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Como o que aconteceu em Charlottesville era inevitável

A cidade está se recuperando da violência, e especialistas dizem que a próxima manifestação de nacionalistas brancos pode ser ainda pior.

14/08/2017 16:54 -03 | Atualizado 14/08/2017 16:55 -03
Manifestantes carregam bandeiras nazistas e confederadas em Charlottesville, Virgínia.
Andy Campbell

CHARLOTTESVILLE, Virgínia – O chão em volta da estátua do general confederado Robert E. Lee, no Parque da Emancipação, estava cheio de evidências do cultivo da extrema direita pelo presidente Donald Trump: cartazes com mensagens como "A mídia judaica vai cair", "Os goyim sabem" e "Apoiamos o presidente Donald Trump".

Horas antes, supremacistas brancos e seus adversários lutaram a céu aberto. O som dos gritos estava misturado com o som dos tossidos, pulmões cheios de gás pimenta. Bombas de gás lacrimogêneo e pedras e garrafas d'água e sacos de fezes voavam pelo ar. As calçadas tinham manchas de sangue.

A algumas quadras de distância, no cruzamento das ruas 4 e Water, a polícia coletava evidências no local em que o supremacista branco James Alex Fields Jr., 20, lançou seu carro contra os manifestantes antifascistas. Uma assistente jurídica de 32 anos, Heather Heyer, morreu e pelo menos 19 pessoas ficaram feridas. A polícia retirava as barricadas de metal da rua enquanto um helicóptero sobrevoava a região. Os bares próximos, em geral cheios numa noite de sábado, estavam fechados. Um cartaz "Sempre antifacista" – derrubado ou descartado durante os momentos de caos -- estava na calçada.

"Vamos voltar a Charlottesville." Eli Mosley, um dos organizadores do protesto fascista.

Enquanto isso, na casa de um amigo, Eli Mosley, 25, deixa uma festa com seus colegas supremacistas brancos do grupo da "direita alternativa" Identity Europa para conversar com o The Huffington Post pelo telefone. Mosley tinha passado o dia gritando com milhares de outros brancos, carregando bandeiras do Partido Nazista e dos Confederados e protestando contra a retirada da estátua do general Lee do parque. A Anti-Defamation League, entidade que combate o anti-semitismo e a intolerância, disse que a manifestação de Charlottesville foi a maior reunião de supremacistas brancos nos Estados Unidos em mais de uma década.

"Estamos nos sentido muito bem agora", disse Mosley. "Vemos [a situação] como um movimento pelos direitos civis. Estamos defendendo os brancos e seus direitos, pois logo seremos minoria neste país. Hoje foi um marco, que vai nos levar para a próxima fase. A participação foi muito grande."

"Vamos voltar a Charlottesville", disse ele, em tom desafiador.

PAUL J. RICHARDS via Getty Images
People receive first aid after a car drove into a crowd of protesters in Charlottesville, Virginia.

Embates como o de Charlottesville são um fenômeno da era Trump. No último ano, o The Huffington Post vem acompanhando os nacionalistas brancos em sua guerra crescente com seus opositores, de Berkeley e Portland a New Orleans e Gettysburg. Em maio, também em Charlottesville, nacionalistas brancos marcharam com tochas e declamaram slogans nazistas. Em todos esses conflitos, os dois lados estão cada vez mais violentos e armados.

Eli Mosley é um integrante típico da "direita alternativa" – a mais recente encarnação do racismo organizado nos Estados Unidos --, que vem crescendo exponencialmente desde o anúncio de que Donald Trump seria candidato à Presidência. Ele é jovem, domina as mídias sociais e soube reunir milhares de supremacistas brancos no evento intitulado "Unir a Direita".

Anos atrás, Mosley e seus aliados se consideravam à margem da política americana. Agora, com Trump na Casa Branca, eles acham que suas opiniões estão ganhando mais atenção e até mesmo chegando ao mainstream.

(É isso mesmo. Estão gritando: 'Fodam-se, viados'. 2017.)

Em uma declaração no sábado, Trump se recusou a condenar especificamente os supremacistas brancos que sitiaram Charlottesville. "Condenamos nos termos mais fortes possíveis essa clamorosa demonstração de ódio, intolerância e violência de vários lados – de vários lados", disse Trump aos jornalistas em uma entrevista coletiva no fim da tarde de sábado.

Os supremacistas brancos adoraram a reação. "Os comentários de Trump foram bons", disse um post no site nacionalista Daily Stormer, que acompanhou os acontecimentos de sábado num live blog.

"Ele se recusou a responder uma pergunta sobre o apoio que recebeu dos nacionalistas brancos", seguiu o post. "Não houve nenhuma condenação. Quando perguntaram se ele condenava, ele simplesmente saiu da sala. Muito, muito bom. Deus o abençoe."

Com um presidente dos Estados Unidos que não condena o nazismo, e depois de mais de um ano de indicações de que ele apoia o nacionalismo branco, os especialistas estão preocupados com a potencial violência no futuro – ainda pior que a vista em Charlottesville.

Manifestante antifascista ataca nacionalista branco com um cassetete durante os confrontos no Parque da Emancipação, onde a

O recrudescimento da direita extremista, por sua vez, leva a um crescimento da esquerda extremista. Brian Levi, chefe do Centro para o Estudo do Ódio e do Extremismo na Universidade da Califórnia, em San Bernardino, disse ao The Huffington Post que a fatalidade e os feridos de sábado significam que "a esquerda radical, menor e menos organizada", que inclui os manifestantes antifascistas (ou Antifa), buscaria "vingança".

"É uma dança do extremismo recíproco", afirmou Levin.

Heidi Beirich, responsável pelo Projeto Inteligência do Southern Poverty Law Center, concorda. Quando antifascistas buscam o enfrentamento com os supremacistas brancos, só dão mais "oxigênio" para a causa supremacista branca.

"A preocupação é que essa violência se espalhe além de Charlottesville", afirmou ela.

Uma ação decisiva da Casa Branca ajudaria a romper esse ciclo vicioso, dizem ambos.

Em uma declaração no domingo, a Anti-Defamation League detalhou que tipo de ação a Casa Branca poderia tomar. O grupo pediu que Trump "demita todos os funcionários" que tenham ligações com nacionalistas brancos, provavelmente uma referência a Steve Bannon, Steven Miller e Sebastian Gorka, três assessores diretos do presidente ligados a grupos e figuras extremistas e racistas.

"O momento pede liderança moral", disse Jonathan Grenblatt, presidente da Anti-Defamation League, em comunicado. "O presidente Trump deveria reconhecer que não se trata de equivalência entre dois lados com reclamações similares. Não há como racionalizar o movimento supremacista branco e não há espaço para essa intolerância odiosa. É antiamericano e deve ser condenado sem hesitação."

Win McNamee via Getty Images
A man tends a makeshift candlelight vigil for those who died and were injured when a car plowed into a crowd of anti-fascist counter-demonstrators marching near a downtown shopping area.

No domingo de manhã, Eli Mosley estava se preparando para sair da casa em que tinha festejado e passado a noite com seus amigos supremacistas brancos. Ele considerou os comentários de Trump "neutros de um jeito" que lhe agradou.

Mosley disse ter perdido seu emprego três meses atrás depois de ser exposto na internet como nacionalista branco. Ele disse que agora seu trabalho é organizar a "direita alternativa". Ele estava se preparando para a mudança da Pensilvânia, no nordeste dos Estados Unidos, para a Virgínia. O estado do sul é a base ideal para promover novas manifestações: na capital do Estado, Richmond, e é claro em Charlottesville.

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*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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