ENTRETENIMENTO

'Doctor Who' e o poder das séries de ficção científica lideradas por mulheres

Fantasia e ficção científica prometem imaginação sem limites. Várias produzidas por homens brancos, não.

02/08/2017 18:14 -03 | Atualizado 02/08/2017 18:14 -03
HULU Alamy BBC Getty Images Warner Brothers
Jodie Whittaker será a primeira mulher a ter o papel nos 50 anos de história de "Doctor Who".

Depois de 12 versões de "Doctor Who" centradas em homens, a BBC anunciou uma novidade importante sobre a série: o Senhor do Tempo da 13ª temporada é uma mulher.

A resposta à indicação de Jodie Whittaker para o papel central da série foi incrível. Para uma série que regularmente troca o ator que desempenha o personagem principal, esperava-se uma resposta apaixonada dos fãs. Mas, no caso de Whittaker, foi diferente. Em dezembro, ela será a primeira mulher a ter o papel nos 50 anos de história de "Doctor Who".

Como esperado, houve um pouco de "reação sexista furiosa" ao anúncio. Alguns fãs se incomodaram com o fato de um personagem homem por tantos anos de repente passar a ser mulher. (Pouco importa que o personagem principal tenha mudado de identidade física dezenas de vezes antes, ou que o show em si seja o reflexo de um mundo alienígena e fantasioso que contém vários outros cenários mais inverossímeis.) Mais alto que os protestos, porém, foram os aplausos para a decisão histórica tomada pelos produtores da série. Vídeos de meninas gritando de alegria com a notícia rapidamente viralizaram.

E não foram só as meninas que pareceram genuinamente contentes com o anúncio. A audiência de "Doctor Who" vem caindo com Peter Capaldi no papel principal, o 12º homem branco a interpretar o herói. As coisas precisavam de um chacoalhão havia algum tempo. A melhor maneira de fazê-lo era introduzir algo novo – qualquer novidade que satisfizesse a hora de fãs à espera de uma nova complicação em seu vasto e interconectado universo. Mas a reação das meninas representou o tipo de reação mais pura à escalação de Whittaker: depois de mais de 800 episódios com um Doctor Who homem salvando o mundo, finalmente veremos uma mulher – tida como mais inteligente que qualquer outro ser vivo, até aqui invicta na luta contra os adversários e cheia de uma confiança que só vem com a experiência de uma vida toda – reinando suprema na BBC.

Histórias de imaginação sem limites e a ideia de que tudo é possível nos deixam hipnotizados, mas muitas vezes nossa conexão com elas são os personagens, especialmente aqueles que nos lembram nós mesmos e nosso lugar no mundo.

Quando Rey (Daisy Ridley) pegou o sabre de luz pela primeira vez em "Star Wars: A Força Desperta", atacando Kylo Ren (Adam Driver) sem medo com uma arma só vista nas mãos de homens, os fãs tiveram uma sensação parecida. Quando a Mulher Maravilha (Gal Gadot) se catapultou através de uma janela depois de derrotar vários inimigos de uma vez, os fãs de super-herois acostumados a ver homens no comando tiveram uma sensação parecida. Quando a caça-fantasmas Jillian Holtzmann (Kate McKinnon) lambeu sua arma antes de aniquilar uma multidão de fantasmas, os fãs tiveram uma sensação parecida. Ficção científica e fantasia são construídas sobre esse tipo de reflexos dos fãs: imersos em histórias delirantes e extraordinárias, ficamos arrepiados, emocionados e choramos quando esses momentos de humanidade surgem de repente. Histórias de imaginação sem limites e a ideia de que tudo é possível nos deixam hipnotizados, mas muitas vezes nossa conexão com elas são os personagens, especialmente aqueles que nos lembram nós mesmos e nosso lugar no mundo.

Há décadas é fácil para os homens brancos encontrarem esses personagens, os Lukes, os Capitães América, os Peter Venkmans. Quando Whittaker tirou o capuz para revelar a nova cara do "Doctor Who", algumas mulheres também sentiram essa conexão. É verdade que já houve mulheres em personagens de destaque nas histórias de fantasia e ficção científica ("Alien", "Arquivo X", "Jornada nas Estrelas" e "Buffy"), mas séries de TV e filmes como "Doctor Who", "Star Wars", "Mulher Maravilha" e "Caça-Fantasmas" trazem algo relativamente novo, ou pelo menos pouco explorado até aqui: franquias de ficção científica lideradas por mulheres.

Na estréia do trailer de "Uma Dobra no Tempo", de Ava DuVernay – no mesmo fim de semana do anúncio de Whittaker --, as mulheres, especialmente as de cor, tiveram outro motivo para gritar de alegria. DuVernay pegou uma história conhecida, o livro de Madeleine L'Engle sobre uma menina em uma aventura interplanetária, e escalou atrizes de cor para personagens que seriam brancas no material original – Oprah Winfrey, Mindy Kaling, Storm Reid. "Meu processo no filme foi: 'e se?'", disse a diretora ao EW. "Com essas mulheres, me perguntei, será que poderíamos transformá-las em mulheres de idades, corpos, raças diferentes? Será que poderíamos introduzir cultura, introduzir história? E, a respeito das mulheres em sim, será que poderíamos refletir uma gama mais ampla de feminilidade?" Se o filme tiver continuações, há quatro outros livros da série para explorar esses objetivos.

O foco de DuVernay no "e se?" mostra perfeitamente o potencial para inovação contido na ficção científica. É um dos elementos que atraem os fãs para o gênero, a ideia de que um universo sem fronteiras pode nos ajudar a explorar questões que a realidade ainda tem de responder. Mas, além disso, DuVernay reconhece o poder da humanidade. Ela reconhece que representação – a simples ideia de que todo fã merece se enxergar nos personagens na tela – só amplia a conexão que as pessoas formam com as histórias, o que representa a base sobre qual se apoiam os fãs.

Pedidos para mais representação (incluindo para gays, trans e portadores de deficiência) são, no fim das contas, só apelos para as fronteiras do mundo dos fãs: deixem-nos entrar. Estamos assistindo do canto há algum tempo, mas queremos entrar de cabeça nesse mundo. O que você considera um erro de continuidade, uma divergência no cânone que abala seu entendimento de um mundo ficcional, nós consideramos uma porta, algo a que você tem acesso há anos.

A escalação de Whittaker, Ridley, Gadot e McKinnon é uma porta. Deveria haver outras.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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