ENTRETENIMENTO

Os bastidores do filme recordista de efeitos especiais na História do cinema brasileiro

Depois de dois anos em pós-produção, 'Malasartes e o Duelo com a Morte' estreia nesta quinta (10) nos cinemas.

10/08/2017 20:28 -03 | Atualizado 10/08/2017 20:28 -03

Protagonizado pelo ator pernambucano Jesuíta Barbosa, Malasartes e o Duelo com a Morte estreia nesta quinta-feira (10) em 300 salas de cinema em todo o Brasil. A trama acompanha as desventuras de Pedro Malasartes, personagem conhecido do folclore ibero-americano - que inspirou o nascimento de figuras como Macunaíma, Jeca Tatu e João Grilo.

Na trama, ele é sujeito caipira e astuto e vive um namorico com Áurea (Isis Valverde), reprovado com fervor por Próspero (Milhem Cortaz), irmão mais velho da moça e a quem o rapaz deve dinheiro. Malasartes usa a trapaça para sobreviver à pobreza e sonha com a prometida visita de seu rico e desconhecido padrinho. Em meio a falcatruas e trapalhadas, ele acaba de frente com a Morte (Júlio Andrade) que, por sua vez, quer tirar férias de seu posto e deixar o rapaz em seu lugar.

Dirigido por Paulo Morelli (Cidade dos Homens), o longa combina paisagem rural e universo fantástico. O encontro de Malasartes com a Morte se dá em um mundo paralelo habitado por vidas em forma de longas velas e bruxas - uma delas interpretada por Vera Holtz. Esse mundo desconhecido com que o espectador toma contato é fruto de um trabalho inédito no País, uma vez que o filme é anunciado como recordista em efeitos visuais na História do cinema brasileiro até agora.

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Jesuíta Barbosa passou por treinamento físico para enfrentar as cenas em que é erguido por cabos de aço, pula e cai em estúdio.

As filmagens do longa ocorreram tanto no interior de São Paulo e quanto em estúdio equipado com guindastes, cabos de aço, chroma key e diversos recursos de computação gráfica. Após as gravações, o filme passou dois anos em pós-produção, num processo que envolveu cerca de cem profissionais. O investimento inicial de R$ 10 milhões recebeu o complemento de mais R$ 4,5 milhões da produtora O2, da qual Paulo Morelli é um dos sócios, só para os efeitos visuais.

"Nós somos um set de filmagem, mas com ar condicionado e monitores", afirma Paulo Barcellos, diretor da O2 Pós, responsável pelo trabalho de pós-produção do filme. E justifica: "Temos diretor de fotografia, diretor de arte, iluminadores, profissionais de modelagem, criação de elementos e preparação de cenários. Metade do filme foi gerado por cem pessoas, não pelo computador. Cem pessoas usaram o computador como ferramenta".

Em entrevista ao HuffPost Brasil na sede da O2 Pós, em São Paulo, Barcellos explica que foi desafiador realizar todo o trabalho de efeitos especiais no Brasil e só com profissionais brasileiros. Segundo ele, a falta de uma indústria cinematográfica estabelecida no País torna escassa a mão de obra especializada - o que torna a finalização de qualquer projeto mais demorado.

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Elenco do longa reúne grandes nomes da teledramaturgia nacional, incluindo Leandro Hassum e Vera Holtz.

"Por conta da indústria cinematográfica nos EUA, é muito comum existir um cara especialista em desenhar urso polar, por exemplo. Lá, vão existir uns 50 caras especializados somente em desenho de urso polar", diz. "No Brasil, não tem esse tipo profissional", afirma, referindo-se a um perfil específico que combina olhar artístico e excelência em exatas.

Barcellos afirma que o que se estabeleceu no Brasil nas últimas décadas foi a cultura de uma pós-produção responsável apenas pelos retoques finais nos filmes, "que apaga um cabo que apareceu na cena", "ajuda no retoque de uma coisa ou outra". No entanto, para uma superprodução como Malasartes é preciso profissionais capacitados para além do acabamento. "Sem a computação gráfica, este filme não poderia existir nesse formato. Seria uma coisa muito menor, mais teatral", afirma.

Diante da demanda inédita do filme, a O2 Pós contratou profissionais com experiência no exterior, investiu no treinamento de outros e lançou mão de parcerias com ONGs e entidades que formam jovens profissionais de audiovisual, como Instituto Criar. "Nós vivemos um problema constante de falta de gente. Tem trabalho, mas não tem gente", conta. Para Barcellos, esse cenário problemático seria revertido com a criação de mais escolas técnicas. "Demanda tem, emprego tem. Não tem profissional", ressalta.

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Filmagens 'Malasartes' fora do estúdio foram realizadas na região de Jaguariúna, no interior de São Paulo.

Apesar de possuir um mercado incipiente, Barcellos acredita que o Brasil sai na dianteira em pelo menos um ponto: custo-benefício. "Foram gastos na pós produção o equivalente a um milhão de dólares. Lá fora, um milhão de dólares num filme como Malasartes não cobre nem os custos do trailer", explica. Para ele, é altamente inovador o filme chegar aos cinemas com uma qualidade de nível internacional tendo sido realizado em um país que não tem a "cultura da pós-produção".

Tal conclusão do diretor tem sinergia com o perfil da próprio personagem do filme, referência de esperteza e criatividade em contos antigos e populares de Portugal e do Brasil.

O resultado que chega nesta quinta (10) à telona é motivo de orgulho para Barcellos."É um filme para a gente falar assim: 'Acorda, Brasil. Dá pra fazer. Dá pra fazer aqui e com profissionais brasileiros'". Para além do orgulho, o longa é também uma grande aposta da empresa no mercado de efeitos especiais. "Nossa esperança é que este filme traga outros, porque aí sim, no longo prazo, a gente vai conseguir se especializar, criar mão de obra", planeja. "Vamos ter demanda? Não sabemos", finaliza.

Segundo Barcellos, o aquecimento deste cenário com novos projetos e formação de profissionais especializados só traria vantagens para o mercado audiovisual do País. "A gente tem no cinema brasileiro um monte de histórias que as pessoas não têm nem coragem de tentar contar porque acham que isso é impossível aqui no Brasil", diz. "A ideia do Malasartes é mostrar para o mercado que dá que dá pra fazer. E vamos ver o que acontece."

Assista ao trailer de Malasartes e o Duelo com a Morte:

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