MULHERES

Não precisamos de uma James Bond mulher. Precisamos de personagens femininas mais originais. Ponto.

É ótimo ver uma mulher num típico papel masculino. Mas vê-la arrebentar num papel feito para ela é ainda melhor.

16/08/2017 00:40 -03 | Atualizado 16/08/2017 19:21 -03
Ilustração: Gabriela Landazuri Saltos/HuffPost Photos: Universal Pictures BBC Warner Brothers

Há algumas semanas, soubemos que Daniel Craig aceitou fazer o papel de James Bond na saga de 007 pela quinta vez. A notícia veio depois que Craig voltou atrás em seu desejo de pilotar novamente o Aston Martin do espião britânico – primeiro ele disse que preferia "cortar os pulsos" a fazer outro filme de Bond, mas depois afirmou que sentiria muita falta da série se a deixasse.

Enquanto Craig meditava sobre o retorno, começou a rolar na internet um burburinho sobre quem poderia substituí-lo. Seria Idris Elba, estrela de The Wire, que sabe marcar presença num terno de três peças? Ou talvez Tom Hiddleston, astro de Thor e de um namoro fugaz com a cantora Taylor Swift?

À medida que continuavam as especulações sobre o elenco de Bond, começaram a pipocar também rumores sobre quem seriam as futuras Bond girls. A mídia apontou mulheres como Priyanka Chopra e Cara Delevingne como potenciais candidatas. Claro que ambas se encaixariam bem na impressionante lista de atrizes que brilharam na franquia. Mas, quando lhes perguntaram se fechariam contrato para encarnar uma Bond girl – geralmente uma donzela em perigo que não resiste ao charme e aos atributos sexuais do agente secreto –, as duas tinham outros planos.

"Sempre disse que preferiria interpretar Bond", afirmou Chopra ao ator e apresentador James Corden no início do ano. "Espero ainda poder ver personagens icônicos como esse interpretados por mulheres... mesmo que não seja eu." (Ano passado, numa matéria de capa da Complex, ela deu uma resposta mais contundente quando questionada se faria o papel de uma garota Bond. "Não, que se dane – quero ser Bond.")

Delevingne expressou um sentimento parecido recentemente em entrevista ao programa Breakfast Show, da BBC Radio 1. "Todo mundo fala que meu destino é ser uma Bond girl, mas eu digo: 'Não, estou tentando ser James Bond.'" E completou: "É hora de uma Doctor Who mulher e da versão feminina de James Bond."

Delevingne tem um bom argumento. Se Doctor Who pode inovar a ponto de escalar uma mulher como protagonista, a saga de Bond não pode fazer o mesmo? Quando Jodie Whittaker foi anunciada como a primeira Doutora na história da série, a maioria das reações foi positiva. Muitos, incluindo a própria Whittaker, estavam ansiosos para ver a franquia assumindo uma perspectiva mais inclusiva de gênero.

"É mais do que uma honra interpretar o Doutor", disse Whittaker à BBC. "Significa lembrar de todas as pessoas que já fui e, ao mesmo tempo, incorporar tudo o que o personagem representa: esperança. Mal posso esperar."

Por outro lado, alguns (rotulados rapidamente como "man babies", ou homens imaturos) não puderam digerir o fato de que uma mulher assumiria esse papel histórico. (Houve um protesto semelhante quando Kristen Wiig, Melissa McCarthy, Leslie Jones e Kate McKinnon foram apresentadas como as novas Caça-Fantasmas). Whittaker precisou inclusive pedir aos fãs da série que não tivessem medo do seu gênero.

Ok, não nos entenda mal – nós estávamos entre as pessoas entusiasmadas com a escolha de Whittaker. Esse novo papel altera as normas da série e nos deixa (um pouco) mais perto da igualdade de gênero no mundo do entretenimento. Some-se a isso o fato de que Whittaker é uma grande atriz, com alguns papéis incríveis na bagagem (lembra de Broadchurch?), e não temos dúvida de que fará uma Doutora bem original. Essa é justamente a maravilha dessa história: como ela é a primeira mulher no papel, pode torná-lo realmente único.

Embora seja ótimo ver mulheres, mesmo que poucas, recebendo papéis antes reservados a homens, não podemos deixar de dizer que seria tão ou mais satisfatório ver essas mulheres brilhando em papéis que fossem interessantes e também originais. Papéis que não necessariamente exijam assumir o lugar de outro ator.

Não que filmes estrelados por mulheres, em especial no gênero ação, sejam algo completamente novo e radical. Vimos diversas outras mulheres fortes, ainda que em sua maioria brancas, assumindo o comando na tela. A série Alien nos deu Sigourney Weaver como Ellen Ripley (atuação pela qual foi indicada ao Oscar); Star Wars nos apresentou à Princesa Leia, que depois se tornaria a General Leia; também vimos a espadachim Uma Thurman arrasando inimigos em Kill Bill; e como não lembrar de Angelina Jolie na pele de Lara Croft em Tom Raider?

Mais recentemente, fomos agraciados com a personagem de Charlize Theron, a sensual e altamente qualificada agente do MI-6 Lorraine Broughton, em Atômica (dirigido por David Leitch). Após a estreia do trailer, apelidaram o filme de "a James Bond feminina que estávamos esperando" e "a versão feminina de John Wick que você não sabia que precisava".

Mas Atômica é mais que isso. Apesar da trama complicada, o longa traz uma das melhores sequências de ação do cinema este ano, na qual Theron não finge lutar como homem. Em vez disso, ela distribui golpes como a fera que é, plenamente consciente de suas habilidades e sua capacidade de derrotar os rivais. Mais importante: a personagem de Theron (embora baseada numa novela gráfica) nunca ganhara vida na tela antes. Não é a versão feminina de um personagem masculino – é inigualável.

Como escreveu John Orquiola no ScreenRant, "numa era de filmes em que o público é sujeito a incessantes sequências, remakes, adaptações e reformulações dos atuais ícones do cinema, nunca foi tão importante para os cineastas criar e cultivar novos personagens que possam se tornar os próximos ícones."

Além de diretores que criem personagens mais originais de modo geral, precisamos de diretores que criem protagonistas mais originais para mulheres. Precisamos vê-las representadas em papéis que extrapolem, por exemplo, o clichê da atração romântica.

Atômica não bateu recordes de bilheteria, mas conseguiu a respeitável cifra de 18,3 milhões de dólares nos EUA durante o fim de semana de estreia, o que é bastante considerando o orçamento de 30 milhões do filme. O longa também foi o quarto maior lançamento da Focus Features, batendo John Wick (que marcou a estreia de Leitch na direção) em seu primeiro fim de semana. Como diz a IGN , mesmo que os números sejam ajustados pela inflação, "John Wick" não passaria dos 15 milhões de dólares.

Acrescente a isso os recentes sucessos de filmes como Estrelas Além do Tempo e Mulher-Maravilha. O primeiro inspirou um guia curricular com lições para a sala de aula e arrecadou mais dinheiro nos EUA que o queridinho do Oscar "La La Land". Já o segundo tornou-se o maior lançamento nacional de uma diretora mulher e o filme de maior bilheteria do verão norte-americano, fazendo inúmeras pessoas chorarem de alegria. Esses exemplos mostram que o público quer filmes com protagonistas femininas fortes.

Embora devagar, os estúdios também estão percebendo isso. Uma pesquisa do Centro de Estudo das Mulheres na Televisão e no Cinema concluiu que elas estrelaram 29% das maiores bilheterias de 2016. Um aumento de 7% em relação a 2015. (Isso, porém, não muda o fato de que Hollywood ainda tem um enorme problema de inclusão. Um estudo da Escola Annenberg de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia concluiu que, durante a década passada, pouco mudou em termos de diversidade – gênero, etnia, entre outros).

Séries como "Jessica Jones" e G.L.O.W, da Netflix, e o anunciado filme Capitã Marvel, da Marvel, também indicam que há espaço para mulheres em Hollywood além dos papéis estereotipados e muitas vezes unidimensionais que lhes são oferecidos.

Portanto, de novo, embora não haja nada de errado em ver uma mulher assumindo um papel tipicamente "masculino", é muito melhor ver uma mulher arrebentar num papel que foi feito para ela.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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