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Para onde vão a história e a identidade de um morador de rua?

A vida na rua tem um marcador de tempo diferente, definido pelas perdas, pela indiferença e pelo sofrimento.

14/08/2017 20:56 -03 | Atualizado 14/08/2017 20:58 -03
Divulgação/Thainá Rossatti
As subjetividades de moradores de rua vão muito além do clichê "está na rua porque quer".

Na rua tem gente que tem história. Mas não a gente que passa apressada pelas calçadas, ou que parece estacionar no asfalto, olhando ao redor e sendo observada de volta.

São aqueles que chamam a rua de lar.

São os desvios ou tropeços na calçada para uns, a sujeira para outros.

Gente que tem um passado, vive o presente com dificuldade e cujo futuro anda comprometido pela falta de abrigo e pela marginalização. Debaixo do viaduto ou no canto da praça, o morador tem um desafio ainda mais básico: ser alguém.

"Talvez a grande solidão vivida pelo morador de rua seja o lugar de invisibilidade e indiferença que ele ocupa socialmente. Na nossa cultura, ele supostamente é a representação daquilo a ser evitado, do perigo do qual é preciso manter distância", relata ao HuffPost Brasil a psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP Virginia Torrecillas de Ulhoa.

Pode parecer improvável, mas é possível continuar invisível mesmo quando a estatística aponta para a existência de quase 16 mil moradores de rua em São Paulo, segundo o último Censo da População em Situação de Rua, com dados de 2015, realizado pela Prefeitura.

A massa de pessoas revela um problema social de longa data e agravado – um aumento de 82,6% em 15 anos –, mas entre essa coletividade tão frequentemente ignorada há histórias singulares, motivos particulares e destinos nada unânimes. Ainda são pessoas com uma história para chamar de sua.

Tem o senhorzinho sempre acompanhado de seu cachorro, a senhorinha e sua boneca, o rapaz barbudo com um radinho de pilha, as crianças reunidas.

"A vida nas ruas é muito variada e complexa, assim como a população em situação de rua. Existem diferentes grupos e subjetividades; entre eles, os solitários, que são uma minoria", afirma ao HuffPost Brasil o psicanalista Jorge Broide e doutor em Psicologia Social pela PUC-SP.

Por isso não cabem generalizações ou clichês como "está na rua porque quer". Na rua, a lei que prevalece é a do mais forte, o que deixa pouco espaço para a vulnerabilidade.

Ninguém vai para a rua porque quer. É o último grau de exclusão e de ruptura com o mundo que o circunda, o que leva à desumanização do sujeito, que sofre terrivelmente.Jorge Broide, PUC/SP

Broide coordena a Pesquisa Social Participativa Pop Rua, que desde 2015 treina moradores de rua para entrevistar quem vive sem um teto em São Paulo. Os depoimentos vão guiar a elaboração de uma política pública municipal.

Divulgação/Cristina Zaia

Apesar de ser bastante heterogênea, a população de rua tem histórias de vida que se repetem, marcadas por privações e inúmeras situações traumáticas, ressalta Carina Braga, psicanalista e coordenadora de Projetos no Núcleo de Psicanálise e Instituições do CEP (Centro de Estudos Psicanalíticos).

Ela e Ulhoa trabalham como supervisoras na ONG Nupas (Núcleo de Psicanálise e Ação Social), onde têm contato frequente com o sofrimento de moradores de rua. Os atendimentos são realizados em instituições voltadas à população em situação de risco e vulnerabilidade social.

Os relatos, na maior parte dos casos, trazem situações de abandono, agressões sofridas pelos pais, condições precárias de moradia, abuso sexual e experiência precoce com grandes perdas e com a morte.Carina Braga, coordenadora de Projetos do CEP

Esses acontecimentos acabam pautando a memória da pessoa, Broide explica. Com a ruptura dos laços e a condensação de toda a vida em um só lugar, ocorre uma alteração da noção de espaço e tempo.

"Isso é muito percebido quando se pergunta a alguém que está na rua, seja criança, adulto ou idoso: 'Há quanto tempo você está nas ruas?' É comum que a mesma pessoa diga uma data diferente a cada vez. A noção de tempo se embaralha e ele ou ela muita vezes diz: 'foi quando me separei, ou quando minha mãe morreu, ou quando mudei de cidade, ou quando perdi o emprego'."

Divulgação/Sofia Terçarolli

A motivação, porém, não é única; como um copo cheio de água que se transborda. "É importante entender que ninguém vai para a rua pela ruptura de um único laço. O sujeito é levado a essa situação a partir de uma ruptura sucessiva de vínculos nas diferentes áreas da vida, tais como a família, o trabalho, a comunidade em que vive e a vida afetiva mais íntima."

Retornar o morador de rua para sua família costuma ser o objetivo das políticas públicas, mas Broide faz uma ressalva quanto ao trama que isso provoca, justamente porque os vínculos familiares tiveram uma quebra – e ela é bastante dolorosa. "É um grave erro, na medida em que aumenta enormemente o sofrimento."

Com tantos vínculos perdidos, o sujeito assume uma posição defensiva, complementa Braga. A dificuldade de fazer novos laços é frequentemente sentida nos atendimentos e nas iniciativas de reinserção social. A solidão e a invisibilidade precarizam ainda mais os laços. A angústia é muito grande e muitas vezes a única forma de suportar a dor são o álcool, as drogas e a violência.

"A precariedade vivida nas ruas afeta seriamente o sujeito na medida em que ele fica exposto a fortes situações de desamparo, violência, assistencialismo, preconceito, miséria econômica e psíquica", enumera o psicanalista Jorge Broide.

Quando se perde a identidade e a função perante a vida, fica difícil ter expectativas quanto ao futuro. Sobreviver ao presente se torna uma disputa reatualizada a cada dia.

Segundo Carina Braga, do CEP, o sujeito passa a orientar suas ações em torno da vida cotidiana e do consumo imediato, seja de comida, de droga ou do que mais necessitar. "Se não há futuro a ser construído, também não há sentido em buscar uma saída para aquela condição."

Enquanto a marginalização vai se tornando uma certeza, o morador de rua sente que sua imagem provoca sentimentos variados, explica a psicanalista. Fingir que não está ali se torna uma estratégia de existência. Assim, ele vai se tornando invisível. "É uma perspectiva desumanizadora, em que o valor da vida passa a ser negligenciado", lamenta.

Uma das reações recebidas é o medo. Aos olhos de parte da população e de alguns governantes, o morador de rua é visto como uma ameaça. Mas, de acordo com Braga, há uma relação equivocada entre a imagem do morador de rua e a criminalidade. "É um estigma que o coloca como alguém que poderia estar em outra condição, mas não quer."

Pensar na condição vivida pelos moradores de rua como uma "preferência" deles implica considerar viável uma rotina baseada em buscas ininterruptas: por alimento, por água, por proteção do frio, por uma trégua do sol, por um lugar para repouso, por um banheiro, por atenção, por um olhar, pela mínima sensação de que vai ficar vivo(a). "Estar na rua significa estar alerta o tempo todo. Os moradores de rua criam uma intensa defesa contra a dor, o medo, a perda e a insegurança. Isso permite uma adaptação a situações inimagináveis", ressalta Braga.

Divulgação/Thainá Rossatti

O morador de rua adapta-se à solidão, por exemplo, com amizades desenvolvidas ali mesmo. "A única opção do morador é tratar de refazer esses laços no espaço público, todos na mesma hora e no mesmo lugar. De alguma maneira, isso o leva a uma relação semelhante àquela que, quando bebê, tinha com a mãe, que resolve todas as necessidades e desejos de uma criança no mesmo espaço e tempo", observa Broide.

Depender de um outro é uma característica humana presente desde o nascimento, por meio dos cuidados que um bebê requer para sua sobrevivência, até o fim da vida, explica a psicanalista Virginia Torrecillas de Ulhoa. "Estamos constantemente nos agrupando e na rua isso não é diferente."

A diferença são as leis e punições próprias, pois as regras são necessárias para intermediar as relações do grupo, segundo a especialista. "A rua passa, então, a ser o espaço que permite alguma identidade", diz Braga.

No lar da errância, quando a presença de moradores de rua se faz reconhecida, é frequente eles colherem aversão ou piedade. Ou sofrerem a generalização típica das coletividades, pela qual o comportamento de um passa a definir a impressão que se tem de todos – e vice-versa.

Se singularidades desaparecem ou são eclipsadas, a empatia fica ainda mais próxima de um ideal intangível, em vez de ser exercida na prática. Enxergar o humano mergulhado em desespero e em fragilidade é angustiante, mas mostra a dimensão da solidariedade. Quando um morador de rua fala e tem sua voz ouvida, se torna mais próximo da sociedade que antes só significava exclusão.

"Um trabalho de escuta nas ruas pode ajudar a pessoa a resgatar memórias e produzir sentidos subjetivos que a permitam viver com mais dignidade e a restabelecer a sua condição de sujeito", relata Braga.

Para alguns, ali está mais um morador de rua. Para outros, um amigo, um pai, uma mãe, um irmão, um cidadão com nome e biografia.

* As fotos utilizadas nesta reportagem são do projeto Entrega por SP, uma iniciativa sem fins lucrativos que todo mês vai às ruas da capital entregar doações e conversar com os moradores de rua. Conheça mais aqui.

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