensamos quando pensamos em Jane Austen.

17/08/2017 17:27 -03 | Atualizado 21/08/2017 20:05 -03
Getty / HuffPost

Jane Hayes adora Mr. Darcy. Não, na verdade ela tem um boneco de papelão em tamanho real de Colin Firth, no personagem como o herói de Jane Austen, de pé em seu apartamento. Ela preferiria vê-lo se apaixonar por Elizabeth Bennet — interpretada por Jennifer Ehle — pela milésima vez do que ficar com seu próprio paquera. A frase "Darcy esteve aqui" está gravada em letras garrafais sobre sua cama. Mas o que sabemos com certeza é que, no pôster do filme "Austenland" , de 2013, Jane (Keri Russell) segura uma sacola com a frase "I ❤︎ Mr. Darcy."

Duzentos anos após sua prematura morte, isto é o que pensamos quando pensamos em Jane Austen. Camisetas com o nome Darcy. Figuras de ação de Lizzie Bennet. Colin Firth em um top molhado. Mulheres solitárias que nutrem visões da elegância da Regência e o cortejo à moda antiga. Filmes onde homens atraentes e viris professam amor eterno a lindas mulheres em meio a incríveis tempestades cinematográficas.

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Para aqueles que têm uma transitória familiaridade com Austen, isto, sem dúvida, faz todo sentido. Em nossa consciência cultural, a autora representa o namoro decoroso e casto; romance de cinderelas; vestidos de gala elegantes e galantes pretendentes que convidam donzelas elegíveis para dançar, em vez de ver um filme no Netflix e relaxar. Ela representa uma fantasia sentimental e escapista estruturada em torno de desejos femininos específicos, fazendo com que algumas pessoas se devotem apaixonadamente a ela e outras a vejam com desdém.

Mas, para outros —críticos, estudiosos e muitos leitores —, toda essa ideia sobre Austen está equivocada. Essa concepção encobre sua sátira mordaz, que muitas vezes criticou a esfera social que descrevia. Também ignora o próprio ceticismo de Austen sobre o sentimento romântico desenfreado. A Abadia de Northanger, um de seus romances menos lidos, abertamente parodia o nauseante melodrama de narrativas românticas góticas, populares em sua época. Mas agora esses romancistas, como Ann Radcliffe e Horace Walpole, foram amplamente esquecidos, e Austen, que zombou do gênero desses escritores, parece encarná-lo na imaginação popular.

Como chegamos até aqui, a este estado de simultânea obsessão e desdém por Austen? Como Jane Austen se transformou na Jane Austen que conhecemos hoje?

Jane, A Realista

Austen pode não ter sido a representante do gênero romântico quando começou a publicar seus livros, mas estudiosos notaram uma bifurcação na resposta de seus leitores desde o início: alguns a liam para um pouco de escapismo e histórias de amor, e alguns gostavam da complexidade e sabedoria de suas narrativas. "Acho que, para muitos leitores no começo do século 18, os livros de Austen eram vistos como típico entretenimento romancista. E romances não eram uma forma literária particularmente prestigiosa naquele momento", disse Deidre Lynch, professora Ernest Bernbaum de literatura da Universidade Harvard, em entrevista ao HuffPost por e-mail. "Dito isso, desde o início havia leitores especialmente discernentes que reconheciam que esses romances eram, em sua silenciosa forma, uma ruptura bastante dramática com muitas das normas para a escrita de ficção."

Embora Jane estivesse trabalhando em uma forma menos do que respeitável na época, seus livros eram vistos seriamente pelos críticos, que admiravam sua observação das dinâmicas social e familiar, sua ágil prosa e seus personagens psicologicamente completos. Na época, eles não estavam nenhum pouco no extremo frívolo do espectro. "Historicamente, os livros de Austen não têm sido vistos como 'chick lit' [literatura cor-de-rosa], ou seja, romances que se ocupavam com temas como casamento e amor; temas que deveriam agradar e interessar às mulheres", disse ao HuffPost Karen Bloom Gevirtz, professora associada de inglês e codiretora do Programa de Estudos sobre Mulheres e Gênero da Universidade Seton Hall.

Em uma época quando muitos romances traziam narrativas muito mais fantásticas e exageradas —o popular romance gótico Os Mistérios de Udolfo, que retratava um nobre italiano sem escrúpulos, um castelo remoto, uma série de mortes precipitadas e uma heroína muito chorosa —, as histórias de Austen, sobre homens e mulheres comuns na Inglaterra cortejando-se durante danças típicas e nas salas de estar, estavam do lado comedido.

Em uma revisão contemporânea de Emma, um crítico (que acadêmicos especulam ter sido Sir Walter Scott) admiravelmente e de forma bem-humorada contrasta a obra de Austen com as histórias exageradas dos romances mais populares da época, que tipicamente protagonizavam uma heroína que "era regularmente exposta a ser levada à força como uma virgem Sabina por algum admirador frenético" e, raramente, conseguia escapar de "rufiões mascarados, um insidioso estuprador, um manto forçosamente enrolado em sua cabeça e uma carruagem com as persianas fechadas, indo para um lugar que ela não podia conjecturar". Austen, exalta, "produziu esboços com tal espírito e originalidade que nunca sentimos falta da excitação que depende de uma narrativa de eventos incomuns".

Jane, A Escapista

Inicialmente, Austen rompeu com as convenções da composição de romances ao escrever histórias do dia a dia em vez de temas escapistas. Mas algo aconteceu entre aquela época até agora: 200 anos se passaram. A vida cotidiana da pequena nobreza na Inglaterra do começo do século 19 já não parece ser um cenário comum para os leitores de Austen — tornou-se exótica pela distância. Amanda Price, a heroína da minissérie "Lost in Austen", de 2008, uma bancária entediada e leitora fanática de Austen, não vê Orgulho e Preconceito como "incidentes comuns" das "ordinárias caminhadas da vida". Para ela, é um mundo à parte — um mundo melhor e mais romântico. Como explica para sua mãe: "Adoro as maneiras, a linguagem e a cortesia. Tornou-se parte de quem sou e do que quero [...] Estou dizendo, mamãe, que tenho padrões".

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Mas não é apenas o filtro em tons de sépia, através do qual agora vemos os romances de Austen, que muda a maneira que interpretamos suas histórias. Embora a autora tenha subvertido as convenções dos romances góticos de sua época, ela não rompeu com tudo exatamente ― Austen as satirizou dentro dos limites de uma narrativa de trama conjugal. "Os romances certamente retratam heroínas que sentem agudamente e sofrem (geralmente em silêncio) por causa do amor", destacou Lynch. Em meio à sátira, Austen também fala em um "idioma psicológico que nos faz sentir, quase como se fosse a nossa, a experiência de melancolia ou as angustiadas heroínas como Anne Elliot ou Elinor Dashwood".

Em suma, os retratos empáticos de Austen de mulheres apaixonadas são tão poderosos quanto sua sagacidade cáustica. Toda trama de cada livro depende pelo menos de uma combinação de amor potencial, com heróis e heroínas charmosos e bem-desenvolvidos, o que torna fácil se envolver com eles no nível de uma narrativa romântica. O ângulo romântico de Austen é mais fácil de ser captado e replicado do que seu comentário social.

"A representação social de Austen é, na verdade, muito difícil de interpretar", explicou Lynch. "Ela é muito sutil — e essa sutileza abre espaço para divergências." As histórias de amor, por outro lado, são muito diretas, para não dizer menos polêmicas. "Como é muito fácil esvaziar sua obra de seu criticismo social, político e econômico", disse Gevirtz ao HuffPost, "uma adaptação de Austen pode agradar uma grande variedade de espectadores".

Não é de admirar que suas obras mais amadas e frequentemente adaptadas hoje, Orgulho e Preconceito e Emma, apresentem contos particularmente emocionantes de animadas jovens que se veem inesperadamente apaixonadas por homens fortes e mal-humorados. "A dimensão da história de Cinderela [de Orgulho e Preconceito] é, provavelmente, de um apelo perene", disse Lynch, "e as piores adaptações/'reinicializações' realmente se concentram nisso."

Jane, A Estrela de Hollywood

Estas são histórias de amor transferidas facilmente para a tela de cinema, onde podemos ver Lizzie e Darcy discutir, flertar e, relutantemente, se apaixonar. Orgulho e Preconceito, em particular, se encaixa perfeitamente em um modelo de comédia romântica anterior a Austen (exemplo: "Muito Barulho por Nada"). Em comparação com os góticos febris e numerosos romances vitorianos, seus enredos relativamente compactos e de apelo universal eram perfeitos para serem adaptados ao cinema. Além disso, observa Gevirtz, "a obra de Austen também é testada pelo mercado. Adaptações de seus romances vendem bem; por isso uma adaptação é uma aposta muito segura".

E assim sua obra foi adaptada — muitas vezes, com diferentes grau de liberalidade. No caso de Orgulho e Preconceito, há a minissérie produzida pela BBC em 1995, protagonizada por Ehle e Firth; um filme de 2005 com Keira Knightley e Matthew Macfadyen; e leves adaptações como a minissérie "Lost in Austen", na qual uma mulher moderna é transportada aos eventos da narrativa e tem seu próprio romance com Darcy; "O Diário de Bridget Jones", uma adaptação de um romance de Helen Fielding que modernizou Orgulho e Preconceito; "Noiva e Preconceito", uma versão Bollywood dirigida por Gurinder Chadha. E estas são apenas algumas das adaptações mais conhecidas. Emma e Razão e Sensibilidade também foram adaptados em filmes adorados (estrelando Gwyneth Paltrow e Emma Thompson, respectivamente) e serviram de base para comédias românticas contemporâneas (respectivamente, "As Patricinhas de Beverly Hills e "Sem Prada Nem Nada").

Com a proliferação dessas versões para o cinema, os filmes se tornaram o modo pelo qual as pessoas passaram a conhecer a obra de Austen. "Embora a adaptação dos livros como romances de cinema remonte a 1940, com o filme 'Orgulho e Preconceito', da MGM, isso se tornou uma prática cultural particularmente intensa desde meados da década de 1990", disse Gevirtz ao HuffPost. Mesmo versões aclamadas como as mais fiéis, no entanto, não podem replicar a experiência de ler os romances — e aspectos essenciais de sua genialidade são facilmente perdidos. "O filme é um meio muito diferente de prosa romancista, por isso, não pode se aproximar das sutilezas estilísticas da obra [de Austen], da ironia que mantém o leitor em expectativa de uma frase a outra", disse Lynch.

O humor dialógico apenas abarca parte da comédia reveladora e irônica dos romances, que, muitas vezes, é conduzida pelo narrador observador e lacônico de Austen — tipicamente a primeira coisa a ser usada em uma versão cinematográfica. "O narrador, em particular, pode ser difícil de ser introduzido com uma câmera", destacou Gevirtz, "e, embora algumas produções usem 'voice-overs' ou técnicas de filmagem em particular, não é a mesma coisa".

Assim como qualquer adaptação, os cineastas necessariamente fizeram escolhas como quais subenredos deveriam cortar, que temas deveriam enfatizar e que tom usar. "As adaptações ao cinema", Lynch disse ao HuffPost, com poucas exceções, "tendem a enfatizar o romance acima de tudo". O filme "Orgulho e Preconceito", com suas contemplações de penhascos e pedido de casamento com cena em dia chuvoso, reproduz a turbulência emocional de um amor frustrado em vez da sagacidade que domina a obra.

A associação dos romances com suas adaptações cinematográficas normalmente pegajosas só serviu para alimentar a imagem de Austen como provedora de literatura cor-de-rosa sem consistência. "Enquanto os romances de Austen são Grandes Livros, as adaptações cinematográficas são muitas vezes vistas por estudiosos como sentimentais e frívolas", escreve a estudiosa Pamela Demory. Parece uma divisão intransponível, mas o resultado, argumenta Gevirtz, tem sido uma mudança em como vemos a própria Austen. A categoria de filmes usada para adaptar os romances de Austen afetou a percepção geral sobre os livros", disse Gevirtz ao HuffPost.

Por um lado, à medida que os filmes abrangem uma parte cada vez maior de nossa dieta Austen, começamos a tecer imagens e humores dos filmes em nossa ideia cultural dos livros. Consideremos o famoso exemplo: não há nenhuma cena, em Orgulho e Preconceito de Austen, na qual Mr. Darcy surge, totalmente molhado, de uma lagoa. Tampouco há uma cena em que ele e Elizabeth se encontram em meio a uma tempestade, encharcados da cabeça aos pés. Ainda assim, um Darcy sexy e molhado se tornou quase inextricável do canônico Darcy. Em "Lost in Austen", Amanda insiste que "não tem um bloqueio em relação a Darcy. Não sento em casa com o botão do 'pause' no Colin Firth com calças apertas ok?". Em vez disso, ela é mostrada folheando uma página marcada do livro. No entanto, quando transportada para Orgulho e Preconceito, Mr. Darcy surge molhado de um lago diante dela — atendendo ao seu pedido.

"O lucrativo, vasto e jovem mercado para itens como as xícaras 'Keep calm think of Mr. Darcy [Fique calma e pense em Mr. Darcy] e camisetas 'I [❤] Mr. Darcy' [Eu amo Mr. Darcy] sugere que [lançar os romances como literatura açucarada] está funcionando muito bem." Sempre um protagonista romântico e atraente, bonito e de bom coração, apesar de seu comportamento proibitivo; sua profundidade taciturna e paixão inextinguível foram removidas em adaptações ao cinema. O surgimento de Darcy como uma celebridade agradável e sensual posicionou Orgulho e Preconceito como uma fantasia para realização de desejos de mulheres hetero em vez de um comentário social.

Filmes biográficos da própria Austen se basearam nos enredos românticos de seus livros para criar um retrato de uma autora inspirada e motivada por sua própria decepção amorosa. Gevirtz destaca o filme "Amor e Inocência", de 2007. Estrelado por Anne Hathaway, o filme sugere que Austen sofreu uma decepção amorosa muito cedo e que teria inspirado a história de amor de Orgulho e Preconceito. "O trailer de [Amor e Inocência] exortava: 'Descubra o romance secreto de Jane Austen que se tornaria a inspiração para suas maiores histórias de amor'", disse Gevirtz. "Os fatos da vida de Austen, no entanto, não sustentam uma narrativa de uma Jane decepcionada romanticamente, eternamente buscando consolo ao reescrever compulsivamente seu romance arruinado com um final feliz." Ao contrário, há muitas evidências de que ela era uma artista talentosa e dedicada que aperfeiçoou seu ofício por muitos anos, começando em sua juventude. Ao remodelar a autora como uma mulher encantadora que divaga sobre sua própria perda, argumenta Gevirtz, permitimos que os romances sejam "reduzidos a histórias de amor e nada mais além disso".

Mesmo as paródias dos romances de Austen mais ousadas e com misturas de gênero transmitem essa ideia. A popular paródia Orgulho e Preconceito e Zumbis — livro e filme — busca o humor ao justapor as convenções do terror com as das narrativas românticas gentis: as irmãs Bennet, que só pensam em casar, também, incongruentemente, lutam contra zumbis com habilidades de combate muito afiadas. Ao parodiar o enredo de casamento de Orgulho e Preconceito, o autor Seth Grahame-Smith esvazia o romance ou pelo menos o desvia de sua própria sátira mais sutil. Em vez disso, é uma tela de romance em branco revestida de piadas. Como Jennifer Malia comenta em Fan Phenomena: Jane Austen, "o que muitos críticos e leitores identificaram como atraente" sobre Orgulho e Preconceito e Zumbis foi como "o enredo inesperado e absurdo zumbi interrompe a seriedade do enredo do romance".

É difícil imitar uma sátira, mas, uma narrativa romântica, isso é fácil.

Lionsgate

Jane Contém Multidões

O estágio final da transformação de Austen em literatura açucarada, no entanto, é talvez o mais exasperante: depois de intermináveis adaptações de seus romances que minimizam seu comentário social e exageram seu sentimentalismo, Hollywood zomba das mulheres que consomem esse tipo de gênero. As rupturas com Austen frequentemente retratam as mulheres com desdém por apreciar a autora e por romantizar um herói de camisa molhada e uma história de amor escapista.

As tietes de Austen fictícias mais famosas se encaixam em um molde nada atraente: solitárias, obsessivas, desconectadas da realidade. O relacionamento mais significativo da Jane de "Austeland" é com aquele boneco de papelão de Firth, até que finalmente embarca de férias para uma experiência imersiva com Austen — uma mansão onde "Janeites" se vestem com roupas de época e flertam educadamente com os lacaios. Lá, finalmente, se apaixona verdadeiramente com seu Darcy, cercada por outras fãs tontas que nutrem visões irrealistas de amor centrado na mulher. Amanda, a heroína de "Lost in Austen", escapa de sua rotina diária de trabalho e de seu namorado infiel ao reler Orgulho e Preconceito e sonhar que sua vida pode ser tão romântica quanto a Inglaterra de Austen. Então, de alguma forma, é magicamente transportada para o mundo do livro, onde ela própria tem uma oportunidade de se apaixonar por Darcy.

Essas ramificações também são produções açucaradas e, portanto, terminam com um final feliz para as heroínas — mas, no processo, elas caricaturam as fãs de Austen em pessoas interessadas apenas em encontrar o homem perfeito e a perfeita história de amor. Essa condescendência também infecta o objeto de sua afeição: Austen. Se as mulheres são tontas por amá-la, o que dizer sobre sua arte? Nada particularmente lisonjeiro.

A implacável mistura de adaptações de Austen, que se alinham cada vez mais umas às outras do que à obra original, gerou uma nova ideia da autora e de seus fãs, uma compreensão menor de seus romances que cresceu ao ponto de ofuscar suas reais complexidades. Na atual persona de Austen, duas tendências preocupantes se alimentaram uma da outra: a ideia de que as mulheres se preocupam exclusivamente com a busca egoísta de amor e outros interesses femininos codificados, como moda, e a ideia de que tais interesses femininos são triviais e tolos. Quando defendemos Austen, dizendo que ela é mais do que isso, corremos o risco de reforçar a ideia de que 'chick lit' é uma bobeira; quando a defendemos dizendo que 'chick lit' vale a pena, corremos o risco de reforçar a ideia de que sua obra se encaixa perfeitamente no gênero em vez de reconhecer sua genialidade singular.

Mas ambas são verdadeiras, e vale a pena defender Austen nas duas frentes. Megan Garber, da revista The Atlantic, argumentou convincentemente que as tramas de casamento habilmente abordadas por Austen oferecem um caminho relativamente empoderador por meio de um domínio patriarcal que continua a ressoar hoje: uma parceria conjugal baseada em amor mútuo e respeito. Faz sentido que esta Austen tenha sido a pioneira de um gênero 'chick lit' no qual as mulheres e seus desejos são priorizados. Muito da delicada ironia e comentário social sobreposto, no entanto, não chegam até as telas ao lado das histórias de amor — e essa sagacidade precisa e observadora é o que originalmente elevou sua obra sobre os enredos matrimoniais dos romances da época. O germe dos filmes direcionados ao público feminino se apoia na obra de Austen desde o começo, mas hoje parece que muitas vezes nos esquecemos de todas as outras coisas que os livros trazem. Um mundo no qual apreciamos apenas uma fração de seu talento é um mundo mais obscuro.

Duzentos anos após sua morte, parece acertado celebrar tanto a ascendência cultural de Austen, que continua a aumentar, e a genialidade de seus romances, que não mudou ou diminuiu em dois séculos. Seus fiéis admiradores costumam ter dificuldade para abarcar todos esses aspectos — o schmaltz e a sátira, o intelectual e o inculto. "Não acho que conseguimos compartilhar Austen com pessoas que pensam diferente de nós sobre o que os romances significam", diz Lynch. "Muitos de nós lidamos com esses romances muito pessoalmente." Talvez devêssemos ser mais generosos. Então, novamente, o senso apaixonado de propriedade de seus leitores e a multiplicidade de maneiras pelas quais lemos sua obra possam ser o mais profundo possível testamento do duradouro poder de sua obra.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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