COMPORTAMENTO

Rico Dalasam: 'Eu sou uma flor e a granada no mesmo corpo'

Representante do ‘queer rap’ no Brasil, Rico diz que a luta não depende só de punhos, mas também de versos.

08/08/2017 15:36 -03 | Atualizado 23/08/2017 15:54 -03
Divulgação / Avon

Rico Dalasam tem presença. E onde ele passa tem assunto. É impossível ele entrar em qualquer ambiente e não chamar atenção. Vai além do que se pode ver: ele tem postura, porte, uma confiança que o transforma no foco de qualquer conversa. Some isso ao talento que ele tem para escrever versos, e é totalmente compreensível o sucesso que tem feito no rap nacional.

"O rap já estava em mim", explicou ele, em entrevista ao HuffPost Brasil. "Eu já sentia isso quando era espectador, alguém que ia nos shows." Essa paixão se firmou quando ele começou a colocar as próprias palavras no papel, uma forma de dividir com o mundo aquilo que não conseguia conversar com as outras pessoas.

Único rapper brasileiro abertamente gay no cenário musical atual, Rico percebeu logo na adolescência a importância da música para se expressar e tirar do peito tudo aquilo que sentia. Em 2006, ele começou a frequentar as batalhas de rap no metrô Santa Cruz, na zona sul de São Paulo, e percebeu a sua verdadeira "potência": "Eu fui me descobrindo MC e que eu tinha potência para dividir a minha rima com as pessoas".

Uma das estrelas da nova campanha da máscara de cílios Big&Define da Avon, Rico é um dos maiores representantes de um movimento chamado queer rap. O gênero mistura os elementos da comunidade LGBTQ+, principalmente aqueles tão explorados pela cultura drag, com o hip-hop. Nos Estados Unidos, nomes como Frank Ocean e Zebra Katz são fortes nesse movimento, e o próprio Macklemore é conhecido como um dos seus precursores, abrindo as suas rimas para falar sobre amor entre gêneros, igualdade e liberdade.

"É um processo de me descobrir, de não me cobrar e, ao mesmo tempo, ser uma potência de resistência diante da estrutura 'macha', que tenta ser um confronto diante da minha natureza. Me defino como flor e granada no mesmo corpo", diz Rico sobre o seu papel em todo esse cenário, tão conhecidamente machista no Brasil e no mundo.

Como qualquer personagem que foge do lugar comum – e a exemplo de Pabllo Vittar, drag queen que tem conquistado a música e a moda – Rico diz que já sentiu muita pressão para assumir um papel de ativismo, mas que hoje se cerca das pessoas que ama para manter a mente 100% focada em usar a música como uma forma de luta.

"A ideia disso aqui, além de fazer música e imagem, é tornar a vida mais possível. A minha, que está totalmente aos meus cuidados, e a de quem se engajar na história também", diz.

A moda e maquiagem entram como uma ferramenta de transformação, afrontamento, assim como os seus versos. Ele não vê distinção entre peças 'femininas' e 'masculinas' e sabe que tudo o que encontra no seu armário é apenas uma forma de criar possibilidades. As roupas e acessórios, a maquiagem e a beleza são instrumentos para ajudar a contar uma história.

"É um mundo de possibilidades que eu trago para ajudar a contar como eu me sinto, como me vejo, como quero ser visto também. E ter os elementos estéticos como ferramentas e armas há bastante tempo já tem me feito sentir mais leve, me sentir mais jovem, me sentir mais vivo. Acima de tudo mais vivo."

A estética sempre teve um papel tão importante em toda essa jornada que Rico Dalasam relembra os seus 12 anos, quando começou a adotá-la por esses motivos. Ele até chegou a trabalhar como cabeleireiro e como produtor de moda – foi num primeiro contato com esse universo que ele aprendeu tudo o que podia para "hoje construir uma imagem que tenha relevância".

É claro que ele está conseguindo; mais que relevante, Rico tornou-se referência para todos nós.

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