POLÍTICA

'Pela economia e emprego'? Para economistas, permanência de Temer não significa mais estabilidade

De acordo com especialistas, se a intenção ao salvar Temer era a "estabilidade econômica", os deputados fizeram exatamente o oposto.

10/08/2017 20:16 -03 | Atualizado 10/08/2017 20:16 -03
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"Se fosse verdadeira, vários destes que votaram pela permanência de Temer não teriam votado pelo impeachment da Dilma", analisa economista.

"Pela estabilidade econômica e pelo retorno dos empregos no Brasil, eu voto 'sim'"

Este foi o argumento do deputado federal Marco Antônio Cabral (PMDB-RJ) e de muitos outros deputados que votaram "sim" pelo arquivamento da denúncia do Procurador-Geral da União, Rodrigo Janot, contra o presidente Michel Temer.

Com 263 votos pelo "sim", 2 abstenções e 21 não votantes, Temer conseguiu barrar a acusação de ter sido destinatário final de uma mala com R$ 500 mil de propina paga pela JBS ao seu ex-assessor Rodrigo Rocha Loures.

Em uma espécie de "ruim com ele, pior sem ele", a votação, que completou uma semana nesta quarta-feira (9), foi marcada pelos discursos em prol da economia brasileira, da volta do emprego, da concretização de reformas e da sonhada estabilidade econômica.

"Não sou a favor da impunidade e nem contra a investigação, mas, pela estabilidade econômica do País, entendo que ela deva acontecer após o término do mandato do presidente", disse Maria Helena (PSB-PP), ao declarar seu voto pelo arquivamento da denúncia de corrupção.

"Votar sim não significa dizer que o Presidente é inocente. Mas votar sim significa votar com as reformas, com o desenvolvimento, com um País melhor para todos nós. Voto sim, pelo Brasil", declarou Alex Canziani (PTB-PR).

Se a intenção ao salvar Temer era a "estabilidade econômica", os deputados fizeram exatamente o oposto, de acordo com economistas ouvidos pelo HuffPost Brasil.

Na visão deles, a permanência de um político alvo de investigações e acusado de corrupção passiva na presidência de um país acarreta em custos para a economia, inclusive representa mais instabilidade, uma vez que seu governo está "fragilizado" por denúncias de corrupção e manobras para se manter no poder.

"É uma falácia", disparou Newton Marques, economista do Conselho Regional de Economia, professor da Universidade de Brasília (UnB) e ex-economista do Banco Central."Este governo sobrevive de ameaças, ameaças de cassação da chapa [Dilma-Temer], agora ameaça de escândalos de corrupção, como a Lava-Jato."

A possibilidade de novas denúncias poderia também levar a um novo caos no mercado de ações, com a dispara do dólar, a queda da Bolsa de Valores, como aconteceu quando foi divulgado o áudio de Joesley Batista, da JBS, em maio deste ano. "A instabilidade política reflete na instabilidade econômica", opinou o presidente do Conselho Federal de Economia, Júlio Miragaya.

Segundo ele, a justificativa dos deputados não foi coerente. "É claro que mudar um presidente da república provoca uma certa instabilidade. Mas, se fosse verdadeira, vários destes que votaram pela permanência de Temer não teriam votado pelo impeachment da Dilma [Rousseff]."

A "fragilidade" de um governo marcado por escândalos de corrupção, continua Miragaya, impacta diretamente na confiança de empresários e investidores no País, o que freia os investimentos. A taxa de investimentos de empresas e famílias, que girava em torno de 19% no governo Dilma, despencou para cerca de 13,7% do PIB (Produto Interno Bruto) em dezembro 2016, a menor taxa desde 2000.

Tal taxa é importante para determinar a capacidade de crescimento do país e mede, por exemplo, o investimento de empresários na melhoria da produção, renovação de frota ou maquinário e, principalmente, na ampliação do quadro de funcionários, o que significa mais empregos. "Os investimentos ficam travados pela insegurança dos investidores e empresários, porque não há certeza de que a economia vai melhorar", diz Miragaya.

O investimento privado também é impactado pelo investimento público, que neste ano deve cair para o menor patamar dos últimos 15 anos, segundo um estudo do Ipea e da FGV. "Muitos investimentos privados dependem ou derivam dos investimentos públicos", acrescenta o presidente do Cofecon.

"O governo Temer não tem dinheiro para fazer investimentos ou políticas públicas, mas tem dinheiro para aprovar as emendas parlamentares, aprovar cargos públicos, trocar de avião", acrescentou o professor da UnB.

A 'falsa' recuperação na economia

Para os economistas, as conquistas econômicas do governo Temer não se devem, de fato, à política macroeconômica do governo. "O setor externo tem puxado para cima os índices, mas a economia brasileira não está se recuperando", enfatizou Miragaya, do Cofecon.

O economista explica que apenas os setores que dependem das exportações, como celulose e agropecuária, como soja, milho, algodão e carne, também beneficiada pelo clima, apresentaram ganhos neste ano. "O cenário internacional está razoável, ainda mais com a recuperação da economia europeia."

Já o mercado interno, a economia não melhora. O setor de caminhões, que exporta pouco e depende do mercado interno, está em queda, assim como o da cerveja também e do setor aéreo. "Basicamente, os segmentos que dependem do mercado interno e do consumo continuam no buraco", resumiu Miragaya.

"Vemos alguns 'voos de galinha' [na economia] porque o governo fica apostando em ações para movimentar a renda e consumo, como o FGTS inativo, o que dá um pouco de gás", explica Newton Marques, da UnB. Porém, segundo o professor, a indústria, que é um setor dinâmico da economia e um dos maiores geradores de emprego, está parado. "O governo precisa ter políticas macroeconômicas críveis, que fossem confiáveis e debatidas com a população e empresariado."

Os economistas defendem as eleições diretas como um caminho para a estabilidade no País e criticam a rapidez e o pouco debate das reformas implantadas por Temer. Newton Marques criticou:

Não é um governo reformista como a gente possa imagina. Só querem as reformas que interessam a eles. Veja se eles vão aumentar o imposto sobre grandes fortunas? Não vão.

"Só eleições diretas configuram uma legitimidade e, portanto, teremos alguma estabilidade política e econômica. Se isso não ocorrer, a instabilidade vai permanecer até 2018", concluiu Miragaya, presidente do Cofecon.

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