ENTRETENIMENTO

Jesuíta Barbosa: 'Pedro Malasartes é o retrato do brasileiro'

Em entrevista ao HuffPost Brasil, ator fala sobre seu novo trabalho no filme recordista de efeitos especiais na história do cinema brasileiro.

05/08/2017 16:00 -03 | Atualizado 09/08/2017 17:53 -03
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Aos 26 anos, ator pernambucano encarna protagonista inspirado no folclore brasileiro.

Ator em ascensão, Jesuíta Barbosa é conhecido pelo público cinéfilo por atuações marcantes em filmes como Tatuagem (2013) e Praia do Futuro (2014). Noveleiros de plantão também sabem que é o pernambucano de 26 anos por conta de seus trabalhos em recentes minisséries dramáticas da TV Globo, incluindo O Rebu, Ligações Perigosas e Justiça.

Nas próximas semanas, a repercussão de seu nome e talento deve chegar a novos patamares em todo o Brasil. É ele o protagonista de Malasartes e o Duelo com a Morte, dirigido por Paulo Morelli (Cidade dos Homens), anunciado como o filme recordista de efeitos especiais na história do cinema brasileiro.

Com estreia marcada para 10 de agosto, o conta a história de Pedro Malasartes - figura do folclore rural brasileiro que inspirou personagens célebres como Jeca Tatu e João Grilo. Sertanejo, pobre e astuto, ele vive um namorico com a bela Áurea (Ísis Valverde), romance reprovado pelo irmão mais velho da moça, Próspero (Milhem Cortaz), a quem o rapaz deve dinheiro.

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"Sabe essa postura bem do interior de quem é baixinho, pequeninho, mas ao mesmo tempo está muito atento a tudo? Malasartes é esse cara", conta Jesuíta em entrevista ao HuffPost Brasil. Em meio a trapaças e confusões, o personagem acaba sendo transportado para um mundo mágico onde tem que enfrentar a Morte (Júlio Andrade) cara a cara.

É nesse mundo mágico que reside os encantadores efeitos técnicos e de arte. Quando o protagonista vai para o mundo escuro, onde residem a Morte e as Bruxas Parcas, o que se vê são cenários criados em 3D em pós-produção totalmente feita no Brasil ao longo de dois anos. Foram gastos R$ 4,5 milhões só em efeitos especiais. E cerca de 100 profissionais participaram das operações.

Na entrevista abaixo, Jesuíta Barbosa falou sobre o desafio de atuar pela primeira vez em uma superprodução, o preconceito dos brasileiros com o cinema feito no País e a atualidade do protagonista que, segundo ele, "é o retrato do brasileiro".

HuffPost Brasil: Você já conhecia a figura de Pedro Malasartes antes de fazer o filme?

Jesuíta Barbosa: Eu tinha uma noção de que ele era uma figura folclórica, uma personagem que tinha essa energia de ser brincante, mas não tinha certeza de quem ele era. Daí fui pesquisar. Acredito que na cultura nordestina a gente tem outras representações desse tipo. Porém Malasartes, com esse nome específico, aparece mais na cultura sudestina. Resolvi então burlar isso. Cheguei no Paulo [Morelli, diretor do longa] e disse: 'Vamos misturar [as referências]'. Tem um sotaque que aparece que é mais do sudeste, mas não neguei minhas raízes nele de jeito nenhum.

Como foi atuar em ambientes sem cenários pré-definidos?

Foi ótimo. Eu fiquei encantado. Filmes grandiosos são feitos com Chroma Key. Quando a gente chegou e viu aquele Chroma, pensou: 'Nossa, isso vai virar o quê?'. Tinha um cenário de 10m de altura, bem grandioso, mas com um fundo totalmente verde. O [Leandro] Hassum fala de uma facilidade que a gente tem de trabalhar com a imaginação, mas ao mesmo tempo tem também uma dificuldade, porque a equipe não tinha muita certeza de como era a dimensão das coisas. A gente pensava: "qual o tamanho da vela?", "para onde eu olho?", "aqui ou ali?". O tempo todo a gente tinha que atuar em conjunto pra conseguir solucionar essas questões, porque meu olhar não podia focar em um ponto diferente da criação do outro. Foi um trabalho de muita comunhão.

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Para além dos efeitos visuais, o que você aponta como diferencial do filme que pode marcar o público?

Malasartes e o Duelo com a Morte é uma superprodução. Um filme para ver com a família e as pessoas que gostam de ver "cinema grande". Tem essa ideia equivocada do brasileiro e do latino de achar que o cinema do seu país é ruim, já que a ideia de cinema ideal é o cinema de Hollywood. Acredito que a gente tem que ensinar devagarinho que não é assim. Tem um cinema muito brasileiro, chamado de cinema da retomada, o cinema que é feito pelos diretores de Recife, muito autoral e dramático. Em todo caso, Malasartes vem com essa mistura [de cinema autoral com produção de estatura holywoodiana]. E tem uma característica forte do Brasil, apresentando esse personagem do interior. Acredito que as pessoas vão gostar.

Você vem de uma sequência de atuações mais dramáticas tanto no cinema quanto na TV. Considera Malasartes um personagem mais leve?

Antes de Malasartes, eu fiz um filme [inédito, com previsão de lançamento para setembro deste ano] de Cacá Diegues, que chama O Grande Circo Místico, gravado todo em Portugal. Ele também é um filme fantástico. Nele, eu faço um personagem que não morre, uma figura bem maravilhosa também. Então, eu estava nesse lugar meio suspenso. Acho que cheguei em Malasartes mais tranquilo. Logo encontrei com Chico [Zullo, diretor de arte] o registro vocal e de corpo que precisava. Mas confesso que essa leveza veio muito durante as filmagens, quando comecei a entender quem ele era. E também a partir da relações com os outros atores, observando como as personagens se davam.

Malasartes é aquele que chega aqui e pega uma coisa e vai embora. Ele é considerado ladrão, mas talvez precise se alimentar. Não estou aqui defendendo roubo, mas acho que existem condições específicas. Malasartes é uma questão de sobrevivência. Acho que é o retrato do brasileiro.

Existem características da sua personalidade em Malasartes?

Sim. Eu ficava muito à vontade nas filmagens. Sabe essa postura bem do interior de quem é baixinho, pequeninho, mas ao mesmo tempo está muito atento a tudo? Que a qualquer momento [estala o dedo] pode se colocar? Malasartes é esse cara. Acredito que tenho isso no meu interior. E eu conheço essas figuras loucas, gente que você considera louca e que na verdade é alguém que está fora do padrão. Uma pessoa que está num lugar diferente. Acredito que Malasartes passa muito por aí. Por isso se torna um mito ou alguém que todo mundo conhece e conta suas histórias sobre. Ele não tem tempo a perder, por uma questão de sobrevivência mesmo.

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Você acredita que existe essa figura do Malasartes no Brasil de hoje?

Acredito. O tempo inteiro. Nós somos sobreviventes aqui. O país numa tentativa de desenvolvimento, as pessoas perdendo emprego, na rua... Eu cheguei em São Paulo agora e vi muito mais moradores de rua do que da última vez que estive por aqui. Daí surgem os Malasartes. Pessoas que precisam lidar com tudo isso. Malasartes é aquele que chega aqui e pega uma coisa e vai embora. Ele é considerado ladrão, mas talvez precise se alimentar. Não estou aqui defendendo roubo, mas acho que existem condições específicas. Malasartes é uma questão de sobrevivência. Acho que é o retrato do brasileiro.

O que você levou de aprendizado do longa?

Uma coisa nova pra mim nesse filme foi o tamanho da produção. Eu nunca tinha feito um filme tão grande assim, com tanta gente na equipe. Nesse sentido mais profissional do que eu faço, foi diferente. Já no que o filme representa, acredito que Malasartes vem com a essa vontade de liberdade. Tem ali a representação da moral, no personagem do Milhem Cortaz, o cara que não quer que Malasartes case com a irmã porque ele é um pé rapado. Tem a coisa da Morte que eu vejo como algo muito espiritual, do risco. Malasartes precisa ser safo para lidar com essas coisas. E ele quer se colocar acima de qualquer moral. O filme fala, a meu ver, sobre liberdade.

Assista ao trailer de Malasartes e o Duelo com a Morte:

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