MULHERES

Quando a maquiagem virou coisa de mulher?

Até a Revolução Francesa, quem arrasava nos makes eram os homens. ✨

02/08/2017 16:27 -03 | Atualizado 03/08/2017 13:10 -03
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Não à toa os homens começaram a criar produtos de beleza para as irmãs, a mãe, esposas e filhas.

Os egípcios já sabiam: a maquiagem era um sinal de status e poder. Mais do que isso, pintar o rosto tinha tudo a ver com a religião: os olhos eram considerados a representação da alma. Além de proteger do sol e da areia, os delineados eram uma forma de reconhecer e celebrar as suas crenças.

Comparado com os dias de hoje, a maquiagem passou por muitas transições. A principal é que os homens raramente aparecem maquiados, e as mulheres usam produtos e mais produtos de beleza diariamente. E, apesar das mudanças, um fato inegável é que maquiagem é vista como "coisa de mulher".

O mais interessante é pensar que nem sempre foi assim. Se voltarmos um pouco na história, no século XV e o apogeu do renascimento, a moda e a beleza viviam a era do exagero: os grandes reis e suas roupas pomposas, muito coloridas, maquiagens e perucas ditavam a moda e, mais do que tudo, o status das pessoas na sociedade.

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Segundo a historiadora de moda Andreia Mirón, a maquiagem era um acessório indispensável dos homens porque marcava essa diferenciação social. "Os homens se vestiam muito mais e mais coloridos que as mulheres. Elas ficam em segundo plano porque o ponto principal são os reis e não suas esposas" diz.

Ora, mas se os homens eram tão conhecidos pelas maquiagens elaboradas (os filmes históricos retratam bem os rostos cheios de pó de arroz, blush e as 'mosquinhas' – as pintas falsas que indicavam o estado civil de um homem -, o que aconteceu que hoje só as mulheres fazem uso desses produtos?

A história nos ajuda mais uma vez. Andreia Mirón explica que quando os reis franceses caíram, durante a Revolução Francesa, o que 'caiu' não foram só as coroas, mas toda a vaidade que a nobreza francesa exibia a torto e a direito. Isso incluiu roupas muito coloridas, joias e, claro, a maquiagem. Vale ressaltar que o look masculino foi o mais afetado. "É o fim da beleza enquanto uma liberdade poética masculina", conta ela.

Com a Revolução industrial, os homens se limitam a três códigos de estilo: a cartola, a barba e o bigode (acredite, o visual hipster tem tudo a ver com essa época e nada relacionado aos lenhadores), e toda essa antiga vaidade masculina é absorvida pelas mulheres. Não à toa os homens começaram a criar produtos de beleza para as irmãs, a mãe, esposas e filhas. Eugene Rimmel é conhecido por ser um dos primeiros manufatores de produtos de beleza de que se tem conhecimento e o seu nome, pelo menos em português, remete à primeira máscara para cílios inventada no mundo.

Os tempos são outros

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Da esquerda para direita: Pabllo Vittar, Aretuza Lovi e Gloria Groove.

"Maquiagem é algo sem gênero, e somos nós quem moldamos a pessoa que estará por baixo da maquiagem", diz Vlada Vitrova. Ela é mulher e drag queen e começou o seu processo nesse mundo porque encontrou no cenário drag uma forma diferente de explorar a sua feminilidade. "A liberdade de criação com nosso rosto, corpo e trejeitos é algo que me cativou rapidamente", empolga-se.

A trajetória de Vlada prova que o que se pensa e acredita a respeito de maquiagem está mudando – e rápido. Enquanto, no começo, os produtos eram exclusividade dos homens para depois virarem prioridade das mulheres, hoje temos uma liberdade de expressão muito maior e uma abertura para pessoas diferentes se aventurarem com esses itens – é a ascensão do sem gênero. Até mesmo as mulheres entram na cultura do exagero para serem incluídas no ambiente drag queen, que é normalmente ocupado por homens.

Aliás, o cinema, o teatro e próprio cenário drag apareceram nesse meio como um escape para os homens que queriam explorar esse meio, mas não podiam por causa das regras sociais ocidentais pós-Revolução Francesa. Independentemente do gênero, a maquiagem entra como uma forma de as pessoas criarem personagens diferentes.

"A maquiagem é basicamente essencial. Ela muda seu rosto, e você consegue expressar ali a ideia que você tem. Como passar para o mundo a essência da minha personagem? Pela maquiagem e pelo figurino. E a maquiagem tem um impacto muito forte nessa criação e no modo como as pessoas enxergam sua personagem", conta a também drag Cherry Pop, parte do coletivo Riot Queens, de mulheres drag queens.

No último ano, várias marcas entraram nessa onda lideradas pela gigante de cosméticos Avon, que mostrou como essa expressividade pode ser importante e como as linhas que definem o que 'pode' e o que 'não pode' estão cada vez mais apagadas. Uma campanha com homens e mulheres usando maquiagens começa a colocar por terra a crença de que só um dos lados pode se beneficiar desse meio de expressão.

O cenário drag não é novo, mas o exagero, as cores e brilhos usados por seus adeptos podem ser uma lição e tanto para todos sobre como estamos no momento perfeito para equilibrar a balança novamente: nem para homens, nem para mulheres, mas as maquiagens são para pessoas. "Quando fazemos make de drag, percebemos que podemos ir muito além do que nos é imposto na maquiagem social, e brincar com todas as possibilidades pode ser libertador", explica Greta Dubois, também do Riot Queens.

Em países como o Japão e a Coréia do Sul é muito comum os homens usarem tanta maquiagem quanto as mulheres – bases e corretivos para o dia a dia, além de manterem uma rotina de cuidados tão séria quanto a feminina. E, segundo Andreia, o exemplo dessas sociedades milenares mostra apenas que a normalização da maquiagem é uma questão de tempo: o número de anos ou décadas que levará para uma população assimilar o que é considerado diferente do comum e adotar o que é positivo para a sua evolução como sociedade.

"Posso ser meio otimista, mas acredito que futuramente possamos viver em um mundo em que os homens gays, héteros, drags possam usar maquiagem quando quiserem sem serem julgados por isso. Maquiagem não tem gênero, todos nós podemos usar e brincar com as possibilidades que ela nos traz", finaliza Greta Dubois.

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