MULHERES

Pitty: 'Não tenho nenhuma pretensão em ser porta-voz de nada'

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a cantora comentou sobre o retorno aos palcos, a maternidade e as bandeiras que defende.

04/08/2017 11:50 -03 | Atualizado 04/08/2017 12:22 -03
Jorge Bispo
"Quando comecei a cantar, na minha banda de hardcore, a surpresa era porque era uma mulher fazendo som pesado."
"A gente tem que subverter o rock. A mulher pode ser o que ela quiser."
Pitty

Desde muito cedo a cantora Pitty Leone mantinha seus ouvidos atentos ao que lhe parecia ser subversivo. Foi com Raul Seixas que a baiana passou a conhecer mais do rock. Depois, conheceu bandas como Metallica, Nirvana e Faith No More.

Nos anos 2000, montou a sua primeira banda de hard core e lançou o seu primeiro CD. Mas foi com Admirável Chip Novo, três anos depois, que a artista caiu nas graças do público.

De lá pra cá Pitty foi se consolidando. Além de suas músicas, os seus posicionamentos e o lugar que ela ocupa no mundo "viril" do rock tornam a baiana inspiração para outras tantas mulheres. Mas ela não quer se tornar porta-voz de nada.

"O que proponho é o diálogo, a reflexão; e eu gosto de trocar ideia, então a coisa acaba indo naturalmente, como numa conversa de mesa de bar", declara.

Recentemente, Pitty voltou aos palcos durante o Festival João Rock após meses afastada dedicando-se se a gravidez da primeira filha. A cantora baiana classificou como "emocionante" estar frente à frente novamente com um público lotado.

"Nunca tinha me afastado por um período tão longo. Foi difícil por conta da saudade, mas ao mesmo tempo eu estava completamente envolvida e tomada por uma missão muito importante: gerar, parir, nutrir, criar", compartilhou em entrevista ao HuffPost Brasil.

Nesta sexta-feira (4), após a pausa para cuidar da pequena Madalena, ela lança a música Na Pele em parceria com Elza Soares.

"Esse é o projeto especial para mim; eu escrevi essa música na época do Setevidas, e ela veio a tona agora, para Elza, por Elza. Acabou sendo uma merecida reverência à vida e obra dela", explica.

Se Raul começou o caminho e hoje ela tem esse encontro com Elza, Pitty também já dividiu o palco com Rita Lee e tem entre as suas inspirações outras tantas mulheres fortes como a feminista Simone de Beauvoir, a autora nigeriana Chimamanda, as postas Florbela Espanca e Hilda Hist, além de artistas como Elis Regina, Alison Mosshart, Sharon Jones, Sofia Coppola, Kate Moss e Nina Simone.

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"Esse é o projeto especial para mim; eu escrevi essa música na época do Setevidas, e ela veio a tona agora, para Elza, por Elza."

Em entrevista ao HuffPost Brasil, a cantora comentou sobre o retorno aos palcos, a maternidade e as bandeiras que defende.

HuffPost Brasil: Você foi a única mulher a subir ao palco do João Rock 2017, como enxerga a representatividade das mulheres em festivais como esse?

Pitty: Pensando em festivais de outros estilos ou mais misturados, a gente percebe que essa lacuna feminina tem bastante a ver com o rock, que é considerado masculino do ponto de vista do estereótipo mesmo: uma energia viril, forte, barulhenta, agressiva; elementos que não são associados comumente às mulheres. Por isso é importante ter mais e mais mulheres presentes em contextos como esse, para quebrar esse padrão e subverter esse estereótipo. A mulher pode ser o que ela quiser, e muitas têm essa energia viril. É importante respeitar isso. A figura da diva pop, da mpb, ou a que canta com voz de anjo é mais aceita porque é mais associada com o "ser mulher". É leve, delicado, adequado. Mas existem outras vozes, outras possibilidades e outras formas de expressão, então vamos aí abrindo caminho para isso também. Quando comecei a cantar, na minha banda de hardcore, a surpresa era porque era uma mulher fazendo som pesado. "Mas você, desse tamanho, uma menina tão bonitinha! Como pode?". Pois é, pode.

Ser mulher no mundo do rock sempre foi difícil?

Sempre foi uma coisa particular. Eu não sei se é necessariamente isso porque sempre fui mulher e nunca outra coisa, então é minha única referência. É o que é. Acho que a questão de querer fazer rock num ambiente majoritariamente dominado por uma cultura popular muito forte é que foi o grande desafio, paralela à questão de ser mulher. As duas coisas caminharam tão juntas que se confundem para mim.

Você lembra de alguma situação específica que te marcou, nesse sentido -- que aconteceu com você por você ser mulher?

Lembro da coisa de subir no palco e ouvir "elogios" sexistas e objetificados. E de tentar desconstruir isso no discurso, no diálogo, na ação. No vestuário. Na estética. De todas as formas.

Para a Pitty, como é ser mãe?

É um caos apaixonante. É avassalador e fascinante. Quando você acha que descobriu um jeito de fazer uma coisa, a coisa muda e você tem que mudar junto com ela. Esse dinamismo da vida, quando tem criança por perto, se mostra com toda sua força. E a coisa do tempo é um desafio: administrar, decidir prioridades, não se culpar pelo que não deu pra fazer.

Você pensa que é possível dar uma criação "feminista" para a Madalena? Como seria?

Penso que sim. Seria o que já é, e o que é óbvio: criá-la tentando ao máximo que ela não seja jamais tolhida por ser mulher, que ela não tenha medo das próprias vontades e desejos, que ela não se limite por questões de gênero. Dar espaço e possibilidades para que ela se descubra, o que gosta, quem é de verdade. E que ela respeite todas as pessoas, de todos os gêneros e identidades.

Talvez hoje se fale um pouco mais, mas ao longo do tempo, o fato de a maternidade ser vista como algo sagrado, romântico e bonito colocou as mulheres, mais uma vez, em um lugar que não pertencia a elas. Qual o seu olhar sobre isso?

Essa sacralização é uma prisão mesmo, porque quando a gente passa pelos perrengues da vida real na maternidade, a gente acha que não têm o direito de sentir nada que não esteja contido nesse belo ideal que a gente vê por aí. As mulheres são diferentes, diferentes contextos, condições sociais, afetivas, psicológicas. Diferentes bagagens. Cada uma vai passar pela maternidade de um jeito, dependendo de tudo isso que a gente tem e traz. Gosto de respeitar e olhar para essas individualidades, acho que isso nos fortalece e liberta.

O que foi mais difícil para você, até agora, na maternidade?

Nos primeiros meses, foi a questão da doação total, de me acertar com a amamentação, e de não me reconhece direito naquele novo corpo. Nesse momento, é conseguir conciliar minhas atividades profissionais com as necessidades da minha filha; estar o mais presente possível para ela e ainda assim conseguir trabalhar, me cuidar, escrever. E dormir! Tudo o que eu penso é quando será que eu vou conseguir dormir direito [risadas].

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"Temos que ter coragem de acordar todo dia e levantar da cama achando que vai ser melhor, senão não dá."

E, para você, como é pensar em colocar um filho nesse mundo -- que muitas vezes -- você critica em suas músicas?

É meio tenso, mas viver é um ato de coragem. Temos que ter coragem de acordar todo dia e levantar da cama achando que vai ser melhor, senão não dá. O fato dela existir me dá muita gana de ir pra frente, de conquistar, de melhorar. A mim mesma e ao mundo ao meu redor.

Você costuma usar as redes sociais. Inclusive, chegou a ser 'cobrada' por notícias durante a sua gravidez, quando decidiu deixar um pouco de lado esse tipo de exposição. Você acredita que hoje as redes sociais são ferramentas saudáveis? Elas ajudam para que se promova diálogos?

Acredito que sim. Como tudo, tem dois lados; mas o lado de democratizar a comunicação e ampliar o debate ainda é mais importante. O resto a gente ajusta com o tempo; é muito recente e todos estamos ainda aprendendo a lidar com essa liberdade. Liberdade demanda responsabilidade, né.

Como você enxerga o fato de ser uma artista e se posicionar claramente sobre temas ainda considerados tabus, como a igualdade de gênero e direitos das mulheres, por exemplo?

É uma coisa natural, porque as pessoas perguntam o que eu penso e eu só digo. Não tenho nenhuma pretensão em ser porta-voz de nada, nem de ser dona da verdade, nem de achar que eu sei mais que alguém. O que proponho é o diálogo, a reflexão; e eu gosto de trocar ideia, então a coisa acaba indo naturalmente, como numa conversa de mesa de bar. O foda é quando usam isso indevidamente em matérias e chamadas sensacionalistas; mas também não acho que a gente deva se omitir por conta disso. Minha atenção agora se volta para a banalização e o esvaziamento das pautas através de uma mídia que entendeu que essas questões têm chamado atenção das pessoas. Transformar expressões usadas por grupos de luta em clichês é muito fácil, e capitalizar em cima dessa demanda também. Há que se ter cuidado.

Você acha que o fato de participar do 'Saia Justa' amplificou sua voz para esses posicionamentos?

Acredito que sim, porque através do Saia eu dialogo com outras pessoas, de outras faixas etárias, ou que curtem outro tipo de música que não a minha. Tem sido uma experiência muito boa nesse sentido.

Quando se escuta o nome Pitty, percebe-se que você foi além de sua própria música, tem um nome consolidado. E, mesmo assim, não perdeu sua essência e simplicidade como artista e pessoa. Como você se vê hoje, com estes anos de carreira?

Como uma artista realizada mas sabe que ainda tem muito o que fazer, o que aprender, o que buscar. Eu sou zero apegada ao passado e fico sempre pensando no que posso descobrir de novo artisticamente, e em me arriscar no que ainda não fiz. Meu nome é futuro. Isso me motiva, me instiga. Acho que é por isso também que sempre sinto que o último disco é o mais legal, e acho que tem que ser assim mesmo, com essa sensação de dar um passo a cada obra. E também sou muito grata por conseguir me comunicar com as pessoas, por ver minha música fazendo parte do inconsciente coletivo, por ter gente que acompanha e respeita meu trabalho. Viver de arte é muito difícil, viver de rock então nem se fala, eu tenho consciência disso e espero poder ter essa conexão com as pessoas pra sempre, crescendo junto a cada disco.

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