MULHERES

A solitária experiência da depressão depois de um aborto espontâneo

Para muitas mulheres, a interrupção da gravidez é seguida de depressão e até mesmo de estresse pós-traumático. Por que não estamos falando sobre isto?

02/08/2017 18:55 -03 | Atualizado 02/08/2017 18:58 -03
Portra Images via Getty Images
Até 20% das mulheres que enfrentam um aborto espontâneo desenvolvem sintomas de depressão e/ou ansiedade.

Em 2104, quando estava com 20 semanas de gestação, Valerie Meek fez um ecocardiograma e soube que o coração de seu menino não estava batendo. Um relatório de autópsia e patologia revelou depois que a morte foi causada por problemas com a placenta, que era simplesmente muito pequena para sustentá-lo. Seu filho era perfeito, Meek disse ao HuffPost. Ele apenas não conseguiu crescer e se desenvolver.

Durante as seis primeiras semanas depois de seu bebê ter nascido morto, Meek conversou com um terapeuta todos os dias. Ela havia se consultado com profissionais de saúde mental para tratar de uma combinação de depressão, ansiedade e transtorno do estresse pós-traumático (TEPT) por mais de uma década e há muito tempo dependia de terapia e medicação para controlar seus sintomas. De certa forma, sua longa história de problemas mentais foi uma benção após um golpe tão doloroso, disse.

"Não sei se teria sobrevivido à perda se já não tivesse essa enorme rede a postos", Meek contou ao HuffPost. Agora diretora de operações da ONG Pregnancy After Loss Support, ela sabe muito bem como é fácil as mulheres serem engolidas pela depressão depois de uma perda como a dela.

Até 15% das gestações em registro terminam em aborto espontâneo (definido como perda antes de 20 semanas), enquanto 1% das gestações nos Estados Unidos acabam em óbito fetal (morte do feto após 20 semanas de gravidez). Em outras palavras, o aborto espontâneo é comum. Ainda assim, a teimosa percepção de que é raro — um evento isolado que apenas afeta um punhado de mulheres grávidas — significa que as mulheres enfrentam não apenas luto e tristeza, mas um sentimento de profunda solidão.

E, até que o segredo e estigma que rondam o aborto espontâneo desapareçam, as mulheres são ignoradas, muitas das quais com o desenvolvimento de sérios problemas mentais, como depressão e transtorno do estresse pós-traumático.

Pesquisas científicas pelo menos começaram a revelar até que ponto as mulheres sofrem depois de tal perda. Estimativas indicam que até 20% das mulheres que enfrentam um aborto espontâneo desenvolvem sintomas de depressão e/ou ansiedade — sentimentos que não necessariamente desaparecem com o tempo ou mesmo depois de uma gravidez subsequente. Um impressionante estudo de 2011 realizado no Reino Unido sugere que tais impactos podem ser duradouros. Entre as mulheres que sofreram aborto espontâneo ou morte fetal, 13% ainda apresentavam sintomas de depressão mais de três anos depois da perda.

Outras pesquisas mostraram que mulheres que sofrem aborto espontâneo correm risco de desenvolver TEPT, mesmo se a perda ocorre relativamente cedo na gravidez. Quase 40% das mulheres que participaram de um estudo em 2016 — das quais a maioria teve aborto espontâneo nos primeiros três meses — estavam apresentando sintomas de TEPT, como reviver um evento traumático ou evitar qualquer situação que lembre o ocorrido. O TEPT pode ocorrer logo após um evento aterrorizante ou anos depois. Para muitas mulheres que sofreram um aborto espontâneo ou morte do feto, uma outra gravidez pode ser particularmente um fator desencadeante.

"Muitas mulheres apresentam trauma relacionado à sala de ultrassom", disse ao HuffPost Lindsey Henke, assistente social clínica e fundadora da Pregnancy After Loss Support. "É quando muitas mulheres são informadas sobre a perda ou pelo menos esta é confirmada, e [se elas ficam grávidas novamente] têm aquela reação corporal, aquele sentimento de terror e ansiedade que inundam os sentidos." Outras mulheres podem desenvolver sintomas de TEPT ao ir ao banheiro, disse, caso lá tenha sido onde notaram pela primeira vez que estavam sangrando.

Uma razão pela qual a depressão e o TEPT depois da interrupção da gravidez não são discutidos suficientemente é explicada pela tendência de diminuir a profundidade da dor das mulheres, principalmente se o aborto espontâneo aconteceu bem no começo, disse Henke. Mas as mulheres podem desenvolver um amor real e imediato por seu futuro filho e podem sofrer a perda da potencial maternidade. "Isso acontece do nada", avalia Henke. "Às vezes, as vidas das mulheres podem ser ameaçadas."

E, quando suas perdas não são tratadas seriamente, as mulheres são menos propensas a reconhecer que precisam de ajuda, e que essa ajuda está disponível para elas, acrescentou. A falta de tratamento pode ter consequências desnecessariamente trágicas, já que pesquisas mostram que a depressão e o TEPT são extremamente tratáveis.

Para Meek, uma história pessoal de problemas mentais pode ter sido seu salva-vidas. Outras mulheres não têm tanta sorte.

"Dói um pouco por dentro [pensar nelas]", disse. "Não poderia ter sobrevivido sem todo o apoio que tive. Além de muitas mulheres não possuírem uma rede de apoio de terapeutas, não dispõem de uma rede de apoio em sua família e amigos. Você precisa disso. Você precisa."

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e trasuzido do inglês.

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