COMPORTAMENTO

A geração que vai esvaziar as agências de publicidade

Eles são jovens, já nasceram conectados e estão percebendo que a internet une diversão e carreira em um só lugar.

08/08/2017 16:09 -03 | Atualizado 15/08/2017 12:31 -03
Reprodução / Erick Mafra

Em 2008, a internet explodiu com a popularização dos blogs. Principalmente nos ramos de moda e beleza, essas páginas ganharam centenas de fãs e criaram um mercado em torno do mundo online. Dez anos depois, as plataformas se transformaram, novas redes surgiram, e uma coisa se tornou certa: existe uma geração que está criando a sua carreira por meio da web.

É o caso de nomes como Mari Maria, que integra a nova campanha da marca de cosméticos Avon, Nah Cardoso, Whindersson Nunes, Niina Secrets e tantos outros que transformaram o que antes 'era mato' em um lugar onde a vida pessoal e o trabalho se fundem.

Redes como o Facebook, o Instagram, o Youtube e o Musical.ly deixaram de ser usadas para mostrar o dia a dia e se tornaram ferramentas de produção de conteúdo – ali, os jovens mais antenados aprenderam rápido como divertir e chamar a atenção de um público que se identifica com a sua linguagem. O resultado: novas carreiras que não exigem um diploma formal e que surgem de uma forma mais natural do que jamais imaginamos.

Eles focam no compartilhamento

Reprodução / Erick Mafra
O influenciador Erick Mafra

Com os seus 543 mil seguidores no Instagram, Erick Mafra pode não ser o maior influenciador brasileiro em termos de números, mas o carinho que ele tem pelos fãs (e vice-versa) prova que esses dados são quase irrelevantes, levando em conta o seu engajamento. Erick tem uma meta muito certa em compartilhar o que sente e o que é com as pessoas, e esse se tornou o seu maior objetivo para seguir nesse ramo.

"O principal é saber o que você quer compartilhar. Com isso, você pode usar a internet como ferramenta", conta ele, que começou a trabalhar aos 16 anos. "Hoje em dia eu já sei o que quero falar nas redes sociais, mas nem sempre foi assim. Teve uma época em que eu passei um ano longe das redes, eu fechei tudo, e voltei no finalzinho de 2014. Hoje eu falo muito sobre amor, sobre carinho... Mas eu penso muito em mim, em quem eu seguiria. Eu quero ser essa pessoa para a geração que está chegando."

Ou seja, mais do que ter inúmeros seguidores e likes, entender o que você quer transmitir para seu público é um diferencial. Aqueles que dominam rápido esse propósito saem na frente e se destacam no mercado – não por planejamento estratégico, mas por terem uma mensagem clara a ser compartilhada.

Como a internet é altamente inclusiva, o leque de possibilidades é infinito. "A internet me possibilita comunicar de uma forma que eu nunca poderia e eu sou muito grato por ela. Ela abre portas para eu falar sobre o que eu sinto e penso. Óbvio que eu poderia ter feito uma faculdade de jornalismo, mas da maneira que a internet me possibilitou – eu estou sentindo, vou lá, gravo e falo – é só na internet mesmo", completa Erik.

Eles buscam identificação e recriam o que conhecemos de conteúdo

Os jovens millennials são diferentes da geração anterior. Ligados na velocidade de um 4G, eles não buscam só segurança e estabilidade como os seus pais, mas algo com o qual possam se conectar e compartilhar as tais good vibes de que tanto falam.

O baque veio quando a publicidade tentou reproduzir no online o que estava acostumada a fazer no offline, e as críticas e aversão ao #publi mostraram que essa galera não quer um produto sem qualquer ligação com o contexto ou só pela desculpa de ganhar dinheiro. Seja pela publicidade ou dos conteúdos em geral, a confiança em quem fala é o mais importante - ou seja, esse público precisa saber que existe uma pessoa de carne e osso, como elas, por trás de tudo o que é feito, algo que o trabalho formal em comunicação não oferece com tanta abrangência.

"Se você não passar confiança no que está falando, as pessoas vão sentir", explica Gabs Flocquet, que além de cuidar do próprio canal no Youtube e redes sociais, é responsável pela edição dos vídeos de Nah Cardoso.

Eles são altamente criativos

O Musical.ly é uma rede que estourou há pouco: você com certeza viu alguns vídeos de dublagens, no estilo clipe musical, pela timeline. O apelo da rede é grande porque permite que a pessoa edite, coloque músicas e efeitos nos vídeos diretamente do celular, transformando a plataforma numa ferramenta e tanto para exercer a criatividade.

A rede, que este ano fechou uma parceria inédita com a Avon para o lançamento do seu canal e da campanha E ai tá pronta?, é uma das únicas voltadas totalmente para o público millennial, e essa galera tem usado os seus recursos para criar vídeos que misturam a diversão de recriar um clipe com a genialidade de usar efeitos especiais para montar conteúdos que divertem e cativam os teens.

Nessa rede, entre famosos como Maisa Silva e Cameron Dallas (com seus mais de 8 milhões de seguidores), existem jovens com pouco mais de 11 anos se tornaram sensações por ali, criando fama apenas fazendo vídeos divertidos: é o caso de Jacob Sartorius e Ariel Martins, além da brasileira Laura Fonseca.

"O Musical.ly é uma rede muito legal porque ele deixa tudo com uma vibe clipe. É uma plataforma mais teen, só que é uma coisa muito alegre. Você se diverte fazendo. Ele tem muitas opções de coisas engraçadas, transições... É uma rede muito espontânea. Você faz tudo na hora", comenta Erik, que tem também tem uma parceria com a rede por conta do seu público mais jovem. "É um outro formato, mas a galera se diverte muito ali".

Eles trabalham muito e estão sempre conectados

Se você pensa que os publicitários trabalham muito, com suas noites viradas e finais de semana na agência, espere até entender a rotina de quem vive das redes sociais.

A conectividade é obrigatória, e a falta de um horário fixo e de um limite entre o pessoal e o profissional coloca esses jovens em um patamar de trabalho duro, mesmo para plataformas tão dinâmicas quanto o Musical.ly. Como explicou Gabs, foi-se o tempo de errar nas redes; manter um fluxo de trabalho demanda qualidade e muita atenção.

"Quem vê de fora acha que é só subir um vídeo e fazer isso várias vezes todos os dias. E tem todo o processo de pensar no conteúdo. O meu processo é assim: eu penso na ideia – se vou falar de inverno, penso no que quero falar, faço pesquisas, monto o roteiro e gravo. Daí tem as cenas. Quantas são e como são? Depois tem a edição, que pode levar seis ou oito horas dependendo da quantidade. Daí tem que pensar na miniatura, subir o vídeo e, depois, você tem que divulgar", detalha.

O resultado compensa a partir do momento que a conexão é estabelecida com quem acompanha esses canais. Por isso, é fácil perceber que a internet vai continuar – e crescer – como um meio de geração de empregos que combina com essa nova fase.

"Tudo é muito interligado, o online e o offline. As duas estão acontecendo ao mesmo tempo e são universos que conversam muito. Só que eu acho que o online tem essa coisa da velocidade, ele é infinito. A gente tem muitas limitações aqui – meu olho não vê através da parede e meu ouvido escuta só até tal lugar. Na internet eu tenho uma visão muito sistêmica de tudo", diz Erick.

Talvez a única semelhança de jobs na internet com as carreiras tradicionais seja a pressão em relação a esse trabalho. Pressão essa que fica potencializada por conta da superexposição das pessoas hoje são consideradas bem-sucedidas.

"Tem dois tipos de pessoas que estão nas redes sociais produzindo conteúdo", diz Gabs. "Aquelas com muita vontade de compartilhar e que só fazem por isso – e aí acaba virando um trabalho. E tem as pessoas que acham que vão entrar nesse ramo esperando ganhar dinheiro fácil. Mas para conseguir ficar tem que querer compartilhar."

Reprodução / Gabs Flocquet
Gabs Flocquet é youtuber e responsável pela edição dos vídeos de Nah Cardoso

Eles têm uma conexão direta com o público

Isso é o mais importante. Não ter uma conexão com quem acompanha o seu trabalho é um mau sinal na nova era. E os produtores de conteúdo entendem a relevância do feedback, sempre automático por causa da velocidade da web, e de ouvir o que público quer. Um bom influenciador sabe unir o que ele gosta de fazer com o que o seu público pede.

"É louco porque eu não sei como seria a minha vida sem isso. Eu estou muito acostumado a ter essa troca de energia junto com eles e de compartilhar o que eu estou sentindo, e eles receberem e me darem o feedback. Para mim, isso é o que alimenta a minha vida agora: eu poder preparar coisas sempre com muito carinho para eles", finaliza Erick.

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