MULHERES

'Escola da Justiça' prepara sobreviventes de tráfico sexual para se tornarem advogadas

'Quero combater a exploração sexual infantil e ajudar outras pessoas como eu', diz uma aluna.

04/08/2017 18:06 -03 | Atualizado 07/08/2017 14:05 -03

Um novo programa educacional na Índia está ajudando sobreviventes do tráfico sexual infantil a conseguir justiça para outras pessoas como elas – preparando-as para seguir carreira no direito.

Lançada em abril pela organização holandesa Free a Girl (Liberte uma Menina), que luta contra o tráfico sexual infantil, a Escola de Justiça fornece recursos financeiros e outros tipos de apoio a mulheres que escaparam do tráfico sexual de menores de idade, para que possam preparar-se para a universidade e se formar em direito. O objetivo é empoderar antigas vítimas para mudarem o modo como a justiça da Índia lida com o tráfico – porque muito frequentemente os responsáveis por esse crime não são levados a julgamento, disse ao HuffPost a fundadora do Free a Girl, Evelien Hölsken. O programa também tem o objetivo de conscientizar o público sobre o tráfico sexual infantil.

A aula inaugural da Escola de Justiça aconteceu em abril, com 19 alunas. Quatro delas foram aceitas na universidade e iniciarão seus estudos universitários este mês, disse Hölsken ao HuffPost. As outras 15 vão estudar por mais um ano antes de tentarem o ingresso na faculdade. Para proteger a segurança delas, a ONG não divulgou o nome completo das mulheres, a localização da escola ou o nome da universidade onde algumas delas estão estudando.

O HuffPost conversou por e-mail com algumas das mulheres, que compartilharam suas histórias e explicaram por que decidiram participar do programa.

"Por ser pobre, deixei minha família aos 9 anos de idade para ser empregada doméstica numa casa grande. Ali, o jardineiro, o porteiro, o varredor e outros homens me estupraram", contou Sangita, uma das sobreviventes do tráfico sexual. "Anos mais tarde eu saí daquela casa, mas não percebi que, sem ter dinheiro nem indicação de onde ir, eu não conseguiria voltar para casa. Pedi ajuda a uma mulher que estava pedindo esmola na rua, mas ela me levou a um bordel e me vendeu. Eu tinha 13 anos."

"Quero lutar contra a exploração sexual infantil e ajudar outras pessoas como eu", disse Sangita. "Estou muito interessada em me tornar advogada e foi por isso que entrei para a Escola da Justiça."

School for Justice
Sangita, sobrevivente do tráfico sexual infantil e participante da Escola de Justiça.

Segundo o Departamento de Estado dos EUA, milhões de mulheres e crianças são vítimas do tráfico sexual na Índia. Os traficantes frequentemente lhes prometem oportunidades de emprego ou casamento, mas então as forçam a se prostituir.

A Índia tem leis rígidas contra o tráfico sexual, mas elas nem sempre são implementadas. Em 2014, por exemplo, a polícia investigou 3.056 casos de tráfico de pessoas, dos quais 2.604 eram de tráfico sexual. Mas 77% dos traficantes levados a julgamento foram absolvidos.

Sangita contou ao HuffPost: "A polícia me salvou quando uma pessoa que trabalhava na zona denunciou que eu estava ali. Mas as pessoas do bordel nem sequer foram presas."

A Escola de Justiça ajuda as sobreviventes que querem tornar-se advogadas, cobrindo os custos das mensalidades, habitação, alimentação e transportes das alunas. Todas elas moram na mesma casa, que é administrada por funcionários da organização local parceira da ONG holandesa. Essa organização local resgata meninas de bordéis e lhes dá moradia e educação. Na Escola de Justiça as alunas têm aulas de inglês e fundamentos do direito e recebem ajuda para se candidatarem à universidade e depois de entrarem.

A ideia de criar a escola surgiu quando a Free a Girl contratou a agência de comunicações J. Walter Thompson, de Amsterdã, para criar um anúncio de conscientização sobre o tráfico sexual de crianças na Índia.

"Com 19 meninas nós não vamos mudar esse sistema", disse ao HuffPost o executivo da J. Walter Thompson, Bas Korsten. "Mas a gente dá início a um movimento. Essas jovens se tornam agentes de transformação. O problema do tráfico sexual infantil é discutido e aumentam as pressões internacionais por mudanças no sistema."

School for Justice
Participantes da Escola de Justiça.

Um dos grandes desafios encarados pela Escola de Justiça é o estigma enfrentado pelas sobreviventes do tráfico sexual. Por exemplo, disse Hölsken ao HuffPost, quando meninas e mulheres são resgatadas de bordéis, suas famílias nem sempre as aceitam de volta.

E há mais: segundo o Departamento de Estado americano, com frequência, em vez de dar às vítimas o apoio do qual necessitam, o governo indiano prende sobreviventes do tráfico sexual por crimes relacionados ao tráfico. O problema não se limita às vítimas de tráfico na Índia: nos Estados Unidos a polícia frequentemente vê as vítimas do tráfico sexual como criminosas e as prende por prostituição e acusações relacionadas.

"Alguns setores de nossa sociedade nos tratam como 'outra coisa', como um inseto que não tem direito à vida ou de fazer parte da sociedade", disse a sobrevivente Kalyani ao HuffPost em um e-mail. "Ainda não sou bem aceita por minha família."

"Elas não são vistas como vítimas", disse Hölsken. "As pessoas acham que elas são meninas más ou que têm preguiça de fazer outros tipos de trabalho."

School for Justice
Kalyani, sobrevivente do tráfico sexual infantil e participante na Escola de Justiça.

O programa Escola de Justiça custa US$3.400 por estudante por ano. Hölsken disse ao HuffPost que doadores particulares na Holanda já cobriram os custos dos próximos dois anos, mas que a escola está procurando mais doadores na Índia e em outros países para financiar uma nova turma de participantes em 2018 e depois disso.

O programa está apenas começando; à medida que for crescendo, pode enfrentar um sem-número de desafios. Todas as estudantes estão traumatizadas, observou Hölsken, e isso faz com que seja mais complicado permanecerem na escola pelo tempo suficiente para se formarem. Mas, com uma turma nova de alunas iniciando o programa a cada ano, existe a possibilidade de várias delas se formarem.

A Free a Girl estuda a possibilidade de reproduzir o programa no Brasil e em outros países.

"É por isso que a história de cada menina na escola é tão importante", disse Hölsken ao HuffPost. "Elas foram traficadas, foram vendidas, não foi uma escolha própria. Elas são muito corajosas. Sentimos enorme orgulho delas. Se ninguém ousar colocar a boca no trombone, nada vai mudar."

School for Justice
Participantes da Escola de Justiça.

*Este texto foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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