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Afinal, é possível que uma ética se imponha no País?

'O perigo é a doença que não se manifesta. Estamos caminhando para a solução', defende o consultor da ONU, Luís Henrique Beust.

02/08/2017 19:35 -03 | Atualizado 02/08/2017 19:39 -03
Paulo Whitaker / Reuters

Dinheiro em cuecas, malas de propina, troca de favores e influência.

O imaginário do cenário político brasileiro é dominado pela falta de limites entre os bens públicos que são tratados como privados. E a Operação Lava Jato, desde que foi instalada, tem escancarado muitos dos problemas que ocorrem em Brasília.

Diante de tantas notícias, investigações e denúncias, é compreensível o brasileiro se sentir, no mínimo, perdido. A política institucional se afasta do dia a dia da sociedade, e os eleitores reclamam da falta de representatividade de seus governantes. O presidente atual, por exemplo, só é aceito por 5% de toda a população.

Mas, afinal, é possível que alguma ética se imponha sobre a política no País?

Para o consultor em educação, valores humanos, ética e desenvolvimento social da ONU, Luís Henrique Beust, o Brasil vive um momento histórico de "reconstrução".

"As novas gerações, especialmente as de políticos, sabem que vão ser cobrados. Não estamos mais diante de uma situação em que algumas promessas bastavam. Nós temos que ter um novo patamar em que a sociedade cobre também a dignidade e a capacidade de ser ético, se comportar dentro da moral. Essa é a nossa exigência", explica em entrevista ao HuffPost Brasil.

Beust aposta na capacidade empática do brasileiro, bem como em uma comunicação que constrói pontes diante da diversidade, como ferramentas para tornar real o clichê de "um país melhor".

filipefrazao via Getty Images

Leia a entrevista completa:

Temos a esperança de que uma ética ainda se imponha no país, mesmo com tantos fatos graves sendo expostos?

Acho que nós estamos passando por um momento muito importante da história brasileira. E que pode ser um momento de reflexão, em que a sociedade como um todo encontra um novo começo, uma nova postura diante da vida. Nós sempre soubemos que havia corrupção, todo mundo sabia, mas se fazia o jogo do avestruz, enfiava a cara na areia e fingia que não era com a gente.

Hoje em dia essa coisa ficou escancarada e eu sinto que nós temos dois riscos: primeiro, existem forças contrárias a divulgação e a investigação completa dessas barbaridades. O povo tem que estar muito atento a isso e se manifestar para impedir qualquer tipo de manobra.

Por outro lado, existe o risco de nos acostumarmos com as notícias do dia a dia e achar que tá tudo bem de novo. Como se as pessoas estivessem lidando com as coisas e os assuntos não são mais comigo. Falta ao brasileiro, de uma forma geral, aquelas manifestações das ruas. Nós mantivemos isso ao longo das décadas, mas não é como em outras sociedades protagonistas em que isso é uma atividade permanente. Nós vamos as ruas em momentos específicos e quando temos alguma bandeira mais chamativa, mas não temos o hábito de nos manifestar fora disso.

Precisamos nos dar conta de que essa é, sim, uma oportunidade de escrever um novo Brasil, de colocarmos um novo patamar de dignidade, de honestidade. De tal maneira que as novas gerações, especialmente as de políticos, saibam que vão ser cobrados. Não estamos mais diante de uma situação que algumas promessas bastavam. Nós temos que ter um novo patamar em que a sociedade cobre também a dignidade e a capacidade de ser ético, se comportar dentro da moral. Essa é a nossa exigência. Temos alguns movimento que já cobram e avaliam de uma maneira mais aprofundada aqueles que pretendem ser nossos representantes.

A ética vai se impor em nosso país, mesmo com todos esses fatos graves expostos. As dores, tanto as individuais como as sociais, chamam atenção para aquilo que está errado. Por estarmos sofrendo como estamos é que eu acredito que estamos caminhando para um processo de solução. Porque o perigo é aquela doença que não se manifesta, que corrói silenciosamente, como era nossa corrupção até agora - uma doença gravíssima que não manifestava dor.

Muito já se falou sobre a personalidade do povo e da política brasileira - de cordial ao complexo vira-lata, passando pelo patrimonialismo e a corrupção sistêmica. Como você enxerga hoje os valores da sociedade brasileira?

Existem muitos brasis. O brasileiro é um povo muito empático. Tenho trabalhado ao longo das décadas em cerca de 30 países. Não é por bairrismo, mas nunca encontrei um povo tão amável, generoso, com desejo de ajudar e com a disponibilidade de sair de seu caminho para prestar auxílio a outra pessoa, especialmente o estrangeiro. Na maioria dos países, o diferente não é bem visto. A empatia é uma de nossas grandes virtudes e tem que ser exercitada ao máximo. A empatia é uma das grandes leis do ser humano. Todas as religiões e fés, independente de sua crença, existe a regra de ouro. E a empatia é sempre a essência delas. Não precisamos de estudos de filosofia, religião ou ética para entender e praticar a empatia. Qualquer ser humano é capaz de se colocar no lugar do outro. Se não o faz, é por uma "preguiça espiritual". A empatia é a virtude que nos viabiliza sermos uma sociedade.

Os discursos de ódio, em grande parte veiculados por meio das redes sociais, têm ganhado espaço nas discussões. É possível combate-los?

Estamos em um momento de crise na comunicação. A comunicação através das redes sociais prejudica o desenvolvimento. As pessoas que se comunicam prioritariamente pelas redes são pessoas mais tristes e inseguras. Já temos pesquisas sobre isso. Nós temos um novo instrumento em mãos que não pode substituir 300 mil anos de evolução. Todo esse tempo a nossa comunicação foi olho no olho, o toque, o abraço ou a briga. Mas sempre foi presencial. Nada substitui em nosso psiquismo a presença, e isso precisa ser levado em conta.

É uma ilusão pensar que é mais fácil nas redes sociais. Na verdade ela não nos capacita a enfrentar o problema de frente. Nós precisamos colocar musculatura em nossas habilidades sociais. E isso significa o olho no olho, o diálogo, a conversa. O mundo virtual é virtual. Ele não é real. No mundo virtual todo mundo parece ser melhor e é tudo mentira. Mas a pessoa que faz a avaliação do outro acha que é verdade e que só ela está para trás. Tudo bem, tenhamos uma vida virtual, mas que ela não seja predominante em nossa vida.

É nesse sentido que você defende uma 'comunicação para a paz'? Como ela é construída?

A comunicação é uma das atividades humanas mais importantes. Se não fosse a comunicação, nenhum de nós sobreviveria. No dia a dia, os estudos mostram que 80% da nossa comunicação é não verbal. São os olhos, os músculos da face, a postura do corpo, a entonação. Esses comportamentos não verbalizados transmitem a maior parte de nossas mensagens. O tom de voz diz muito sobre os significados das palavras.

Dentro disso, a comunicação para a paz é um avanço além da comunicação não violenta. A comunicação não violenta seria evitar as ofensas e a não atribuição de culpas. Por exemplo, no lar, em vez de dizer 'você estragou a parede', por que não perguntar 'por que você fez isso?'. As crianças têm suas razões. Uma vez, conheci um pai que me disse que o filho tinha pintado toda a parede com giz de cera. Quando ele foi perguntar o motivo, a criança respondeu: 'Eu só queria ser feliz.'

A linguagem não violenta evita a ofensa. Intencionalmente evita machucar, humilhar e desprezar o outro. É um exercício. Temos que tirar algumas palavras do nosso uso, por exemplo. Mas a comunicação para a paz vai além disso. A não violenta evita a agressão. A comunicação para a paz constrói pontes, unidades na diversidade. E necessário respeitar a independência, o protagonismo e a historia de cada um. Hoje em dia a gente não se escuta. Seja em uma reunião ou em uma conversa. Quando a gente entende o porquê de uma pessoa estar falando algo, fica muito mais facil dialogar.

Ela estabelece entendimento, ela constrói laços, ela ajuda o perdão e o sentimento de identidade. Ela é extremamente poderosa quando colocada em prática. Uma das estratégias mais importantes é evitar o 'não'. O 'não' cria uma barreria. Quando uma pessoa fala "Não. Mas eu acredito que..." ela já afastou o outro. Vamos começar as frases com o 'sim'. "Sim. Entendo o que você diz, mas deixa eu te explicar o meu ponto de vista." São pequenos detalhes que afetam o nosso inconsciente.

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