MULHERES

O deputado da tatuagem. O assédio à jornalista. E a denúncia que não pode morrer

"As declarações do deputado configuram assédio sexual, moral e psicológico, e expõem uma atitude que não condiz com a de quem ocupa um cargo público."

09/08/2017 16:06 -03 | Atualizado 09/08/2017 16:11 -03
Reprodução

Na última terça-feira (1), a jornalista da CBN Basília Rodrigues estava em mais um dia de trabalho de cobertura do Congresso Nacional.

A pauta da semana era uma tatuagem um tanto quanto peculiar. O deputado Wladimir Costa (SD-PA) havia feito um registro de apoio ao presidente Michel Temer em seu próprio corpo.

Questionado pela jornalista se a tatuagem era temporária ou permanente e se ele poderia mostrá-la, o deputado respondeu: "Para você só se for o corpo inteiro."

O comentário do deputado deixou todos os presentes constrangidos e ganhou repercussão após Basilia compartilhar o seu relato no Facebook. A atitude de Costa causou revolta entre os profissionais de mídia e uma campanha contra o assédio foi levantada em apoio à repórter.

O Partido Socialista Brasileiro (PSB) resolveu entrar com uma representação contra Costa por quebra de decoro. O PSB pede a suspensão do mandato do parlamentar.

Segundo o deputado Júlio Delgado (PSB-MG), a atitude de Costa foi totalmente "inadequada".

"O deputado Wladimir Costa não tem sido uma regra dos deputados. A gente pode ter uma disputa política no mérito das matérias, mas não na forma de tratativa entre os colegas e, principalmente, com os profissionais da imprensa que cobrem o Congresso Nacional e que de certa forma estão sendo agredidos e assediados por um deputado no exercício do mandato", afirmou em entrevista aos jornalistas.

Além disso, o comitê de imprensa do Senado e da Câmara organizou um manifesto de repúdio as condutas de Costa que deverá ser assinado pelos parlamentares nesta quarta-feira.

Para o comitê, as declarações do deputado configuram assédio sexual, moral e psicológico, e expõem uma atitude que não condiz com a de quem ocupa um cargo público.

A carta será endereçada a deputada Shéridan (PSDB-RR), presidente do Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. O objetivo é que Costa seja devidamente responsabilizado por suas manifestações.

Em uma publicação compartilhada em sua página oficial do Facebook, o deputado Wladimir Costa se defendeu da denúncia de assédio.

Na mensagem, afirmou que era "muito bem casado" e que a jornalista Basilia Rodrigues não lhe "desperta em nada".

"Dizer que vai mostrar o corpo todo, não quer dizer necessariamente, ficar literalmente nú, e tenham certeza que, mesmo que Dona Basilia fosse a última mulher do mundo, eu não teria coragem de ficar despido para ela e jamais iria convidá-la para ser minha parceira numa noite de amor, pois sou muito bem casado. (Certamente ela também não teria essa coragem). Resumidamente, ela não me desperta em nada".

Na última semana, ainda, Wladimir Costa foi flagrado pedindo imagens de nudez via aplicativo de mensagens durante a sessão em que a Câmara dos Deputados arquivou a denúncia de corrupção contra Temer.

No diálogo com uma mulher, Wladimir escreve: "Mostra a tua bunda, mostra, afinal não são suas profissões que a destacam como mulher. É sua bunda. Vai lá, põe aí, garota".

O Solidariedade emitiu uma nota pública nesta quarta-feira (9) em que diz que irá ouvir "formalmente" o deputado para conhecer a sua posição sobre os fatos.

De acordo com o comunicado, o "respeito e a seriedade" com as mulheres sempre nortearam as ações do partido.

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