ENTRETENIMENTO

Por que já passou da hora de Sofia Coppola parar de ser criticada pelo sobrenome

Diretora de ‘O Estranho Que Nós Amamos’ e ‘Encontros e Desencontros’ não precisa provar que é boa no que faz

13/08/2017 19:11 -03 | Atualizado 15/08/2017 12:43 -03
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Sofia Coppola no set de ‘Encontros e Desencontros’.

Em O Estranho Que Nós Amamos (The Beguiled, 2017), a cineasta norte-americana Sofia Coppola, 46, conta uma história com elementos típicos de sua obra: mulheres isoladas, entediadas e com pouco ou nenhum controle sobre a situação na qual elas se encontram.

Neste que é o novo filme da diretora, Srta. Martha (Nicole Kidman) rege uma escola estritamente feminina que educa meninas para se tornarem damas sofisticadas da alta sociedade dos Estados Unidos. O enredo do longa-metragem se ambienta em 1864, três anos após o início da Guerra Civil americana, no interior do estado sulista da Virginia. Muitas professoras, alunas e até escravos foram embora. Srta. Martha está confinada ao casarão, quase sem contato com o mundo externo, com a professora Edwina (Kirsten Dunst) e mais cinco meninas, Alicia (Elle Fanning), Jane (Angourie Rice), Amy (Oona Laurence), Emily (Emma Howard) e Marie (Addison Riecke).

A rotina dessas mulheres sofre uma brusca mudança quando Amy encontra o soldado ianque John McBurney (Colin Farrell) gravemente ferido próximo à escola. Amy o ajuda a se locomover até a casa, onde ele pode receber algum tratamento. Simpático, bem-humorado e bonito, o militar deixa as mulheres em alerta, pois se trata de um inimigo delas naquela guerra; por outro lado, McBurney faz despertar nelas a libido reprimida naquele isolamento e calor sufocante do interior. Os acontecimentos seguintes à chegada do soldado colocam as mulheres dessa história em perigo dentro daquela casa.

"Em muitas maneiras, O Estranho Que Nós Amamos é parecido com os filmes anteriores de Coppola. Como Maria Antonieta [2006], é um drama de época, e como As Virgens Suicidas [1999], contém um elenco de jovens mulheres, principalmente", analisa Belinda Smaill, professora de cinema na Monash University, na Austrália, em entrevista ao HuffPost Brasil.

"Também transmite as sensações de proximidade e espera bem desenhadas, como em vários de seus outros trabalhos, em especial Encontros e Desencontros [2003] e Maria Antonieta. O filme está mais baseado em mostrar o que acontece na superfície, em vez de mostrar com clareza o mundo interior das personagens."

O longa de Sofia é baseado em A Painted Veil, livro lançado em 1966 e escrito por Thomas P. Cullinan, e na adaptação deste que chegou aos cinemas em 1971 — e compartilha o mesmo título do novo filme —, dirigida por Don Siegel e protagonizada por Clint Eastwood, Geraldine Page e Elizabeth Hartman. A diferença é que Sofia conta a história do ponto de vista das mulheres.

Em maio deste ano, o novo trabalho da cineasta foi exibido na competição pela Palma de Ouro, a principal mostra do Festival de Cannes. Lá, Sofia venceu o disputado prêmio de melhor direção e, em 70 anos de existência do evento, tornou-se a segunda mulher a levá-lo para casa. A primeira foi a russa Yuliya Solntseva, por A Epopeia dos Anos de Fogo, há mais de 50 anos.

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A diretora e Kirsten Dunst no Palácio de Versalhes, onde aconteceram as filmagens de 'Maria Antonieta'.

A recepção crítica tem sido mais positiva do que a dada aos filmes anteriores da diretora, Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013) e Um Lugar Qualquer (2010). No agregador de resenhas Rotten Tomatoes, O Estranho Que Nós Amamos tem aprovação de 78% e recebeu o selo amarelo com o tomate fresco.

As resenhas negativas, por sua vez, parecem resumir bem os discursos frequentemente usados nas análises da obra da diretora.

O site Odyssey, por exemplo, chamou Sofia de "ingênua" e "arrogante", e disse que isso prejudica o filme. A revista Jacobin diz que a diretora é "mimada" e isso está evidente em todos seus trabalhos. E a National Review opina que o novo trabalho de Sofia é "mais uma incursão de uma menina mimada".

Belinda Smaill, em artigo publicado em um periódico feminista de estudos de mídia, defende que a percepção de parte da opinião pública a respeito de Sofia Coppola enquanto artista e pessoa é negativa principalmente por causa de seu sobrenome e o que ele representa.

Francis Ford Coppola, lenda viva do cinema norte-americano responsável por obras como a trilogia O Poderoso Chefão e Apocalypse Now, é pai da diretora; a família, dona de uma fortuna, é conhecida por ser uma espécie de "dinastia" de artistas de cinema, pois muitos deles ingressaram em carreiras nesta arte, como Carmine Coppola (avô de Sofia), Roman Coppola (irmão), Jason Schwartzman (primo) e Nicolas Cage (primo).

Em 1990, Sofia atuou no terceiro capítulo de O Poderoso Chefão, substituindo Winona Ryder de última hora. A recepção crítica ao desempenho dela — que já havia feito pontas em vários filmes do pai e se experimentava como atriz em diversas produções — foi negativa de maneira contundente e quase unânime.

Começaram aí as acusações de nepotismo — e a carreira de Sofia como atriz foi praticamente encerrada. Ela ganhou os "prêmios" Framboesa de Ouro nas categorias de pior atriz coadjuvante e pior nova estrela; nove anos depois, foi dedicado a ela o troféu de pior atriz da década. Naquela época, Sofia iniciava sua carreira como diretora com As Virgens Suicidas, no cenário de realizadores independentes do mercado de cinema dos Estados Unidos; seu pai é produtor de quase todos os seus filmes.

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Por 'Um Lugar Qualquer' (foto do set acima), a cineasta venceu o disputado Leão de Ouro do Festival de Veneza.

Ela comentou as opiniões referentes a sua performance em O Poderoso Chefão em entrevista ao Guardian em 2013: "Eu estava tentando coisas diferentes. Não pensei de verdade no aspecto público disso. Fiquei surpresa com toda a reação. As pessoas se sentiam muito ligadas aos filmes de Poderoso Chefão, [mas] eu cresci com eles não sendo grande coisa. Entendo que sejam ótimos filmes".

"Eu recebi bastante atenção e não esperava por isso. (...) Era antes da internet, então as revistas saíam, mas no mês seguinte, sumiam. Nem havia muitos paparazzi naquele tempo."

Naquela época, como menciona Smaill em seu artigo, Sofia estudava fotografia e trabalhava para revistas como a Vogue parisiense e Allure. A professora também traz à discussão o fato de Sofia ter conexões com o mundo da moda — ela é dona da marca Milk Fed — e da música, por ter dirigido ou atuado em videoclipes de artistas como Madonna, Sonic Youth e The White Stripes. Segundo Smaill, Sofia era vista como uma "socialite superficial".

A professora defende em seu artigo que essa junção de fatores se torna uma espécie de lente usada frequentemente para analisar o trabalho da cineasta.

Smaill analisa que a maioria dos filmes de Sofia tem jovens mulheres como protagonistas, em etapa de transições em suas vidas, além de estarem isoladas do mundo ao redor e, muitas vezes, demonstrarem ter alto poder aquisitivo. O artigo da professora diz que isso faz muitos críticos associarem as experiências das personagens a supostas experiências de vida da própria diretora. Ela enfatiza que muitas dessas opiniões vêm de homens — que, numericamente, ocupam muito mais espaço que as mulheres na produção de filmes e de resenhas.

"O cinema de Sofia é geralmente focado em protagonistas mulheres e as histórias são contadas de um ponto de vista feminino", disse a professora ao HuffPost.

"No ano passado, dos principais 250 filmes de Hollywood lançados, apenas 23% deles trouxeram mulheres como protagonistas. Acredito que é um assunto de cunho feminista o fato de que histórias sobre mulheres sejam vistas como não atraentes para as bilheterias."

Um estudo de 2016 feito pelo Center for the Study of Women in Television & Film, da San Diego State University, mostra que os críticos de cinema dos principais veículos de imprensa presentes no Rotten Tomatoes são homens em grande maioria. Apenas 27% desse grupo são mulheres.

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Sofia e Scarlett Johansson gravam 'Encontros e Desencontros', em Tóquio.

É claro que não gostar dos filmes de Sofia Coppola não define se alguém é ou não machista e se tem ou não ressentimento social. E é claro também que a diretora goza de sucesso em um meio dominado por homens — ela conseguiu se estabelecer nele, receber muitos elogios (principalmente pelos seus três primeiros filmes) e vencer prêmios como o Oscar de melhor roteiro original (por Encontros e Desencontros) e o Leão de Ouro (por Um Lugar Qualquer), principal condecoração do Festival de Veneza.

No entanto, permanece injustificável que os fatos de Sofia Coppola ser mulher e vir de uma família rica e poderosa sejam usados em análises como fatores que possam fazer seus filmes serem obras boas ou ruins.

Além disso, o fato de homens serem maioria entre críticos de cinema e o famoso receio de Hollywood em fazer filmes dirigidos e protagonizados por mulheres são dignos de atenção, pois o primeiro grupo influencia na percepção pública e no sucesso de um filme, e o segundo, na produção deles.

Sofia não é a única cineasta a ser alvo disso tudo. Patty Jenkins é mais um recente exemplo. Em entrevista à Hollywood Reporter, a diretora de Mulher-Maravilha, grande sucesso de público, crítica e bilheteria, explicou por que levou quase 15 anos para aceitar uma nova proposta de fazer um novo longa-metragem, após ser elogiada e premiada com bem-sucedido drama independente Monster — Desejo Assassino, seu primeiro filme:

"Eu pensei, 'se eu aceitar [esse projeto], será um grande desserviço às mulheres. Se eles [os estúdios] o fizerem com um homem, será apenas outro erro que o estúdio cometeu. Mas comigo, seria como se eu tivesse falhado e mandaria uma péssima mensagem. Então tenho tomado cuidado com o que aceito por essa razão."

O caso de Sofia Coppola é uma peça de um gigantesco quebra-cabeça: há um gritante machismo no meio do cinema que dificulta tanto a presença de mulheres em protagonismo de histórias, quanto em posições criativas na produção desses filmes, na opinião pública a respeito deles, nas premiações e no pagamento igualitário.

O problema, definitivamente, não está na diretora de O Estranho Que Nós Amamos.

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