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Os alemães não se surpreenderam com a violência dos nacionalistas brancos americanos

Eles já tinham visto os símbolos de Charlottesville. E sabiam onde isso iria chegar.

16/08/2017 16:34 -03 | Atualizado 16/08/2017 16:34 -03
Joe Penney / Reuters
Manifestantes marcham contra os nacionalistas brancos em Nova Iorque.

Munique - Para os alemães, não é uma surpresa que a violência da direita está crescendo na América e que o presidente estaria pouco disposto a condenar explicitamente os racistas responsáveis pela morte da jovem durante a manifestação da extrema direita em Charlottesville, Virgínia.

Na Alemanha, até os comentaristas das mídias mais conservadoras argumentam que os Estados Unidos estão se distanciando da democracia sob o comando do presidente Donald Trump; e que o presidente se tornou o "porta-bandeira" da supremacia branca, nas palavras de um dos renomados sociólogos.

"Não estamos lidando com um político normal, mas com um governante totalitário", disse o sociólogo Harald Welzer em entrevista para uma rádio alemã bem conceituada, na segunda-feira. "Conhecemos esse tipo de política do século 20. Não esperávamos que ele voltasse no século 21".

Há uma pequena ambiguidade aqui. Em parte, por causa da relação histórica da Alemanha com os símbolos de Charlottesville: a suástica, as tochas e os slogans.

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Manifestantes carregam bandeiras nazistas e aliadas no protesto em Charlottesville, Virgínia.

A história lança uma longa sombra nesse momento. Como o jornal The Economist bem observou nessa semana, "relativização, apoio por indícios ou omissão, símbolos da extrema direita como 'ironia', prevaricações subentendidas e atenuações crescentes raramente são toleradas".

Uma lição dos horrores nazistas na Alemanha é que há uma linha direta do discurso totalitário para a violência aberta. Hannah Arendt escreveu sobre isso em As Origens do Totalitarismo. Victor Klemperer, em seu livro Language of the Third Reich, retratou a brutalização da língua durante o regime nazista.

Na Alemanha, essas crenças resultaram em leis que podem parecer estranhas para os estrangeiros. Mas elas são justificadas pela história: nunca mais ideias totalitaristas vão dominar nosso discurso político.

Nós também somos a favor da liberdade de expressão, mas é proibido negar o Holocausto, assim como incitar o ódio, que é passível de punição com até cinco anos de prisão. Muitas demonstrações em Charlottesville teriam incorrido nessa lei na Alemanha.

A exibição de bandeiras ou adereços nazistas é proibida, e até mesmo comerciantes de antiguidades devem cobrir as suásticas nas vitrines. Como dois turistas chineses recentemente aprenderam, saudações nazistas também são proibidas: eles foram presos depois de fazerem saudações na frente do Palácio do Reichstag (sede do parlamento alemão) em Berlim. Um turista americano bêbado recebeu uma punição mais rápida quando um pedestre o socou enquanto ele fazia saudações no centro da cidade de Dresden, no domingo (13).

Populistas de direita, conhecidos na Alemanha, criticaram algumas dessas leis em algumas ocasioões, referindo-se a elas como "policiamento de pensamentos".

Mas até agora a opinião pública não virou à seu favor.

E até mesmo para aqueles que defendem controle mais rígido da imigração, os símbolos de extrema direita são um tabu.

A linha que separa a direita da extrema direita é como um muro, e na Alemanha é a nossa democracia que o mantém de pé.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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