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Nesta oficina, quem costura são egressos. E isso faz toda a diferença

Projeto de moda sustentável contrata mão de obra de ex-presidiários para fabricar camisetas de algodão 100% orgânico.

08/08/2017 12:08 -03 | Atualizado 10/08/2017 12:20 -03
PanoSocial
Projeto de moda sustentável contrata mão de obra de ex-presidiários para fabricar camisetas de algodão 100% orgânico.

Em São Paulo, uma pequena sala dá espaço a oficina que conta com seis máquinas de costurar e hoje é um polo de incentivo a uma moda mais sustentável.

Criada em 2014, a PanoSocial produz cerca de três mil peças por mês e quer ser uma vitrine: o algodão 100% orgânico é a matéria prima das camisetas que ganham forma pelas mãos de egressos do sistema prisional brasileiro.

"Falta mão de obra e o egresso tem dificuldade de achar emprego. Ao mostrar a funcionabilidade do projeto, a gente serve de vitrine para as outras empresas", explica Natacha Lopes em entrevista ao HuffPost Brasil.

A ex-produtora de editoriais e campanhas de moda começou a se questionar sobre as formas de produção das peças que estampavam revistas e outdoors.

"Eu fiquei muito impactada e me sentia muito desconfortável em pensar o quanto o meu trabalho gerava o desejo de consumo. Quando conheci o projeto fiquei com muita esperança de fazer parte de algo que entende que a moda pode ser justa, limpa e com bases sustentáveis", defende.

Quem produz o que você consome?

De acordo com levantamento do Infopen, o Brasil possui a 4ª maior população carcerária do mundo e 26% dos presos ainda aguardam condenação. Ainda, um em cada quatro condenados reincide no crime.

Para Natacha o problema vai além: uma vez que se é egresso, a prisão não cumpre seu papel de ressocialização.

"Todos merecem uma segunda chance, mas para muitos deles essa é realmente a primeira. Como é possível ressocializar quem nunca foi socializado? Quem, desde o ventre da mãe, tem os seus direitos negados? São muitas vidas que pegam essa oportunidade com muita gratidão. São funcionários que fazem o trabalho com muito amor, atenção e convicção. E isso faz toda a diferença.", questiona.

Gerfried Gaulhofer é designer e deixou a Austría para investir no Brasil. "Depois que eu visitei uma unidade prisional, eu entendi o que é preconceito. Para essas pessoas, o fato de serem egressos apaga a possibilidade de um futuro", conta.

A rotina do trabalho, como explica os fundadores, é bem dividida: 80% do tempo é dedicado a produção; 10% a cursos de estamparia, serigrafia e modelagem; e os outros 10% são dedicados a práticas de meditação e rodas de conversa.

Além do showroom da marca, a empresa social - que reinveste todo o seu lucro na produção - conta com uma rede de parceiros terceirizados. Eles fazem a ponte entre instituições que cuidam da população vulnerável e empregadores em busca de mão de obra qualificada.

"Muitas unidades prisionais possuem oficinas de costura. Nós indicamos a mão de obra para outras oficinas. Auditamos essas empresas para que elas sejam completamente regularizadas, o que é um desafio em um mercado tão informal. Acompanhamos o trabalho de perto para impedir a 'quarteirização'. Somos facilitadores", explica Natacha Lopes.

Pablo Saborido

Sustentabilidade socioambiental

Além de empregar egressos, a PanoSocial defende o uso de algodão livre de agrotóxicos, já que a indústria têxtil somente fica atrás da petroquímica em termos de destruição ambiental.

De acordo com Lopes, hoje a produção de algodão é responsável por 3% da agricultura mundial, mas leva 25% de todo o agrotóxico utilizado no mundo.

"É uma cultura brutal para a terra. Os agricultores na lavoura de algodão convencional morrem de câncer. Isso é serio. Já o algodão orgânico é uma solução para isso. Estamos em contato contato com toda a cadeia produtiva para fortalecer esse tipo de produção", defende.

No Brasil, a produção livre de químicos ainda é incipiente e concentrada no Nordeste - no Ceará e na Paraíba, principalmente. Isso faz com que a PanoSocial precise importar fios da Índia para a sua malharia.

"Sabemos que essa não é a medida mais correta, mas entendemos que a sustentabilidade é um processo", argumenta Natacha Lopes.

O objetivo da empresa é, então, incentivar o uso do algodão limpo e assim contribuir para aumentar a demanda nacional.

"A gente consegue mostrar que há, sim, outras escolhas", explica Gaulhofer.

Conheça quem está por trás das camisetas:

Reginal Jacinto: 'Eu ajudei a construir esse império'

Pablo Saborido

"Eu fechei a minha oficina para vir trabalhar com eles. Não adianta a gente só visar o lucro, né? Eu tava me acabando naquela oficina. Eu não posso mentir. Eu nunca tinha ouvido falar de 100% orgânico. E eu vou falar uma coisa: eles passaram um filme pra nós, e a gente que não tem conhecimento acha que não muda nada. Mas uma calça jeans usar 111 litros pra ser feita? Olha o impacto da perda. Agora imagina 111 litros regando uma planta orgânica? Uma roupa é um consumo que se você não tomar cuidado vira tudo sem precisão. É uma cadeia que afeta todos os ramos.

Pra mim, o caminho é esse. As pessoas aqui são sem palavras. A gente consegue aprender o que uma pessoa quer dizer com um simples gesto. As empresas não querem saber disso. A gente tem espaço, a gente tem tempo. Se você tem um problema, a gente conversa. A gente se respeita no espaço do outro e é assim que a gente se transforma nessa união. Olha se isso existe: dia de segunda-feira a gente não produz. É o momento que você tem pra pensar em você mesmo. Que nem, na capa do meu Face tá: 'Você já tirou dez minutos pra você hoje?'. Isso faz muita diferença. Eu não tinha essa pratica antes. Pegava na máquina de costura 7h da manhã e largava 22h da noite.

É gostoso quando a gente entra em um objetivo de vida e vê o que alcançamos. Eu não quero deixar isso pela metade. Eu quero sair daqui e ver isso aqui bem grande. Porque eu vou olhar do outro lado e dizer: Eu que ajudei a construir esse império. E ainda de um produto que você se orgulha."

Wellington Sousa: 'Eles capacitam a gente em outras áreas e isso agrega muito'

Pablo Saborido

"Nunca tinha trabalhado em confecção. Eu conheci a Pano através da ONG Afroreggae, eles me indicaram para o curso de corte e custura e disseram que a depender se eu chegasse no horário, fosse em todas as aulas, pudesse surgir uma oportunidade de trabalho. Eu terminei o curso, não demorou três meses e eles me ligaram para eu fazer um teste. Fiquei um mês aprendendo na prática. Depois recebi um convite pra trabalhar registrado. Eles capacitam a gente em outras áreas e isso agrega muito, porque eu penso em continuar nesse ramo. Eu já estampava e já tinha feito um curso de serigrafia no SENAI. Agora eu sei fazer a estampa e a própria camiseta. Então, eu não preciso terceirizar nada do meu trabalho. O mais desafiador do trabalho é você manter uma paciência, porque te exige muita atenção e coordenação motora. Tem que ser com qualidade e ser veloz."

Paulo Tadeu:'Se eu te contar a história, vai ter que escrever um best seller'

Pablo Saborido


"Se for pra contar a historia, vai ter que escrever um best seller. Estou tendo uma experiência super importante. Primeiro pelo produto. Eu nem pensava que isso existia e aqui vim saber de sua importância. A gente aprende muito no dia a dia. Eu modelo, desenho, corto, faço as aulas de costura. Eu trabalhei em um ateliê; mas, desde que eu fui recolhido pela Justiça, não tinha voltado a trabalhar. Quando saí do sistema prisional, fui para uma ONG e conheci a PanoSocial. Eu nunca imaginei que estaria aqui. Eu até tinha umas metas, mas a PanoSocial aconteceu na minha vida e mudou tudo."

Cauê Salgadino: 'O que importa é se sentir bem onde você trabalha'

Pablo Saborido

"Eu conheci a PanoSocial através de um programa da TV Cultura quando ainda estava privado da minha liberdade. Eu vi a ideia da empresa e achei muito interessante. Comecei a enviar cartas para eles e, assim que conquistei a minha liberdade, vim conhecê-los. Ai eu comecei a trabalhar efetivamente. A minha única experiencia na área de roupas tinha sido com estamparia, quando eu desenvolvi uma marca minha. Agora eu conheço o processo completo. Eu aprendi tudo aqui. E é isso que importa: se sentir bem onde você trabalha."

Ricardo Rocha: 'Aqui é uma nova oportunidade'

Pablo Saborido

"Pra mim, é uma nova etapa. Eu nunca tinha trabalhado com costura. Eu comecei como ajudante, me desenvolvi e agora tô aqui. E com o próximo que entrar vai ser a mesma coisa. Para mim, era um terror sentar na máquina e hoje eu já sei fechar uma camisa, sei fazer tudo. Eu já cheguei a chorar de tão chateado com coisas que eu ouvi sobre mim. E aqui é uma nova oportunidade. Eu me sinto bem. Não sei o que seria, não sei se eu voltaria a roubar. Aqui mudou a minha vida e continua a mudar. Eu quero crescer mais, e o máximo que eu puder aprender eu vou absorver. Tudo é um desafio, a gente encara se quiser. E se a gente entra no barco é pra tocar ele pra frente."

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