ENTRETENIMENTO

Heróis (ou anti-heróis) das ruas se unem em 'Defensores' para salvar a alma de Nova York

Luke Cage, Demolidor, Jessica Jones e Punho de Ferro são a única esperança da cidade em nova série da Netflix.

16/08/2017 19:56 -03 | Atualizado 16/08/2017 19:56 -03
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Da esquerda para a direita: Luke Cage, Demolidor, Jessica Jones e Punho de Ferro batalham pela alma de Nova York.

Nova York é conhecida pela diversidade cultural que lhe dá identidade há centenas de anos. A cidade serve de porta de entrada para os Estados Unidos a milhões de imigrantes. Hispânicos, asiáticos, negros, indígenas e europeus aos milhões, entre outros grupos étnicos, transbordam na capital e lutam pelo seu lugar nela — não diferente do que tem acontecido mundo afora —, seja na política ou no espaço público.

Logo após a manifestação de supremacistas brancos no último sábado (12) em Charlottesville, por exemplo, nova-iorquinos reagiram com protestos diante da Trump Tower na qual o presidente se hospedou.

É no mínimo curioso que em meio à atual disputa pela identidade cultural dos EUA surja uma minissérie ambientada em Nova York cujo título seja Os Defensores.

Inspirada nos quadrinhos de mesmo nome, a nova série da Netflix em parceria com a Marvel que estreia nesta sexta-feira (18) traz a aguardada união de Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. Cada um deles já foi apresentado em sua própria série.

Ao se encontrarem pela primeira vez, eles não notam isso, mas há algo em comum entre os quatro: a experiência de ter sobrevivido a sofrimentos extraordinários. À primeira vista, destacam-se as diferenças — sociais, de visão de mundo —, mas eles chegam ao ponto em que devem deixá-las de lado para combater o Tentáculo, uma organização criminosa, riquíssima e que, das sombras, manda mais no mundo que as instituições tradicionais.

Demolidor (Charlie Cox) é o alter-ego do advogado cego Matthew Murdock, sujeito atormentado pela culpa católica que carrega consigo. Ele usa o treinamento em artes marciais que recebeu para combater o crime no bairro de Hell's Kitchen; agora Matt sofre com a morte de sua amada Elektra (Elodie Yung) e aposentou o uniforme com chifres.

Jessica Jones (Krysten Ritter) é uma detetive particular que sofre de transtorno de estresse pós-traumátic. Após matar Kilgrave, que a manipulou e estuprou no passado, ela continua isolada do mundo por escolha própria e bebendo todas.

Luke Cage (Mike Colter) sabe como a Justiça norte-americana pode ser racista. Depois de pagar uma antiga dívida com a lei ao amargar um ano na prisão, ele volta para cuidar de sua casa — o Harlem, bairro negro de NY.

Quando criança, Danny Rand (Finn Jones) perdeu o pai e a mãe em uma queda de avião. Ele foi resgatado dos escombros por monjes ninjas de outra dimensão, que o treinaram intensamente nas artes marciais e no domínio de seu ch'i. O garoto se torna a entidade mística Punho de Ferro e aprende que o Tentáculo é seu inimigo.

Uma vez reunidos nos oito episódios de Defensores, muito do passado obscuro do quarteto é deixado de lado para contemplar o objetivo principal da produção, que é vê-los unidos com o mesmo objetivo.

Demolidor e Punho de Ferro, cada um em sua respectiva série, tiveram suas experiências com o Tentáculo. O primeiro foi recrutado por seu sensei Stick (Scott Glenn) para se unir ao Casto, grupo de ninjas que combate a organização, mas se negou a fazer parte dessa guerra centenária. O segundo descobriu que a queda de avião que matou sua família nada teve de acidental. Trata-se de obra do Tentáculo. Ao saber disso, ele parte em busca de exterminá-la de uma vez por todas.

Já Jessica Jones e Luke Cage são apresentados ao clã ninja assassino apenas em Defensores. A detetive particular trabalha em um caso que a leva ao Tentáculo. Luke também inicia uma busca: ele quer dar fim ao trabalho sujo feito por garotos do Harlem a mando de um misterioso homem de chapéu branco.

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A soma de muitas ameaças: Sigourney Weaver é a enigmática Alexandra em 'Defensores'.

E o que quer o Tentáculo, afinal? Pelo menos até o final do quarto capítulo — a Netflix liberou para a imprensa apenas os quatro primeiros —, não está bem claro. Tudo que sabemos é que a influência e o poder da facção continua a se expandir silenciosamente, e Manhattan pode virar uma "pilha de pó", como alerta Stick, se depender das intenções de Alexandra (Sigourney Weaver, em toda sua glória), toda-poderosa da organização cujo passado é uma incógnita.

Eles vêm de pontos de partida distintos, mas inevitavelmente, se conhecem. Ou melhor: se esbarram. Em seguida, se estranham — e muito. Este é um dos acertos mais notáveis dos criadores da minissérie, Douglas Petrie (Buffy, a Caça Vampiros) e Marco Ramirez (Orange is the New Black). A dupla, responsável pela ótima segunda temporada de Demolidor, entendeu o necessário: não é possível que quatro personalidades tão distintas sejam amigas, pelo menos logo de cara. As diferenças e pequenas rivalidades entre eles causam faíscas, mas parar o Tentáculo é mais importante, e é essa dinâmica que faz a união deles ser tão interessante, além de divertida.

Os dois primeiros capítulos começam devagar, servem para localizar novos espectadores no universo de Defensores e atualizar os fãs a respeito do que os quatro têm feito desde que os vimos pela última vez. A série deslancha na terceira parte, quando é explicado o retorno de Elektra, assassinada na segunda temporada de Demolidor, e o quarteto se une e compartilha uma ótima cena de ação em um corredor (aparentemente, toda série Marvel/Netflix terá uma dessas). É bastante recompensador.

Vale ressaltar que Punho de Ferro, vindo de uma série morna e quase sem identidade própria no primeiro semestre deste ano, volta com um trabalho feito com mais convicção por Finn Jones; o ator recebeu desta vez um material melhor para trabalhar.

Embora os atores principais entreguem boas performances, assim como o restante do elenco — ainda repleto de coadjuvantes dos seriados anteriores —, o verdadeiro destaque é Sigourney Weaver.

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Stick (com o bastão) é o sensei carrancudo de Demolidor,

A escolha da atriz para o papel de Alexandra é particularmente interessante. Não apenas por ela ser uma conhecida de longa data do público de ficção científica e fantasia, mas pelas várias semelhanças entre atriz e personagem. Weaver é nova-iorquina da gema, culta e sofisticada — descendente de britânicos, ela é graduada em inglês por Stanford e mestre em artes dramáticas por Yale, e nasceu justamente em Manhattan, uma das locações centrais de Defensores. Ainda assim, ela confere à personagem a sutileza que lhe é de praxe e emana perigo e gelidez. Os superpoderes que se destacam em Defensores são, sem dúvida, os de Sigourney Weaver.

Alexandra, como tem enfatizado a atriz em entrevistas, é adversária, e não "vilã" do grupo. Uma oponente à altura, pode-se dizer, pois conforme o espectador virá, ela não representa uma ameaça, mas a soma de muitas. Logo no primeiro episódio, Alexandra é diagnosticada com um câncer, um momento de fragilidade que tem feito os antagonistas das séries Marvel/Netflix mais interessantes que os do cinema.

A antagonista é responsável pela macabra ressurreição de Elektra, ninja letal eternizada nos quadrinhos por Frank Miller. Sem memória de quem era antes de transcender a morte e à disposição do Tentáculo, Elektra, agora chamada de Céu Negro, torna-se a arma mais poderosa do conflito. Cada momento de Yung em Defensores é um dos melhores elementos em cena.

Outro personagem de passagem marcante em Demolidor que promete retornar na minissérie, como mostram os trailers, é o vigilante sanguinário Justiceiro (Jon Bernthal). A enfermeira Claire Temple (Rosario Dawson), que tem servido de ponte entre as quatro séries, também volta para fazer a união dos quatro personagens.

Petrie e Ramirez não foram generosos apenas com Alexandra e Elektra, mas também com outra mulher, a sempre brilhante Jessica Jones. Ambos deixaram para ela as falas mais afiadas — "Eu sou a única que não sabe karatê aqui?", esbraveja em uma das cenas de pancadaria — e não se esqueceram de fazer o frequente comentário social da Marvel. Aqui e ali, Defensores critica iniciativas de gentrificação na cidade. O que está em jogo é a alma de Nova York, um lar para tantas pessoas diferentes entre si. É como se o quarteto dissesse: "Aqui não, Tentáculo. Não esta cidade. Vamos te mostrar a porta de saída".

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Roy Thomas (X-Men, Vingadores), um dos nomes de maior peso que já passaram pela Marvel Comics, criou o grupo em 1971, começando com um trio bastante improvável e diverso: Hulk, Doutor Estranho e Namor (na capa acima, em sentido horário). Os Defensores tiveram aventuras com os Vingadores, enfrentaram um alienígena palestrante de autoajuda (pois é!) e muitos nomes marcantes da Marvel passaram pelo grupo, como a guerreira Valquíria, o x-man Fera e Felina (em Jessica Jones, a personagem é vivida por Rachael Taylor, a apresentadora de rádio Trish Walker).

Pelo que a minissérie demonstra, parece que o grupo não seguirá um caminho tão excêntrico quanto o dos gibis, mas será uma família pouquíssimo tradicional, com personagens marcantes em bons momentos e cenas de ação bem elaboradas — o que já é o suficiente para um início.

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