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O que está acontecendo no Iraque neste momento pode mudar o Oriente Médio para sempre

Um referendo próximo sobre a independência curda tem implicações para a Turquia, Síria e Irã.

14/08/2017 20:02 -03 | Atualizado 14/08/2017 20:16 -03
SAFIN HAMED VIA GETTY IMAGES
Iraquiano imprime bandeira do Curdistão.

KIRKUK, Iraque ― "Kirkuk kurdistane, Peșmergê nâv dane", berram os alto-falantes. "Kirkuk é Curdistão, os peshmergas chegaram."

Somos parados por combatentes peshmergas, as forças militares da região autônoma curda no Iraque, em um posto de checagem de segurança ao norte de Kirkuk. O termômetro do carro mostra que a temperatura esta tarde chega a quase 48 graus Celsius. Os combatentes carregam fuzis AK-47 e educadamente pedem nossos documentos de identidade. Bandeiras curdas foram hasteadas em Kirkuk.

A cidade fica a uma hora de carro de Irbil, capital da região autônoma curda no norte do Iraque. Kirkuk nem sempre foi curda; oficialmente, ainda não é. A luta sobre seu futuro exemplifica as mudanças turbulentas pelas quais a região curda passou na batalha contra o autodenonimado Estado Islâmico. Essas mudanças podem afetar não apenas o Iraque, mas todo o Oriente Médio, possivelmente deixando mais conflitos em sua esteira.

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Forças de segurança curdas iraquianas patrulham uma rua na cidade de Kirkuk, no Iraque.

Os curdos querem independência, mas estão divididos

Os curdos do Iraque devem ir às urnas em 25 de setembro, num pleito que o governo independente curdo espera que possibilite a concretização do sonho secular de um Estado curdo próprio.

Mas o plano para a criação do Estado é controverso. O governo iraquiano em Bagdá contesta a reivindicação de áreas como Kirkuk, capital petrolífera do Iraque, pelo governo curdo.

Os próprios curdos estão divididos. O presidente curdo, Masud Barzani, está ao centro da controvérsia.

Barzani lidera o governo independente desde 2005; supostamente, deveria deixar o poder em 2013. Ele estendeu seu mandato até 2015, citando preocupações de segurança, e desde então continua no poder sem qualquer legitimidade constitucional. Muitos curdos dizem que só pode haver independência se Barzani abrir mão do poder.

As divisões são visíveis mesmo a apenas uma pequena distância de Irbil. Enquanto a capital curda é repleta de cartazes mostrando Barzani, com o keffiyeh característico vermelho e branco na cabeça, a alguns quilômetros a leste a cena é muito diferente. Em Sulaimaniyya, por exemplo, o que se vê são imagens de Dschalal Talabani, líder do partido rival PUK (União Patriótica do Curdistão).

Entre 1994 e 1997 o PUK travou uma guerra civil com o partido de Barzani, o PDK (Partido Democrático do Curdistão). Muitos seguidores do PUK rejeitam Barzani completamente. Não é uma condição prévia favorável a um Estado independente estável e governado.

A expectativa é que o referendo resulte em um "sim" decisivo em favor da independência, mas muitos curdos são céticos quando às chances de o pleito proporcionar estabilidade. "Eu não vou votar em ninguém", diz o guia turístico Karwan Waheed, em Irbil, enquanto passamos de carro por uma imagem gigante de Talabani. "Mas vou votar pela independência."

A votação pode ser decisiva para o futuro de Barzani. Analistas dizem que qualquer resultado abaixo de 95% em favor da independência seria visto como revés para o líder, um homem que há décadas luta pela criação de um Estado curdo independente.

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Masud Barzani, presidente do Governo Regional Curdo Iraquiano, em uma cerimônia em julho.

Um Estado cercado por inimigos

Por mais forte possa ser o apoio interno à criação do Estado curdo, a desaprovação em países vizinhos será igualmente forte.

Apesar de ter laços estreitos com o governo de Barzani, a Turquia quer impedir o referendo a qualquer custo. Também o Irã se sente ameaçado pelos esforços de independência dos curdos. E mesmo os Estados Unidos, o mais importante aliado das forças curdas na luta contra o Estado Islâmico, expressa ceticismo em relação ao referendo.

Turquia e Irã temem que uma vitória da independência curda no Iraque possa fortalecer as ambições nacionais das populações curdas que vivem em suas próprias fronteiras, intensificando os conflitos entre os curdos e os governos centrais de Ancara a Teerã.

A guerra na Síria exacerbou esses medos. Combatentes das YPG (Unidades de Proteção Popular), milícias formadas majoritariamente por curdos na Síria, controlam grandes trechos do país perto da fronteira turca. A área se estende de Afrin até a fronteira do Iraque, atravessando Manbij e Kobani, e o controle das YPG só é interrompido por um pequeno corredor controlado por milícias.

O governo turco vem prometendo há semanas promover uma "faxina" na Síria. O presidente Recep Tayyip Erdogan quer a todo custo evitar a criação de uma área sob influência contínua curda tão perto da fronteira da Turquia. Consta que milhares de soldados turcos estariam preparados para expulsar os combatentes das YPG da região de Afrin.

O governo iraniano tampouco vai tolerar uma independência curda. "Não esperem nada de positivo de nossa parte", disse o governo iraniano em comunicado aludindo ao referendo.

Uma recompensa merecida?

Quando percorremos o Curdistão, descobrimos que dois lugares no Iraque são cruciais para compreender o argumento dos curdos de que a independência é a recompensa que eles merecem.

O primeiro lugar é Mosul, a cidade libertada recentemente após passar anos sob controle do Estado Islâmico. Muitos curdos estão altamente indignados pelo fato de o Exército iraquiano se dizer vitorioso por ter expulsado a organização terrorista da cidade.

Eles dizem que foram combatentes curdos que libertaram muitos dos subúrbios de Mosul dos combatentes do EI, possibilitando a entrada triunfal do Exército iraquiano mais tarde. Eles criticam os soldados iraquianos por terem fugido de Mosul quando o Estado Islâmico ocupou a cidade, no verão de 2014. "O Exército iraquiano abandonou Mosul em 2014 praticamente sem opor resistência", disse Waheed, o guia turístico. "Sem os peshmergas, Mosul ainda estaria nas mãos do Estado Islâmico."

Assim, muitos curdos enxergam Mosul como símbolo, como um verso adicional de seu argumento reiterado de que "isto é nosso por direito".

Uma história de tortura e perseguição

O segundo local fica em Sulaimaniyya, a cidade que visitamos a poucos quilômetros de Irbil.

Depois de um soldado peshmerga cordial nos deixar passar, caminhamos até um complexo cinzento, em formato de uma caixa, situado ao lado de um dos parques da cidade. As paredes do antigo presídio de Amna Suraka estão crivadas de buracos de bala.

Combatentes peshmergas capturaram a construção dos homens de Saddam Hussein em março de 1991. O presidente iraquiano usava o presídio como QG de seu serviço secreto e local de torturas. O prédio é um memorial solene à campanha de Anfal travada por Saddam Hussein – seus esforços para exterminar os curdos, yazidis e assírios do norte do Iraque entre 1986 e 1991.

"Meu nome é Mushin", lê uma inscrição rabiscada numa das paredes da prisão. "Capturado em um canto desta cela. Fui preso em casa. Eu tinha 15 anos; mudaram minha idade para 18 para poderem me executar. Falei a meus pais: Mãe, Pai, vou ser executado pelo baathismo. Não nos veremos nunca mais."

Mushin foi um dos milhares de curdos torturados e assassinados dentro dessas celas.

A campanha de Anfal é apenas um capítulo dos muitos anos de perseguição e discriminação sofridos pelos curdos. Eles reivindicam justiça e um lugar próprio onde possam ficar em segurança e ser independentes – para sempre.

Mas resta a ver se um Estado curdo poderia lhes proporcionar isso.

Na realidade, a zona autônoma curda é dependente – de Bagdá e Ancara, o parceiro econômico mais importante da região. O Curdistão enfrenta uma crise comercial, na medida em que o preço do óleo cru caiu, as doações de Bagdá rarearam e o combate ao Estado Islâmico consome valores enormes de dinheiro.

A crise se reflete no horizonte urbano de Irbil. Várias grandes obras de construção iniciadas anos atrás estão paradas. Vistos de longe, os edifícios altos sem paredes parecem estacionamentos gigantes.

Mas os curdos não perdem a esperança.

"A construção vai recomeçar em breve", fala Waheed, sorrindo. "Depois que os peshmergas tiverem derrotado o Estado Islâmico."

*Este artigo foi publicado primeiramente pelo HuffPost Alemanha.

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