LGBT

O caso de Jéssica Pereira. A transfobia. E a negação da própria identidade

"Não vou mais fazer isso, de ser travesti. Eu me esforçava demais para ser, mas era muito difícil."

13/08/2017 18:44 -03 | Atualizado 14/08/2017 09:41 -03

A travesti e prostituta Jéssica Pereira, de 23 anos, é mais uma vítima da transfobia no Brasil.

Na madrugada de sexta-feira (11), ela foi asfixiada até desmaiar e trancada num quarto em chamas em um hotel de Alcântara, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio.

A jovem entrou no estabelecimento acompanhada de um homem para realizar um programa. Minutos depois, outros hóspedes notaram que o quarto dela estava em chamas e chamaram a polícia.

Jéssica teve cerca de 50% do corpo queimado. A orelha esquerda foi quase totalmente consumida pelo fogo.

O caso foi registrado na 74ªDP (Alcântara).

Ainda na sexta (11), a Polícia Civil identificou o suposto agressor, Fábio Barreto da Silva, de 23 anos – que é foragido da Justiça. Ele já foi condenado por tráfico e roubo.

"Por que fazer uma coisa dessas comigo? Não tinha motivo. Mas agora eu penso que não é bom sentir raiva. Não me ajuda. Muita coisa mudou", disse a jovem em entrevista ao jornal Extra.

Jéssica sinalizou que está repensando sua identidade de gênero após a tentativa de homicídio.

"Não vou mais fazer isso, de ser travesti. Eu me esforçava demais para ser, mas era muito difícil. Ainda é. Eu insistia para poder trabalhar, para ganhar dinheiro. Mas agora vou ser 'gay boy", disse.

Ela também afirmou que vai procurar um outro trabalho e deixar a prostituição. "Para mim, a prostituição nunca foi digna. Eu vou trabalhar com algo digno, vou voltar a estudar", disse.

Jéssica estudou até a 8ª série do ensino fundamental.

De acordo com Well Castilhos, especialista em gênero e sexualidade pela UERJ e fundador do grupo gay Liberdade/Santa Diversidade, no Rio, a reação de Jéssica é natural.

Em geral, a vítima acaba se culpabilizando pela violência que sofreu.

"É natural que a vítima, sob o efeito da violência e do trauma, repense sua identidade por se sentir culpada. Isso pode acontecer não somente com uma pessoa trans em situação de violência, mas com qualquer pessoa. Mas seja qual for sua decisão, ela deve ser apoiada", disse o especialista ao jornal.

Ao jornal O São Gonçalo, a irmã da vítima, Joice Pereira, de 28 anos, disse esperar por justiça.

"Ela lutou pela vida no hospital e só vamos ter sossego quando ele for preso. A justiça está próxima de ser feita e é isso que a gente espera, que minha irmã fique bem e que ele volte para a cadeia", declarou a irmã, que está sendo assistida pela ONG Liberdade Santa Diversidade.

Jéssica, cujo nome de batismo é Alef Pereira, permanece internada - e tem a companhia dos familiares - no Hospital Estadual Alberto Torres, no Colubandê, a quatro quilômetros do hotel onde quase foi assassinada.

Segundo a unidade, o quadro dela é estável.

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