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Trump diz que o racismo é 'do mal'. Aqui estão 16 ocasiões em que ele o endossou

Historicamente, Trump hesita em condenar os supremacistas brancos.

15/08/2017 17:39 -03 | Atualizado 15/08/2017 19:24 -03
Twitter RealDonaldTrump

Foram necessárias mais de 48 horas, mas o presidente Donald Trump finalmente condenou os grupos supremacistas brancos cuja manifestação em Charlottesville, Virgínia, no fim de semana passado, acabou em enfrentamentos violentos e deixou uma mulher morta.

Mas sua proclamação na segunda-feira de que o "racismo é do mal" significa pouco, vinda de um homem que poucas vezes se afastou do racismo sobre o qual ele construiu sua campanha presidencial e seu negócio imobiliário.

A condenação de Trump não apenas foi tímida em comparação com a dos legisladores de ambos os partidos, celebridades e até mesmo do fabricante das tochas usadas na manifestação fascista, mas ela também veio depois de o presidente americano ter culpado "vários lados" pelo protesto violento.

Ao longo de sua campanha e depois de sua eleição, o The Huffington Post mantém uma lista (em inglês) com exemplos do racismo de Trump desde 1970. Continuaremos documentando esses incidentes aqui conforme eles forem acontecendo.

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Trump fala à imprensa sobre os protestos em Charlottesville, no sábado, no Trump National Golf Club em Bedminster, Nova Jersey.

Alguns de seus principais assessores e ministros têm histórico de preconceito

Desde que ganhou a eleição, Trump escolheu assessores diretos e ministros cujas carreiras são marcadas por acusações de comportamento racialmente tendencioso.

Steve Bannon, estrategista-chefe da Trump e conselheiro-sênior da Presidência, foi presidente executivo do Breitbart, um site de notícias que Bannon apelidou de "casa da alt-right" – direita alternativa, um eufemismo que descreve uma coalizão de supremacistas brancos e grupos similares. Sob a liderança de Bannon, o Breitbart aumentou o espaço para textos abertamente racistas e antissemitas, capitalizando o recrudescimento do nacionalismo branco que ganhou impulso com a campanha de Trump.

O tenente-general da reserva Mike Flynn -- que trabalhou como conselheiro de segurança nacional da Trump até renunciar em fevereiro em meio a revelações de que ele discutiu com o embaixador russo as sanções dos Estados Unidos contra a Rússia – foi alvo de atenção por causa dos comentários antimuçulmanos que fez ao longo dos anos. Em fevereiro, Flynn afirmou que "o medo dos muçulmanos é racional". Durante o verão, ele disse que há um "componente doente no mundo islâmico", como um "câncer". Flynn defendeu a medida adotada por Trump de proibir a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de alguns países majoritariamente muçulmanos e sugeriu que ele estaria aberto a retomar técnicas de tortura, como o waterboarding.

Além disso, Trump nomeou o senador Jeff Sessions (republicano do Alabama) para o cargo de ministro da Justiça. Em 1986, o Senado se recusou a confirmar Sessions como juiz federal, em meio a acusações de que ele fez comentários racialmente insensíveis – entre outras coisas, Sessions afirmou que a única razão pela qual não havia entrado para a Ku Klux Klan era porque membros do grupo extremista fumavam maconha. Grupos de defesa dos direitos civis condenaram a indicação de Sessions para o ministério de Trump, enquanto os líderes nacionalistas brancos a celebraram.

E Steve Mnuchin, que Trump nomeou como secretário do Tesouro, enfrenta acusações de lucrar com a discriminação racial. Como gestor de fundos de hedge, Mnuchin comprou um banco que atravessava problemas, acelerou a taxa de retomada de imóveis e vendeu a instituição com enorme lucro anos depois. O banco de Mnuchin foi alvo dos grupos de direitos de moradia por supostas práticas racistas, como emprestar para pouquíssimas pessoas de cor e por retomar mais propriedades hipotecadas em bairros predominantemente negros e marrons menos do que em bairros brancos.

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Steve Bannon, estrategista-sênior do presidente Donald Trump.

Trump negou a responsabilidade por incidentes racistas ocorridos após sua eleição

Enquanto o discurso de ódio e a violência racista encorajados por sua campanha apenas aumentaram após sua vitória, Trump minimizou os incidentes e denunciou-os sem entusiasmo.

Houve quase 900 incidentes de ódio nos Estados Unidos nos dez dias seguintes à eleição de novembro passado, de acordo com um relatório divulgado no mês passado pelo Southern Poverty Law Center. Esses ataques incluem vândalos desenhando suásticas em sinagogas, escolas, carros e calçadas; um gay espancado por um homem que afirmou que "o presidente diz que agora podemos matar todos vocês, viados"; e crianças falando aos colegas negros para se sentarem na parte de trás do ônibus escolar.

Em quase 40% desses incidentes, afirma o SPLC, as pessoas invocaram explicitamente o nome do presidente-eleito ou slogans de sua campanha.

O Conselho das Relações Americano-Islâmicas e a Anti-Defamation League também contabilizaram um aumento significativo dos ataques racistas e intolerantes.

"Vimos uma grande quantidade de coisas realmente preocupantes na semana passada, uma onda de assédio, vandalismo, agressões físicas. Algo está acontecendo que não estava acontecendo antes", disse o diretor nacional da ADL, Jonathan Greenblatt, para a revista The New Yorker.

Apesar dessas evidências, Trump insistiu em entrevista ao programa de TV "60 minutes", no domingo após sua eleição, que havia apenas uma "pequena quantidade" de incidentes racistas.

"Fico tão triste ao ouvir isso", disse Trump, questionado sobre os incidentes racistas. "E eu digo: 'Parem com isso'. Se ajudar, direi isso, e o direi diretamente à câmera: 'Parem com isso'."

(Trump: Parem com isso.

*Cara segurando uma cruz em chamas para de andar*: Rapaz, nunca tinha olhado pra isso desse jeito.)

Trump também acusou a mídia de exagerar os ataques.

"Acho que é exagerado pela imprensa porque, francamente, eles pegarão todos os pequenos incidentes que puderem encontrar neste país, o que poderia existir antes -- se eu nem estivesse fazendo isso -- e eles os transformarão num evento, porque a imprensa é assim", disse o presidente.

A condenação por parte de Trump da violência alimentada pelo ódio foi relativamente branda, especialmente em comparação com o zelo com que ele ataca rotineiramente outros alvos -- como, por exemplo, o programa humorístico "Saturday Night Live", ou o elenco do musical da Broadway "Hamilton", que se dirigiu ao vice-presidente eleito Mike Pence em uma performance que Pence assistiu em Nova York logo depois da eleição.

"[Trump] ataca a mídia de notícias quando acha que há uma matéria que é injusta, ele tuíta quando está indignado com algo na mídia", disse o apresentador da CNN Wolf Blitzer no mês passado, depois de Trump criticar o elenco de "Hamilton" por dirigir-se a Pence, que foi vaiado pela plateia. "Mas ele não parece desviar do seu caminho na hora de expressar indignação com aqueles que o saúdam com gestos nazistas."

Ele decretou uma proibição de entrada nos Estados Unidos dirigida a muçulmanos

Em uma ordem executiva desde então bloqueada pelos tribunais, Trump restringiu a entrada nos Estados Unidos de refugiados sírios e de imigrantes de sete países de maioria muçulmana.

O então secretário de imprensa da Casa Branca, Sean Spicer, insistiu mais tarde que não se tratava de uma "proibição de muçulmanos", mas Trump disse no dia em que assinou o decreto que daria prioridade aos cristãos sírios e faria uma exceção para admitir refugiados que são minorias religiosas nesses países.

Trump caracterizou pessoas daquela região do mundo como "propensas ao terrorismo", apesar de não haver registro de ataques terroristas fatais em solo americano desde 1975 cometidos por imigrantes dos sete países visados pelo decreto: Irã, Iraque, Líbia, Somália, Sudão, Síria e Iêmen.

A proibição generalizada da entrada de cidadãos desses países e a intolerância antimuçulmana em geral são "essencialmente uma extensão do medo e da vilificação não só dos muçulmanos, mas de todos aqueles cuja percepção é muçulmana. Isso ocorre há séculos", disse ao site Vox Khaled Beydoun, professor de direito da Universidade de Detroit e pesquisador do Projeto de Pesquisa e Documentação da Islamofobia na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Ele atacou os pais de um militar muçulmano condecorado

A retaliação de Trump contra os pais de um oficial muçulmano do Exército dos Estados Unidos que morreu enquanto servia na Guerra do Iraque foi um ponto baixo em uma campanha eleitoral repleta de retórica odiosa.

Khizr Khan, o pai do falecido capitão do Exército Humayun Khan, denunciou a retórica intolerante de Trump e sua falta de respeito pelas liberdades civis na Convenção Nacional Democrata, em 28 de julho do ano passado. Foi o momento mais memorável da convenção.

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Khizr Khan, pai do militar muçulmano morto em combate, fala sobre o presidente dos EUA, Donald Trump, e a proibição da entrada de cidadãos de sete países por ordem executiva durante um fórum em 2 de fevereiro de 2017.

"Deixe-me perguntar, você já leu a Constituição dos Estados Unidos?", Khan perguntou a Trump antes de retirar uma cópia do documento do bolso do seu casaco e exibi-la. "Empresto minha cópia com prazer."

A esposa de Khan, Ghazala, que cobre a cabeça com um lenço, ficou ao seu lado durante o discurso, mas não falou.

Em resposta ao discurso devastador, Trump aproveitou o silêncio de Ghazala Khan para implicar que ela estava proibida de falar por causa da fé islâmica do casal.

"Se você olhar para a esposa dele, ela estava parada lá. Ela não tinha nada a dizer. Provavelmente, talvez ela não tivesse permissão para ter algo a dizer. Você me diga", disse Trump em entrevista à ABC News exibida pela primeira vez em 30 de julho do ano passado.

Em um artigo no The Washington Post no dia seguinte, Ghazala explicou que não falou por causa de seu sofrimento.

"Andando no palco da convenção, com uma imagem enorme do meu filho atrás de mim, mal consegui me controlar. Que mãe conseguiria?", escreveu ela. "Donald Trump tem filhos que ama. Ele realmente precisa se perguntar por que não falei nada?"

Ele disse que um juiz era tendencioso porque "ele é mexicano"

Em maio de 2016, Trump deu a entender que Gonzalo Curiel, o juiz federal que preside uma ação coletiva contra a Universidade Trump, não poderia estar envolvido no caso por causa de sua ascendência mexicana.

"Ele é mexicano", disse Trump à CNN. "Vamos construir um muro entre aqui e o México. Ele está tomando decisões muito injustas -- decisões que as pessoas nem conseguem acreditar."

Curiel, note-se, é cidadão americano e nasceu no Estado de Indiana. Como promotor no final da década de 1990, ele foi atrás dos cartéis de drogas mexicanos e virou alvo de um dos líderes do narcotráfico de Tijuana.

Até mesmo integrantes do partido de Trump criticaram as declarações racistas.

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Trump fala na Sala de Recepção Diplomática da Casa Branca em Washington, D.C., Estados Unidos, na segunda-feira, 14 de agosto de 2017.

"Afirmar que uma pessoa não é capaz de fazer seu trabalho por causa de sua raça é a definição clássica de um comentário racista", disse o presidente da Câmara, Paul Ryan – apesar de Ryan esclarecer que ainda apoiava Trump.

Os comentários contra Curiel também não foram bem interpretados pela população. De acordo com uma pesquisa YouGov apresentada em junho de 2016, 51% dos entrevistados concordaram que os comentários de Trump não foram apenas errados, mas também racistas. 57% dos americanos disseram que o Trump estava errado em se queixar contra o juiz, enquanto apenas 20% disseram que ele estava certo em fazê-lo.

Quando questionado se confiaria num juiz muçulmano à luz das restrições propostas à imigração muçulmana, Trump sugeriu que tal juiz também poderia não ser justo com ele.

O Departamento de Justiça processou sua empresa -- duas vezes -- por não alugar imóveis para pessoas negras

Quando Trump era presidente da empresa imobiliária de sua família, a Trump Management Corporation, em 1973, o Departamento de Justiça processou a empresa por suposta discriminação racial contra pessoas negras que procuram alugar apartamentos nos bairros de Brooklyn, Queens e Staten Island, em Nova York.

Segundo a acusação, a empresa apresentava termos e condições de locação diferentes para clientes negros e brancos. A empresa também teria mentido para candidatos negros, dizendo que não havia apartamentos disponíveis. Trump chamou essas acusações de "absolutamente ridículas" e processou o Departamento de Justiça, pedindo 100 milhões dólares como indenização por difamação.

Sem admitir culpa, a Trump Management Corporation fez um acordo dois anos depois e prometeu não discriminar negros, porto-riquenhos ou outras minorias. Trump também concordou em enviar listas semanais com as unidades vagas em seus 15 000 apartamentos para a New York Urban League, um grupo de defesa dos direitos civis, e também em permitir que a entidade apresentasse solicitantes qualificados para apartamentos em certas propriedades do grupo.

Três anos depois, o Departamento de Justiça processou a Trump Management Corporation novamente por suposta discriminação contra candidatos negros, dizendo que não havia apartamentos disponíveis.

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Manifestantes do Black Lives Matter em meio a gás lacrimogêneo durante confrontos nos protestos de Charlottesville, Virgínia, 12 de agosto de 2017.

Na verdade, a discriminação contra os negros tem sido recorrente na carreira de Trump

Trabalhadores dos cassinos de Trump em Atlantic City, Nova Jersey, o acusaram de racismo ao longo dos anos. A New Jersey Casino Control Commission multou o Trump Plaza Hotel and Casino 200 000 dólares em 1992 porque os gerentes trocavam os crupiês negros a pedido de certo grande apostador. Um tribunal de recursos estaduais confirmou a multa.

Um relato de primeira pessoa de pelo menos um funcionário negro de um cassino de Trump em Atlantic City sugere que as práticas racistas eram consistentes com o comportamento pessoal de Trump em relação aos funcionários negros.

"Quando Donald e Ivana chegavam, os chefes tiravam todos os funcionários negros do salão", disse Kip Brown, ex-funcionário do Trump's Castle, à revista The New Yorker, um artigo de 2015. "Eram os anos 1980, eu era adolescente, mas lembro disso: eles nos colocavam todos nos fundos".

Trump teria dito que os funcionários negros de seu cassino eram "preguiçosos", de acordo com um livro de 1991 de John O'Donnell, ex-presidente do Trump Plaza Hotel and Casino.

"E não é engraçado. Tenho contadores negros no Trump Castle e no Trump Plaza. Caras negros contando meu dinheiro! Eu odeio isso", teria dito Trump, segundo O'Donnell. "O único tipo de gente que quero contando meu dinheiro são caras baixinhos que usam yarmulkes todos os dias."

"Acho que o cara é preguiçoso", disse Trump sobre um funcionário negro, de acordo com O'Donnell. "E provavelmente não é culpa dele porque a preguiça é uma característica dos negros. É verdade, acredito nisso. Não é nada que eles possam controlar."

Trump disse a um entrevistador em 1997 que "as coisas que O'Donnell escreveu sobre mim provavelmente são verdadeiras", mas em 1999 acusou O'Donnell de ter inventado as declarações.

Trump também enfrentou acusações de renegar os compromissos de contratar negros. Em 1996, 20 negros o processaram em Indiana porque Trump não cumpriu a promessa de contratar principalmente trabalhadores de minorias minoritários para um cassino no lago Michigan.

Ele se recusou a condenar imediatamente os supremacistas brancos que o defendiam

A resposta de Trump ao caos de Charlottesville não foi a primeira vez em que ele hesitou em condenar os supremacistas brancos.

Em três vezes seguidas em 28 de fevereiro, Trump evitou denunciar ao nacionalista branco e ex-líder da KKK David Duke, que recentemente havia dito em seu programa de rádio que votar para qualquer candidato a não ser Trump seria "uma traição para sua herança".

Questionado pelo jornalista Jake Tapper, da CNN, se ele condenaria Duke e diria que não queria voto dele nem de outros supremacistas brancos, Trump afirmou que não sabia nada sobre os supremacistas brancos ou sobre o próprio Duke. Quando Tapper o pressionou, Trump disse que não poderia condenar um grupo que ainda não havia pesquisado.

Em 29 de fevereiro, Trump dizia que, na verdade, tinha condenado Duke e que a única razão pela qual ele não o fez na CNN foi por causa de um "fone de ouvido ruim". O vídeo da entrevista, no entanto, mostra que Trump responde rapidamente às perguntas de Tapper, sem dificuldades aparentes para ouvir as perguntas.

É absurdo pensar que Trump não conhecia os grupos supremacistas brancos nem o apoio às vezes violento que recebia deles. Relatos de grupos neonazistas que se aproximaram de Trump vêm desde agosto de 2015.

Seu clube de fãs de supremacistas brancos inclui o The Daily Stormer, um site de notícias neonazista; Richard Spencer, diretor do Instituto Nacional de Políticas, que visa promover o "patrimônio, identidade e futuro do povo europeu"; Jared Taylor, editor da American Renaissance, uma revista nacionalista nacional baseada na Virgínia; Michael Hill, chefe da Liga do Sul, um grupo supremacista branco e separatista com sede no Alabama; e Brad Griffin, um membro da Hill's League of the South e autor do Hunter Wallace, um blog popular entre os supremacistas brancos.

Um líder da Ku Klux Klan da Virgínia, que apoiou Trump, disse a um repórter da TV local em maio: "O motivo pelo qual muitos membros do Klan gostam de Donald Trump é que ele acredita em muitas das coisas nas quais acreditamos".

Naquele mês, a campanha de Trump anunciou que um dos delegados nas primárias da Califórnia era William Johnson, presidente do nacionalista Partido da Liberdade Americana. A campanha de Trump posteriormente disse que sua inclusão foi um erro, e Johnson retirou seu nome.

Após a eleição, o Instituto Nacional de Políticas, de Spencer, realizou uma reunião de comemoração em Washington. Um vídeo mostra que muitos dos nacionalistas brancos lá reunidos fizeram a saudação nazista depois de Spencer declarar: "Salve o Trump, salve nosso povo, salve a vitória!"

Trump questionou se o presidente Barack Obama nasceu nos Estados Unidos

Muito antes de chamar os imigrantes mexicanos "criminosos" e "estupradores", Trump era um dos principais defensores do "birtherism", a teoria da conspiração racista segundo a qual o presidente Barack Obama não teria nascido nos Estados Unidos e, portanto, seria um presidente ilegítimo. Trump afirmou em 2011 ter enviado pessoas para o Havaí para investigar se Obama realmente nasceu lá. Ele insistiu na época em que os investigadores "não podem acreditar no que estão encontrando".

Obama finalmente levou a melhor sobre Trump, divulgando sua certidão de nascimento fazendo piadas implacáveis com o bilionário no jantar da Associação dos Correspondentes da Casa Branca daquele ano.

Mas Trump continuou a insinuar que o presidente não nasceu no país.

"Não sei onde ele nasceu", disse Trump em um discurso na Conferência de Ação Política Conservadora de fevereiro de 2015. (Mais uma vez, para que fique registrado: Obama nasceu no Havaí).

Em setembro, sob pressão para esclarecer sua posição, Trump finalmente reconheceu que Obama realmente nasceu nos Estados Unidos. Mas ele tentou falsamente culpar Hillary Clinton por ter lançado o boato -- e tentou assumir o crédito por desbaratá-lo.

"Hillary Clinton e sua campanha de 2008 começaram a controvérsia", disse Trump. "Eu acabei com ela."

Ele trata os grupos raciais como monólitos

Como muitos instigadores raciais, Trump muitas vezes responde acusações de intolerância dizendo que na realidade ama o grupo em questão. Mas isso deixa as pessoas pouco à vontade, porque ele ainda está tratando todos os membros do grupo -- todos os seres humanos individuais -- como essencialmente uma única pessoa, intercambiável. Sua linguagem é reveladora: praticamente toda vez que Trump menciona um grupo minoritário, ele usa o artigo definido, como "os hispânicos", "os muçulmanos" e "os negros".

Nesse sentido, as explicações defensivas de Trump são parte de sua difamação das minorias. Ele as transforma em entidades simples e monolíticas, em vez de reconhecer que há tanta variedade entre, muçulmanos, latinos e negros como há entre os brancos.

Como Trump respondeu à indignação gerada por seu comentário de que os imigrantes mexicanos são criminosos e estupradores?

"Vou trazer empregos de volta da China, vou trazer empregos de volta do Japão", disse Trump durante sua visita à fronteira México-Estados Unidos em julho de 2015. "Os hispânicos vão ficar com esses empregos e vão amar Trump.

Os hispânicos vão ficar com esses empregos e vão amar Trump.Donald Trump, julho de 2015

Como Trump respondeu aos críticos de sua proposta de proibir os muçulmanos de entrar nos Estados Unidos?

"Estou fazendo um bem para os muçulmanos", disse Trump à CNN em dezembro passado. "Muitos amigos muçulmanos estão de acordo comigo. Eles dizem: 'Donald, você destacou algo é tão brilhante e tão fantástico'."

Pouco antes de defender a proibição geral da entrada de muçulmanos no país, Trump estava proclamando seu carinho pelos "muçulmanos", discordando da posição de seu adversário Ben Carson, que em setembro de 2015 defendeu que muçulmanos não pudessem ser candidatos a presidente dos Estados Unidos.

"Amo os muçulmanos. Acho que eles são ótimas pessoas", afirmou Trump na época, insistindo que ele estaria disposto a indicar um muçulmano para seu ministério.

Como Trump respondeu às pessoas que o denunciaram por financiar uma investigação sobre o local de nascimento de Barack Obama?

"Tenho um excelente relacionamento com os negros", disse Trump em abril de 2011. "Sempre tive um ótimo relacionamento com os negros."

Mesmo quando abandonou o artigo definido, suas tentativas de elogiar os grupos minoritários que ele tinha difamado anteriormente foram ofensivas.

Basta observar o tweet do Cinco de Mayo:

(Feliz #CincodeMayo! Os melhores bowls de taco são feitos no Trump Tower Grill. Amo hispânicos!)

O ex-candidato republicano à Presidência e governador da Flórida Jeb Bush ofereceu um bom resumo de tudo o que estava errado com o comentário de Trump.

"É como comer uma melancia e dizer: 'amo os afro-americanos'", brincou Bush.

Em uma tentativa aparente de conquistar o apoio dos eleitores negros e latinos nos últimos meses da campanha, Trump voltou a usar estereótipos. No primeiro debate presidencial, em setembro, Trump afirmou que afro-americanos e latinos das cidades estavam "vivendo no inferno" por causa da violência e da pobreza em seus bairros. No mês anterior, falando para um público branco, Trump perguntou "que diabos [os eleitores negros] têm a perder" votando nele.

O tratamento que Trump destinou a April Ryan, correspondente de longa data da Casa Branca, durante uma entrevista coletiva em fevereiro deixou muitos se perguntando se Trump acredita que todos os negros são amigos entre si.

Quando Ryan, uma repórter negra das American Urban Radio Networks, perguntou se o presidente faria reuniões com os grupos de deputados negros do Congresso para ajudar a elaborar sua política de desenvolvimento urbano, Trump pediu que a jornalista o apresentasse aos parlamentares negros.

"Bem, eu faria. Te digo mais, você quer marcar a reunião?", perguntou Trump. "Você quer marcar a reunião? Eles são seus amigos?"

"Não, eu sou apenas repórter", respondeu Ryan.

Ele também falou mal dos nativos americano

Em 1993, Trump queria abrir um cassino em Bridgeport, Connecticut, que competiria com um pertencente à Nação Mashantucket Pequot, uma tribo nativa americana local. Ele disse ao subcomitê de Assuntos Nativos Americanos da Câmara que os Pequot "não parecem índios para mim... Eles não parecem índios para os índios".

Trump então detalhou essas afirmações, descobertas ano passado no Hartford Courant, afirmando – sem provas -- que a máfia tinha se infiltrado nos cassinos indígenas.

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Na década de 1980, Donald Trump era muito mais jovem, mas tão racista quanto hoje.

Ele incentivou a turba que resultou na prisão injusta dos Cinco do Central Park

Em 1989, publicou anúncios de página inteira em quatro jornais da área da cidade de Nova York que pediam o retorno da pena de morte em Nova York e a expansão da autoridade policial em resposta ao caso de uma mulher que foi espancada e estuprada enquanto corria no Central Park.

"Eles deveriam ser forçados a sofrer e, quando matam, devem ser executados por seus crimes", escreveu Trump, referindo-se aos atacantes do Central Park e outros criminosos violentos. "Quero odiar esses assassinos e sempre os odiarei."

A indignação do público com o crime do Central Park, em um momento em que a cidade estava lutando com altos índices de criminalidade, levou à condenação injusta de cinco adolescentes de cor, que ficaram conhecidos como os Cinco do Central Park.

As condenações foram revogadas em 2002, quando provas de DNA mostraram que eles não foram os autores do crime – os cinco já tinham passado anos na cadeia. Hoje, o caso é considerado um alerta para processos criminais politizados.

Trump, no entanto, ainda acha que os cinco são culpados.

Ele tolerou o espancamento de um manifestante da Black Lives Matter

Em uma evento de campanha de novembro de 2015 no Alabama, partidários de Trump atacaram fisicamente um manifestante negro depois que o homem começou a gritar

"Black Lives Matter" (vidas negras importam). O vídeo do incidente mostra os agressores chutando o homem no chão.

No dia seguinte, Trump deu a entender que a agressão era justificada.

"Talvez [o manifestante] merecesse tomar uma sova", brincou ele. "O que ele fez foi absolutamente nojento."

(Manifestante negro em evento de Trump no Alabama é empurrado, derrubado, esmurrado e chutado.)

A atitude desdenhosa de Trump em relação ao manifestante é parte de um padrão maior e preocupante de instigação da violência contra manifestantes em eventos de campanha, onde pessoas de cor eram alvo de hostilidades.

Trump também indicou que ele acredita que todo o movimento Black Lives Matter não tem queixas políticas legítimas. Ele fez referência a isso em entrevista com a revista do The New York Times, na qual descreveu Ferguson, Missouri, como um dos lugares mais perigosos da América. O pequeno bairro de St. Louis não está nem entre as 20 municipalidades com maiores índices de criminalidade nos Estados Unidos.

Ele descreveu como "apaixonados" os apoiadores que espancaram um sem-teto latino

A incitação racial de Trump já inspirou crimes de ódio. Dois irmãos presos em Boston, em agosto de 2015, por espancar um sem-teto latino citaram a mensagem antiimigração de Trump para explicar o crime.

"Donald Trump estava certo -- todos esses ilegais têm de ser deportados", disse um dos homens aos policiais.

Trump nem sequer se preocupou em se afastar deles. Em vez disso, ele sugeriu que os homens eram bem intencionados e simplesmente se deixaram levar.

"Digo que as pessoas que me apoiam são muito apaixonadas", disse Trump. "Elas amam este país e querem que este país volte a seja maravilhoso. Elas são apaixonadas."

Ele estereotipou judeus e compartilhou uma imagem antissemita criada por supremacistas brancos

Quando Trump se dirigiu à Coalizão Judaica Republicana, em dezembro passado, ele tentou mostrar empatia com o público invocando o estereótipo do judeu como empresário talentoso e astuto.

"Sou um negociador como vocês", disse Trump, promovendo seu livro 1987, Trump: A Arte da Negociação.

"Tem alguém nesta sala que não renegocie acordos?", disse Trump. "Talvez mais do que em qualquer outra sala em que eu tenha falado.".

Essa nem foi a coisa mais ofensiva que Trump disse a audiências judaicas. Ele deu a entender que tinha poucas chances de ganhar o apoio do grupo republicano judeu, porque sua fidelidade não podia ser comprada com doações de campanha.

"Vocês não vão me apoiar, porque eu não quero seu dinheiro", disse ele. "Vocês querem controlar seus próprios políticos."

Ironicamente, Trump tem muitos judeus em sua família próxima. Sua filha Ivanka converteu-se ao judaísmo em 2009 antes de se casar com o magnata imobiliário Jared Kushner. Trump e Kushner criam seus três filhos em uma casa que observa os preceitos da religião.

Em julho, Trump tuitou uma imagem antissemita que mostrava uma foto de Hillary Clinton diante de um cenário de notas de cem dólares e uma estrela de seis pontas ao lado de seu rosto, com as palavras: "Candidata mais corrupta da história!"

HUFFPOST

O símbolo religioso foi cooptado pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, quando os judeus foram obrigados a costurá-lo em suas roupas. Usar o símbolo sobre uma pilha de dinheiro é descaradamente antissemita e reafirma estereótipos detestáveis ​​da suposta ganância judaica.

Mas Trump insistiu que a imagem era inofensiva.

"O distintivo de xerife -- que está disponível [no software] da Microsoft como "formas" -- se encaixa no tema da corrupta Hillary e foi por isso que o selecionei", disse ele em um comunicado.

O site Mic, no entanto, descobriu que a imagem foi criada pelos supremacistas brancos e apareceu em um fórum neonazi mais de uma semana antes de Trump compartilhá-lo. Além disso, uma marca de água na imagem levou a uma conta no Twitter que regularmente publica memes políticos racistas e sexistas.

Ele trata os partidários negros como símbolos para dissipar a idéia de que ele é racista

Em uma aparição de campanha na Califórnia, em junho, Trump se vangloriou por ter um defensor negro no público, dizendo: "Olhem meu afro-americano aqui".

"Olhem para ele", continuou Trump. "Você é o maior?"

Trump depois sugeriu que a mídia esconde sua popularidade entre os eleitores negros, não observando com atenção o público de seus comícios.

"Temos um tremendo apoio afro-americano", disse ele. "O motivo é que vou trazer empregos de volta ao nosso país."

Trump obteve apenas 8% do voto afro-americano, de acordo com a pesquisa de boca-de-urna da NBC News.

Pode não ser surpreendente que Trump tenha gerado tanta animosidade racial na eleição do ano passado, dada a história da família. Seu pai, Fred Trump, foi objeto de letra do cantor folclórico Woody Guthrie, que morou dois anos em um prédio de propriedade de Trump-pai: "Eu suponho / Que o Velho Trump saiba / Quanto ódio racial / Ele desperta / No sangue dos corações humanos".

E, no outono passado, uma notícia de 1927 foi resgatada pelo site Boing Boing, revelando que Fred Trump fora preso naquele ano após uma revolta da Ku Klux Klan no Queens. Não está claro exatamente o que o velho Trump estava fazendo lá ou qual o papel que ele pode ter desempenhado na confusão.

Donald Trump, por sua vez, negou categoricamente (exceto quando ele nega ambiguamente) que qualquer coisa do tipo tenha acontecido.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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