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Estamos prontos para um ataque nuclear da Coreia do Norte?

'A Coreia do Norte pode produzir mísseis mais rápido que podemos construir meios de defesa.'

11/08/2017 19:35 -03 | Atualizado 14/08/2017 15:16 -03
STR via Getty Images

Depois de testar com sucesso dois mísseis balísticos intercontinentais (MBIC) em questão de semanas, o líder norte-coreano, Kim Jong Un, declarou no final do mês passado que Pyongyang agora é capaz de atacar os Estados Unidos continentais.

Diversos analistas baseados nos Estados Unidos afirmaram que a alarmante declaração de Kim é realista, dizendo que o lançamento de um MBIC na Coréia do Norte em 28 de julho demonstrou que várias grandes cidades americanas estão dentro do alcance dos mísseis. Muitos especialistas expressaram preocupação com a rapidez com que o regime de armas nucleares do país – sujeito a sanções internacionais e talvez subestimado -- está avançando.

A Coréia do Norte realmente consegue atacar os Estados Unidos com uma arma nuclear?

A general Lori Robinson, comandante do Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte e do Comando Norte dos Estados Unidos, assegurou o público, após o último lançamento, de que sua agência "permanece inabalável em nossa confiança de que podemos defender plenamente os Estados Unidos contra essa ameaça de mísseis balísticos".

Mas os testes de MBIC do mês passado, depois de uma série de outros lançamentos recentes, reacenderam o temor de que Pyongyang esteja se aproximando do seu objetivo de desenvolver um míssil que possa levar uma ogiva nuclear até os Estados Unidos -- uma façanha que alguns acreditam já ser possível.

Embora haja muita incerteza em torno do status exato do programa nuclear da Coréia do Norte, as autoridades americanas de defesa têm de trabalhar com o cenário de um ataque a qualquer momento, adverte Thomas Karako, diretor do Projeto de Defesa de Mísseis no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

E o Norte "certamente pode nos surpreender" com um ataque, diz Jeffrey Lewis, um especialista em não-proliferação nuclear no Middlebury Institute of International Studies. Os Estados Unidos não confirmaram que o mais recente teste estava prestes a acontecer até quatro horas antes do lançamento, informou o The Diplomat, citando uma fonte governamental com conhecimento do programa de armas da Coréia do Norte.

"Está ficando bem apertado [o prazo] para ver alguma coisa, transmitir a informação e agir", disse Lewis, que acredita que a Coréia do Norte já é capaz de lançar um míssil armado com ogiva nuclear. "Temos de levar a sério a possibilidade de que [a Coréia do Norte] possa lançar alguns dos mísseis antes de sabermos onde eles estavam."

KCNA via Reuters
O MBIC Hwasong-14, da Coréia do Norte, durante seu disparo-teste, em uma foto fornecida pela agência de notícias estatal norte-coreana KCNA, em 29 de julho de 2017.

Uma pergunta inquietante mas pertinente segue no ar: se a Coréia do Norte dispara um MBIC ogivas nucleares em direção ao solo americano, os Estados Unidos têm como se defender?

A boa notícia é que a tecnologia anti mísseis existe e está em desenvolvimento há mais de uma década. A Agência de Defesa de Mísseis do Pentágono desenvolveu um sistema batizado de Midcourse Ground-based Defense, ou GMD, em parte como resposta à ameaça do programa de mísseis balísticos da Coréia do Norte.

O que é o GMD, e como ele funciona?

O GMD é o único sistema de defesa de mísseis americano criado para defender o país de ataques de mísseis balísticos de longo alcance não-sofisticados e ogivas. Ele foi implementado operacionalmente pela primeira vez em 2004 e custou aos contribuintes mais de 40 bilhões de dólares.

O sistema foi projetado para defender os Estados Unidos e o Canadá de agressores distantes, mas não é capaz de defender ataques de curto alcance. As ameaças da Coréia do Norte contra alvos de curto alcance, como os aliados Coréia do Sul e Japão, terão de ser interceptadas com outros sistemas de defesa, como Aegis, THAAD ou Patriot, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS, na sigla em inglês).

A operação do GMD é extremamente precisa e muitas vezes comparada a uma bala interceptando outra bala. Se os radares terrestres e marítimos detectarem lançamentos de mísseis estrangeiros, o sistema envia interceptadores baseados em terra, conhecidos como GBIs, em direção ao míssil ou mísseis inimigos.

Os GBIs não transportam dispositivos explosivos, mas levam equipamentos lançados no caminho do míssil, com objetivo de gerar uma colisão e na prática afastar a ameaça de uma detonação nuclear. Os especialistas estimam que três ou mais GBIs tenham de ser lançados para interceptar cada míssil, por causa da probabilidade de algum deles errar o alvo.

Mas a tarefa desses um interceptadores é muito mais complicada do que simplesmente acertar a ogiva. Ele deve usar algoritmos e sensores de bordo para distinguir seu alvo de uma enxurrada de detritos e outros mísseis lançados para confundir os sistemas de defesa. O processo é explicado em um vídeo do CSIS:

Se algum desses veículos errar o alvo e continuar viajando pelo espaço, eles provavelmente se queimariam ao reentrar na atmosfera sobre a Rússia, o que, para os russos, "pareceria um ataque nuclear", afirma Lewis.

A Agência de Defesa de Mísseis está trabalhando no desenvolvimento de veículos capazes de destruir vários alvos de uma vez, mas o projeto ainda está em estágios iniciais e tem financiamento limitado.

Atualmente, a agência tem cerca de 37 GBIs no Alasca e na Califórnia, e ainda está em processo de cumprir uma diretriz do presidente Barack Obama para expandir sua frota até 44 no final do ano, em resposta à crescente ameaça de Pyongyang.

O GMD já foi testado exaustivamente?

Em 30 de maio, depois de a Coréia do Norte anunciar que estava nos estágios finais do desenvolvimento de um MBIC, a Agência de Defesa de Mísseis realizou com sucesso seu primeiro teste real de interceptação de um MIBC simulado.

O vice-almirante Jim Syring, então diretor da agência, disse que o teste reafirmou sua confiança na capacidade de defender os Estados Unidos e de superar o progresso norte-coreano.

Karako, do CSIS, também elogiou o sucesso. Em análise publicada no site do CSIS, ele afirmou que foi "um bom dia para a defesa de mísseis e um dia ruim para Kim Jong Un".

Os resultados positivos do teste de maio e um voo-teste de um GBI em 2014 "validam o caminho que nós, como nação, temos trilhado há muito tempo para ter algum tipo de defesa contra a ameaça de mísseis de longo alcance [vindos] de lugares como a Coréia do Norte, de modo que não sejamos reféns ou vítimas de chantagem", disse Karako ao The Huffington Post.

"O programa teve alguns problemas de confiabilidade", reconheceu ele, "mas isso é compreensível quando você entende de como o sistema foi desenvolvido. E os problemas têm solução."

KCNA/Reuters
O líder norte-coreano, Kim Jong Un, no segundo disparo-teste do MBIC Hwasong-14.

Antes do teste de defesa antimísseis deste ano, que custou 244 milhões de dólares, os interceptadores dos americanos tiveram sucesso em apenas 9 de 17 tentativas desde 1999. De acordo com o CSIS, a "complexidade e o realismo dos testes aumentaram consideravelmente" nas duas últimas décadas.

"Os sistemas de defesa não são testados em dias de mau tempo, então você tem de esperar que os norte-coreanos ataquem quando fizer sol."

Mas as condições dos testes nem sempre são realistas, argumenta Lewis, observando que o desempenho do radar do MDA pode ser dificultado pelo mau tempo.

"A Agência de Defesa de Mísseis não faz testes em dias de mau tempo, então você teria de esperar que os norte-coreanos ataquem quando fizer sol", disse ele, observando que os testes podem custar centenas de milhões de dólares e, portanto, não são tão frequentes.

"[O GMD] tem um histórico medíocre nos testes", continuou Lewis. "E, se o tempo estiver ruim e eles decidem adiar um teste, isso não é contado como fracasso. Mas, na vida real, você não poderá adiar testes."

Estamos prontos para nos defender de um ataque com mísseis?

Se a Coréia do Norte lançasse um ataque nuclear, os Estados Unidos conseguiriam se defender com confiança?

A resposta curta, de acordo com Lewis, é: "Não".

"O que costumo dizer é: 'Se tudo for conforme planejado, [os interceptadores dos EUA] provavelmente acertarão a maioria dos [mísseis norte-coreanos]'", explicou ele. "Mas não acredito que eles sejam capazes de interceptar todos."

Como observa o Los Angeles Times, o Escritório de Responsabilidade do Governo, uma entidade não-partidária, informou no ano passado que o histórico de testes do GMD é "insuficiente para demonstrar que existe uma capacidade de defesa operacionalmente útil". Em janeiro, o escritório de Teste e Avaliação Operacional do Pentágono avaliou a confiabilidade do GMD como "baixa".

"Não é uma surpresa, onde estamos hoje ... não é como se isso se tivesse aparecido de surpresa."

Mas Karako ressalta que os Estados Unidos estão acompanhando o progresso norte-coreano no desenvolvimento de um MBIC nuclear e têm obtido avanços significativos para enfrentar a ameaça.

"Não é uma surpresa, onde estamos hoje. Há muito tempo sabemos que chegaria o dia. Por isso, penso que estamos posicionados, em certa medida, para lidar com essa ameaça", disse ele. "Não é pouca coisa – o problema é real e pode ser potencialmente uma crise --, mas não é como se isso tivesse aparecido de surpresa."

Em termos de uso do GMD no futuro próximo, Karako acredita "há base para confiar no sistema como implantado hoje", com base nos testes mais recentes e nos esforços de modernização em curso, embora ele note "há muitas áreas para melhoria".

E agora?

Além de expandir sua frota de GBIs e trabalhar para melhorar os sistemas de interceptação, a Agência de Defesa de Mísseis também está considerando uma opção alternativa (embora não imediatamente viável) para proteger o país. As autoridades de defesa americanas estão trabalhando nas operações de "à esquerda do lançamento", ou seja, desabilitar os mísseis inimigos antes do lançamento, potencialmente por meio de guerra eletrônica ou com ferramentas cibernéticas.

Na Casa Branca, o presidente Donald Trump -- que inicialmente descartou a ameaça de um MBIC nuclear da Coréia do Norte, tuitando "não vai acontecer!" -- repetidamente respondeu aos lançamentos de mísseis do país, insultando Kim e atacando a China nas mídias sociais.

Trump pressiona agressivamente para que Pequim use sua influência sobre a Coréia do Norte na contenção das ambições nucleares do país e reclamou dos líderes chineses por não conseguir fazê-lo.

(Estou muito decepcionado com a China. Nossos tolos líderes passados permitiram que eles ganhassem centenas de bilhões de dólares em comércio internacional...)

(... mas eles não fazem NADA para nós sobre a Coreia do Norte, só falam. Não vamos mais permitir que isso continue. A China poderia resolver esse problema facilmente!)

Mas muitos especialistas concordam que reduzir as tensões políticas é tão ou mais importante que o desenvolvimento de sistemas de defesa.

Washington pareceu baixar o tom depois do mais recente e mais avançado teste de MBIC. Dias após o lançamento, o secretário de Estado, Rex Tillerson, anunciou que os Estados Unidos não são inimigos da Coréia do Norte e afirmou que não quer ver uma mudança de regime no país nem recorrer a medidas militares. Em vez disso, ele sugeriu que os Estados Unidos estariam abertos para um diálogo com Pyongyang.

"Não acho que planejamos atacá-los -- o problema é que esse governo gosta de fingir que poderia atacar, para motivar os chineses", disse Lewis, que acredita que a Coréia do Norte só usaria suas armas nucleares se se sentir ameaçada.

"Se entramos em pânico e agirmos como o presidente Trump, batendo o pé, ameaçando os norte-coreanos e falando em ataques (Deus nos livre), então temos problemas ... A Coréia do Norte pode produzir mísseis mais rápido do que podemos construir defesas", acrescentou Lewis. "Parece muito difícil acreditar que conseguiremos continuar na dianteira."

"Sempre seremos vulneráveis, e temos de lidar com isso."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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